A Casa Rosa, um dos endereços mais famosos de Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro, vive um cenário de insegurança e impasse judicial. O casarão de fachada cor-de-rosa, tombado como patrimônio histórico e cultural do município, foi ocupado irregularmente após uma reintegração de posse e agora abriga famílias em situação de vulnerabilidade.
A presença dos novos moradores e a falta de manutenção têm provocado apreensão entre vizinhos e temor de risco estrutural. O imóvel, localizado na rua Alice, ficou conhecido nas décadas de 1950 a 1970 por abrigar um dos prostíbulos mais luxuosos do país.
Frequentado por políticos, empresários e artistas, era símbolo da boêmia carioca e da vida noturna da época. Hoje, porém, o cenário é outro: o casarão está com infiltrações, paredes rachadas e instalações elétricas precárias, além de ser alvo de constantes reclamações de moradores da região.
Os herdeiros do espólio de Henrique Corrêa, antigo proprietário, conseguiram em 2021 uma liminar de reintegração de posse contra a última locatária, que deixou o imóvel com meses de aluguel atrasado.
Pouco depois, no entanto, o prédio foi invadido. Não se sabe ao certo o número de pessoas que vivem na casa hoje. Consta nos autos do processo que representantes da Secretaria Municipal de Assistência Social foram ao local, mas não conseguiram entrar.
Segundo o advogado da família, Fabiano Campos, a invasão ocorreu logo após a saída da locatária. Ele se mudou para São Paulo, segundo Campos, e não foi mais encontrada.
“A antiga inquilina passou as chaves a um desconhecido, que começou a negociar os cômodos com famílias em situação vulnerável. Hoje há pessoas pagando aluguel irregular, com ligações clandestinas de energia que já provocaram curtos e até princípios de incêndios”, afirma Campos.
A reportagem não conseguiu localizar a última inquilina, nem falar com as pessoas que vivem hoje no local.
A situação preocupa os moradores do entorno. Eles relatam barulho constante, lixo acumulado e ligações ilegais de energia que causam quedas de luz em outras residências da rua.
Um homem de 60 anos que mora próximo ao local disse que há motos chegando a toda hora, e lixo jogado no passeio. Ele pediu para não ter seu nome divulgado.
Como a Casa Rosa não tem numeração aparente, os ocupantes usam endereços de outras casas para receber entregas e encomendas.
Em 30 de julho de 2021, a Defesa Civil interditou o imóvel após vistoria que constatou risco de colapso estrutural. O relatório técnico apontou rachaduras, infiltrações severas e precariedade nas instalações elétricas. O órgão determinou a necessidade imediata de obras de recuperação.
Procurada, a Defesa Civil disse que não foi acionada para novas vistorias, e que vizinhos ou o dono do imóvel podem solicitar a avaliação técnica pelo telefone 199.
Os ocupantes chegaram a acionar a Defensoria Pública para tentar suspender a reintegração de posse, alegando falta de alternativas de moradia, mas os pedidos foram negados.
O advogado informou que o processo de reintegração está concluso desde maio de 2025, aguardando nova decisão judicial.
De bordel de luxo a centro cultural
Moradora do bairro e proprietária de um hostel nas proximidades, Mônica Lima, 59, lembra com saudade da época em que a Casa Rosa foi um dos centros culturais mais vibrantes da zona sul carioca.
“A gente ia lá para ouvir samba, forró, conversar, encontrar amigos. Era um espaço alegre, cheio de vida e boa música. Um verdadeiro point de Laranjeiras”, recorda.
A Casa Rosa foi palco de histórias curiosas e frequentada por visitantes ilustres. Entre os moradores antigos e historiadores locais, como Pedro Figueira, circulam boatos de que Getúlio Vargas e pessoas ligadas ao regime militar frequentavam o bordel, entrando discretamente por um portão secreto. O casarão também recebia a visita de empresários, jogadores do Fluminense e artistas.
Após o fim das atividades como prostíbulo, em 1980, o casarão passou alguns anos fechado. Em 2000, o espaço renasceu como centro cultural, abrigando rodas de samba, feijoadas, festas e eventos musicais que atraíam turistas. O local chegou a sediar encontros de blocos de Carnaval e gravações de videoclipes, tornando-se ponto de referência na cena boêmia carioca.
Apesar da popularidade, acumulou problemas: reclamações de barulho, irregularidades nas licenças de funcionamento e disputas entre inquilinos e herdeiros. Mesmo assim, a Casa Rosa manteve seu prestígio até meados de 2015, quando as atividades culturais cessaram e o imóvel foi tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal, em reconhecimento à sua relevância cultural e arquitetônica.
O casarão também inspirou o cineasta Gustavo Pizzi, autor do documentário Pretérito Perfeito (2008), que resgata memórias da boemia de Laranjeiras e inclui depoimentos de famosos como o cantor Lobão, frequentador do local.
Fonte ==> Folha SP
