No Brasil, há maior vulnerabilidade climática para as crianças e adolescentes das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A região que engloba a amazônia, a maior floresta tropical do mundo, também concentra municípios em que jovens brasileiros enfrentam maiores exposições a riscos ambientais.
A conclusão está presente em uma nota técnica feita a partir do Painel Crianças e Meio Ambiente, ferramenta do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e da Vital Strategies lançada nesta quinta-feira (23), direcionado para gestão pública.
O painel engloba 14 indicadores de exposições ambientais na infância divididos nas áreas de qualidade do ar, infraestrutura ambiental e urbana, eventos climáticos extremos e ambiente escolar.
Esses indicadores, por sua vez, foram classificados em diferentes níveis de prioridade, a partir da comparação de cada cidade com municípios do mesmo porte populacional no país.
Segundo a análise, Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm maior concentração de municípios com 10 ou mais indicadores em situação de alta prioridade, o que indica necessidade de ação imediata para abordar os problemas. O destaque fica com o Norte, onde cerca de 42% dos municípios se enquadram nesta definição —as outras regiões mencionadas registram cerca de 6% nesse quesito.
“Essa concentração reflete a combinação de baixa cobertura de saneamento básico, intensa pressão ambiental e condições climáticas extremas que afetam de forma convergente boa parte do território da Amazônia Legal”, aponta o documento.
A análise indica, ainda, que das 30 cidades com maior concentração de vulnerabilidades climáticas para meninos e meninas, 24 estão no Norte, 4 no Nordeste e 2 em Mato Grosso, na borda da amazônia.
“A presença de municípios de fronteira agrícola com alto desmatamento —como em Mato Grosso e Pará— indica que a expansão econômica não tem sido acompanhada de melhora nos indicadores de proteção de crianças e adolescentes à exposição a riscos ambientais”, aponta a análise.
Eventos climáticos extremos
Destrinchando os indicadores de extremos climáticos, quase a totalidade da Amazônia Legal tem indicação de necessidade de ação imediata em relação a chuvas intensas, baseando-se no cenário de anos recentes. Algo similar ocorre com a região Sul, onde a maior parte está sob classificação alta e grande parte do restante, sob média prioridade, em que é recomendado planejamento e adoção de medidas a curto e médio prazo.
A análise destaca que, apesar dos dois perfis climáticos diferentes nessas regiões, em ambas há grande frequência de eventos intensos de chuva, o que leva à “tendência de encontrar solos, rios e infraestrutura com menor capacidade de absorção, ampliando o potencial de danos”. O relatório relembra, inclusive, a catástrofe climática provocada por chuvas intensas no Rio Grande do Sul em 2024.
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Outro dos indicadores diz respeito às ondas de calor. Mais uma vez, uma ampla fatia do Norte (cerca de 60% dos municípios da região) se encontra sob nível de prioridade alta, indicando grande vulnerabilidade de meninos e meninas da região ao fenômeno.
Os maiores índices, porém, estão no Centro-Oeste, que tem 64% das cidades classificadas como de alta prioridade para esse evento extremo. A mancha de municípios associados à prioridade máxima nesse quesito se estende ainda sobre partes do Nordeste, Paraná, o interior de São Paulo e um trecho de Minas Gerais.
Já quanto à seca, é indicada a adoção imediata de medidas de adaptação em 38% dos municípios do Sudeste (entre eles diversos do interior do estado de São Paulo) e 28% do Centro-Oeste. Já no Nordeste, região historicamente associada a secas, o percentual é próximo a zero.
“Esse resultado, entretanto, reflete o indicador sendo analisado, a partir da mudança da frequência de secas: municípios do semiárido, com seca histórica e endêmica, em geral não estão entre aqueles que tiveram os piores episódios, relativamente, no período 2021–2025, ao passo que regiões do Sudeste, por exemplo, vivenciaram deterioração hídrica mais recente e abrupta”, pondera a análise.
Os indicadores, vale destacar, vêm de fontes diferentes. Por exemplo, o da seca se refere ao Índice Integrado de Seca, do Cemaden; o de ondas de calor é derivado do programa Copernicus; e o de chuvas intensas do Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station Data.
Queimadas e poluição
Mas não é só na questão dos eventos extremos que há destaque para a amazônia. Um indicador potencialmente inesperado —ao menos em um primeiro momento— apontado como de prioridade alta na área é o de poluição do ar acima do limite.
Segundo a análise, cerca de 94% das cidades da região Norte estão na faixa de alta prioridade. O que explica isso provavelmente são os incêndios que atingem a floresta, diz o documento.
Seguindo uma linha mais esperada, outras regiões amplamente urbanizadas no país precisam de ações imediatas para lidar com a poluição do ar acima do limite. No Sudeste, por exemplo, 39% dos municípios estão nessa situação.
A análise aponta que a exposição crônica à alta concentração de material particulado (leia-se poluição do ar) é associada a doenças respiratórias e comprometimento do desenvolvimento pulmonar em crianças.
O Painel Crianças e Meio Ambiente é direcionado à gestão pública. Por isso, a plataforma conta também com recomendações —com base em orientações do governo federal; de organismos multilaterais, como o Unicef e a OMS (Organização Mundial de Saúde), entre outros— para apoio aos gestores municipais no planejamento e na implementação de políticas públicas, visando a proteção da infância e da adolescência em relação aos temas presentes nos indicadores.
Fonte ==> Folha SP
