Um ataque de Israel próximo a um ponto de distribuição de ajuda humanitária matou ao menos 31 pessoas na Faixa de Gaza neste domingo (1º), segundo equipes locais de saúde, em meio à troca de acusações entre Tel Aviv e o Hamas a respeito de negociações para um cessar-fogo.
O Exército de Israel afirmou em comunicado que estava investigando relatos de que palestinos haviam sido baleados em um local de distribuição de ajuda, mas não tinha conhecimento de ferimentos causados por disparos de seus militares.
O incidente em Rafah, no sul do território palestino, foi o mais recente de uma série de incidentes que reforça a volátil situação de segurança do retorno da entrada de ajuda humanitária em Gaza, após bloqueio israelense de quase três meses.
Ao menos 47 pessoas ficaram feridas na Faixa de Gaza na terça-feira (27), durante distribuição de alimentos, também em Rafah. Segundo a ONU, a maioria teria sido atingida por disparos de soldados que Tel Aviv chamou de “tiros de advertência”.
Em outro incidente, na quarta-feira (28), duas pessoas morreram após “hordas de famintos” invadirem um armazém do Programa Mundial de Alimentos (PMA), também das Nações Unidas, em Deir al-Balah, no centro de Gaza, de acordo com o PMA.
“Há mártires e feridos. Muitos feridos. É uma situação trágica neste lugar. Eu aconselho que ninguém vá aos pontos de entrega de ajuda”, disse o paramédico Abu Tareq no Hospital Nasser, na cidade próxima de Khan Yunis.
O Crescente Vermelho Palestino, afiliado à Cruz Vermelha internacional, disse que suas equipes médicas recuperaram corpos de 23 palestinos e trataram outros 23 feridos perto de um local de coleta de ajuda em Rafah.
Os locais de distribuição de ajuda humanitária em Rafah são operados pela Fundação Humanitária de Gaza (FHG), controversa organização com sede nos EUA.
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O Crescente Vermelho também relatou que mais 14 palestinos ficaram feridos perto de outro local no centro de Gaza. A organização humanitária com sede nos EUA também opera esse local.
A FHG negou que alguém tenha sido morto ou ferido perto do local que administra em Rafah e que toda a sua distribuição ocorreu sem incidentes.
A organização americana acusou o Hamas de fabricar “relatos falsos”.
Residentes e médicos disseram que soldados israelenses atiraram do solo em um guindaste próximo, e que um tanque abriu fogo contra milhares de pessoas que estavam a caminho de obter ajuda do local em Rafah. Imagens da Reuters mostraram veículos de ambulância transportando pessoas feridas para o Hospital Nasser.
O escritório de mídia da administração de Gaza, gerido pelo Hamas, disse que Israel transformou os locais de distribuição em “armadilhas mortais” para pessoas que buscam ajuda.
“Afirmamos ao mundo que o que está ocorrendo é um uso deliberado e malicioso da ajuda como ‘arma de guerra’, empregada para explorar civis famintos e reuni-los forçadamente em zonas de morte expostas, que são gerenciadas e monitoradas pelo Exército israelense”, disse o escritório.
Reda Abu Jazar afirmou que seu irmão foi morto enquanto esperava para coletar comida em um centro de distribuição de ajuda em Rafah. “Que eles parem com esses massacres, parem com esse genocídio. Eles estão nos matando”, disse ela, enquanto homens palestinos se reuniam para orações fúnebres.
Arafat Siyam afirmou que seu irmão havia saído às 23h da noite anterior para coletar comida para sua esposa e oito filhos no mesmo local de distribuição em Rafah, no sul de Gaza. Siyam acusou o Exército israelense de matar seu irmão. “Isso é injusto. O que eles estão fazendo é injusto”, disse ele.
A FHG é uma entidade com sede nos EUA apoiada por Washington e Tel Aviv que fornece ajuda humanitária em Gaza, contornando grupos de ajuda tradicionais. Começou a trabalhar em Gaza no mês passado e tem três locais de onde milhares coletaram ajuda.
A organização tem sido amplamente criticada pela comunidade internacional. Funcionários da ONU dizem que os planos de ajuda da FHG apenas fomentariam a realocação forçada de palestinos e mais violência. Além disso, a organização afirma que vai examinar palestinos que buscam ajuda humanitária em seus centros de distribuição para excluir pessoas ligadas ao Hamas.
O diretor executivo do grupo renunciou em maio, citando o que ele disse ser a falta de independência e neutralidade da entidade. Não está claro quem financia a empresa.
Neste sábado (31), o Hamas afirmou que buscava emendas à proposta de cessar-fogo do enviado americano para o Oriente Médio, Steve Witkoff. O enviado rejeitou a resposta do grupo como “totalmente inaceitável”.
O grupo terrorista palestino disse que estava disposto a libertar 10 reféns vivos e entregar os corpos de 18 mortos em troca de prisioneiros palestinos em prisões israelenses, mas reiterou as exigências de fim da guerra e retirada das tropas israelenses de Gaza, condições que Israel rejeita.
Israel iniciou sua ofensiva em Gaza em resposta ao ataque liderado pelo Hamas a comunidades no sul de Israel em 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 pessoas, principalmente civis, e viu 251 serem levados como reféns para Gaza. A campanha de Israel devastou grande parte de Gaza, matando mais de 54 mil palestinos, segundo o Hamas, que não diferencia civis de combatentes na contagem, e destruindo a maioria dos edifícios.
Fonte ==> Folha SP
