As obras de construção do BRT Aricanduva começam na zona leste de São Paulo após 11 anos de espera. O projeto, com custo previsto de US$ 121,25 milhões (cerca de R$ 616 milhões), deve levar 18 meses para ficar pronto.
Assim, se o cronograma for seguido, ele será entregue no início de 2028, ano de eleição municipal.
Anunciado pela primeira vez no Plano de Mobilidade Urbana de 2015 do então prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), o corredor de ônibus rápido terá 13,6 km.
A inauguração deverá ser simultânea a de outro BRT, o Radial Leste, que começou a ser construído em 2014, mas teve obras paralisadas por irregularidades em contrato apontadas pelo TCU (Tribunal de Contas da União) e acabou retomado dez anos depois.
Quando pronto, seguirá pela via do mesmo nome e ligará a região central à zona leste paulistana.
O corredor de ônibus que irá seguir pela avenida Aricanduva foi citado nos discursos de início de mandato dos prefeitos João Doria (na época do PSDB e hoje sem partido) e Bruno Covas (do PSDB, morto em maio de 2021).
O projeto executivo só foi contratado em 2023, e a licitação acabou aberta em abril de 2024 —ou seja, as obras começarão dois anos depois, já na gestão Ricardo Nunes (MDB). Três consórcios vão tocar simultaneamente os quatro lotes da obra, que o Banco Mundial financia.
Segundo Marcos Monteiro, secretário de Obras da gestão Nunes, um dos motivos para a demora no processo foi o fato de a licitação ser internacional. Isso trouxe burocracias, como tradução de projeto, mesmo sem nenhum investidor estrangeiro interessado em participar do pregão.
Ele também cita exigências do Banco Mundial para liberar o financiamento, sendo a última delas a realização de uma palestra sobre assédio sexual —porque mulheres irão trabalhar nos canteiros de obras.
Com uma novela ainda mais longa, o BRT Radial Leste terá obras civis da primeira etapa concluídas ainda em 2026, segundo promessa da gestão municipal. O trecho vai do terminal Parque Dom Pedro 2º à rua Almirante Brasil, na Mooca.
Porém, ele só começará a funcionar quando os outros dois trechos estiverem prontos, em 18 meses (as obras estão previstas para começarem neste mês de agosto). No total, o corredor terá cerca de 9,5 km de extensão.
Segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras, os contratos para a construção dos dois últimos trechos estão assinados, e a ordem de serviço para o início dos trabalhos foi feita nesta sexta (31).
Quando prontos, os BRTs Aricanduva e Radial Leste prometem mudar o transporte público na região leste de São Paulo. A velocidade média dos ônibus, por exemplo, deve subir dos atuais 20 km/h (em corredores) para pouco mais de 29 km/h.
Os dois corredores, que serão interligados, estão orçados em pouco mais de R$ 1 bilhão e devem transportar quase 700 mil pessoas por dia, segundo estimativa da Prefeitura de São Paulo.
Somados, eles terão 70 paradas cobertas (trajetos de ida e volta), em tamanhos diferenciados e com piso no mesmo nível dos coletivos.
Haverá portas de plataforma automatizadas, posicionadas de acordo com modelo do ônibus. “É como um metrô de superfície”, diz Monteiro.
O projeto prevê cobrança desembarcada (nas estações), faixas de ultrapassagem nas paradas, ciclovia e calçadas acessíveis.
Os ônibus serão monitorados por meio de sensores que informarão em qual local do ponto eles deverão parar. A promessa é que painéis mostrarão o horário exato de chegada dos veículos.
Também haverá comunicação com semáforos para liberação do trânsito quando o coletivo se aproximar e integração com linhas de metrô.
As paradas dos BRTs serão equipadas com minicentros operacionais ligados ao que a SPTrans, estatal que gerencia o transporte coletivo municipal, está construindo no Pari (centro).
Especialistas ouvidos pela Folha dizem que os BRTs são importantes e ajudam a estruturar a rede de alta capacidade de transporte público coletivo.
“Eles têm capacidade próxima da metade de uma linha de metrô, a um custo muitíssimo menor. E são projetos mais rápidos para se construir do que um metrô”, diz Sérgio Ejzenberg, mestre em engenharia de transportes
Rafael Calabria, pesquisador de mobilidade do BRCidades, afirma que investimentos em corredores de ônibus são essenciais para a realidade do transporte público. “É urgentíssimo se investir em corredores desse calibre, mas a política de mobilidade da cidade previa muito mais que apenas dois”, diz.
Para ele, os atrasos ocorrem porque recursos previstos para o transporte público acabam sendo transferidos para outras áreas da administração pública.
CANTEIRO DE OBRAS E TRÂNSITO
Há obras do BRT espalhadas pela Radial Leste, desde as proximidades do terminal de ônibus Dom Pedro 2º, na região central.
Na semana passada, começou a interdição por 120 dias de uma das pistas da Radial Leste, na altura do viaduto Alcântara Machado. Como constatou a reportagem, mesmo fora do horário de pico, havia formação de trânsito na última terça-feira (28).
A estação Figueira, junto à rua do mesmo nome, ao lado da estação Dom Pedro 2º, do metrô, é a mais adiantada.
A estrutura metálica das paradas está praticamente pronta, mas ainda faltam cobertura, acabamento e a parte elétrica. Além da conclusão do piso. No local será construída uma praça no futuro.
A promessa é que as obras civis de todas as estações dessa primeira fase do corredor estejam prontas até o fim do ano, apesar de muitos trechos estarem com aparência de crus, e a instalação dos sistemas de funcionamento comece em seguida.
Assim como nas linhas de trens e metrô, os dois BRTs devem passar por operação assistida quando inaugurados, com horário reduzido no início. Não haverá troca dos ônibus, pelo menos no começo.
Ao contrário do Aricanduva, que levou mais de uma década para finalmente sair do papel, o Radial teve idas e vindas.
Citado inicialmente em 2011 pelo então prefeito Gilberto Kassab (PSD), a licitação foi realizada em 2012. Em 2014, com apenas 1% das obras realizadas, o Tribunal de Contas da União barrou os trabalhos por entender que houve restrição à competição na concorrência.
Além disso, os orçamentos da obra estariam com sobrepreço (valores acima do mercado) e o projeto básico era falho, conforme o TCU. O contrato acabou rescindido em 2019.
A nova licitação foi aberta apenas em 2024, um ano após ter sido autorizada pelo TCM (Tribunal de Contas do Município). Atualmente ele é orçado em aproximadamente R$ 412 milhões.
Haverá uma segunda etapa, até Itaquera, também na zona leste. Apesar de o projeto está praticamente, pronto, não há previsão para início de obra.
Fonte ==> Folha SP
