Com a retirada dos tapumes no fim de 2025, parecia próxima a inauguração do boulevard de ligação da avenida Paulista com a rua São Carlos do Pinhal, no centro de São Paulo. Bases de cimento à espera dos quiosques até hoje mostram que a conclusão segue pendente, após mais de três anos da assinatura do termo de cooperação.
No fim de julho, a subprefeitura da Sé autorizou o segundo aditamento do acordo. O novo prazo é para 30 de novembro. Apesar disso, a área técnica da prefeitura recomendou que uma advertência fosse aplicada aos responsáveis pelo espaço, mas ainda não há decisão sobre isso.
Dívidas com fornecedores, reclamações de vizinhos e outros problemas envolveram a execução do projeto, batizado de “Sua Rua” e no qual o boulevard ganhou o nome de “Alameda das Flores”. Na proposta inicial, a obra completa tinha conclusão estimada em dez meses.
A responsável é a Associação São Paulo Capital da Diversidade, ligada à Cidade Matarazzo. O empreendimento vizinho transformou o antigo Hospital Umberto 1º em megacomplexo de luxo, comércio, gastronomia e cultura. À reportagem, a entidade disse desconhecer que há análise pendente de sanções na subprefeitura.
A principal justificativa da associação para o novo atraso é a “grande complexidade de execução” e a “especificidade artística” dos bancos, das mesas e dos quiosques, assinados pelo Estúdio Campana. As peças serão de cimento, inspiradas em raízes, troncos e galhos de árvores.
Também há demora na implantação da feira de orgânicos. Até março, estava em fase de planejamento operacional e estudo de viabilidade para seleção de produtores.
À Folha, a associação defendeu os resultados das ações no espaço até agora. Destacou a segurança, o paisagismo, 27 atividades culturais realizadas, intervenções de drenagem, enterramento de fiação e zeladoria. “O lugar se tornou um ponto turístico de interesse cultural e ambiental”, completou.
Em nota, a gestão Ricardo Nunes (MDB) disse que o aditamento foi realizado para “viabilizar as intervenções necessárias no espaço”. Adicionou que o alameda vai beneficiar cerca de 5.000 pedestres que passam diariamente pelo local, com acesso livre, paisagismo e atividades culturais.
O plantio de espécies nativas e o novo calçamento (com mosaicos de ladrilho hidráulico e piso de basalto e granito) são as principais mudanças por ora. Essas intervenções se estendem também por uma quadra da São Carlos do Pinhal e outra da alameda Rio Claro.
O acordo com a prefeitura é estimado em R$ 125 milhões, que abrange as intervenções e a manutenção do espaço por 30 anos. O projeto urbanístico é assinado por Adriana Levisky, coautora da remodelação da praça Victor Civita, na zona oeste, anos atrás. Ao todo, são 9.850 m².
Responsável por fiscalizar acordo foi contra nova extensão do prazo
O pedido de novo prazo ocorreu em março, dez dias após o então gestor que fiscalizava a execução pela subprefeitura da Sé (o advogado Rodolpho Furlan Domingues) fazer uma notificação extrajudicial pela falta de prestação de contas.
A associação apresentou relatório de execução de obra e outros documentos, que não foram analisados porque o cargo ficou vago — Domingues deixou a função em 16 de março.
O antigo responsável por monitorar o acordo havia sinalizado ser contrário ao aditamento. “O cooperante está ciente de suas obrigações há mais de 3 anos, não havendo alterações contratuais, caso fortuito ou de força maior, em um primeiro momento, que justifiquem a dilação de prazo solicitada”, argumentou à época em documento a que a reportagem teve acesso.
Como a avaliação oficial seguia pendente pela falta de novo gestor do termo, a análise jurídica remetida ao subprefeito coronel Marcus Vinicius Valério indicou o aval ao aditamento a partir do princípio de “boa-fé objetiva”. Isto é, confiança em quem fez o pedido.
A análise jurídica da subprefeitura indicou também a aplicação de uma advertência à associação pela falta de prestações de contas.
À prefeitura, a associação atribuiu os atrasos às características especiais do mobiliário, com fabricação especializada, o que demandou tempo de execução maior que o originalmente estimado. O aditamento anterior foi justificado pela necessidade de licenciamentos e autorizações em órgãos e secretarias municipais.
O pedido de advertência ainda vai ser analisado pela nova gestora, que foi nomeada em 28 de julho. A decisão caberá ao subprefeito.
Nesse meio tempo, os negócios ligados à Cidade Matarazzo enfrentaram problemas financeiros. A situação também impactou o boulevard, de modo que a associação responsável foi acionada judicialmente por ao menos duas fornecedoras.
Uma das ações foi extinta em junho de 2026, após quitação de R$ 332,1 mil com empresa de iluminação. Outra foi paga em julho de 2024, de R$ 10.157, a uma fornecedora de madeiras.
Fonte ==> Folha SP
