Biodiesel marítimo fica mais barato que combustível fóssil – 20/09/2026 – Economia sustentável

Vista de usina de biodiesel no município de Lucas do Rio Verde (MT)

O preço do biodiesel para transporte marítimo caiu nesta semana ao menor nível já registrado e ficou mais barato que a maioria dos combustíveis marítimos convencionais, enquanto o conflito no Oriente Médio eleva os custos do diesel.

O preço do combustível alternativo no porto de Roterdã, que abriga o maior polo de produção de biocombustíveis do mundo, chegou a US$ 985 por tonelada na segunda-feira (14), segundo a agência de preços Argus —o menor valor já registrado e abaixo dos US$ 1.388 observados em julho. A queda ocorreu depois que produtores reduziram os preços para impulsionar as vendas e ajudar a cumprir suas metas de emissões na União Europeia. Desde então, a cotação se recuperou para US$ 1.240.

Isso ocorre enquanto o preço do gasóleo marítimo, combustível essencial para a navegação, disparou de US$ 714,50 por tonelada, pouco antes do início da guerra com o Irã em fevereiro, para US$ 1.528,50 nesta semana, em meio a crescentes interrupções no abastecimento.

Vista de usina de biodiesel no município de Lucas do Rio Verde (MT)

Vista de usina de biodiesel no município de Lucas do Rio Verde (MT)


Lalo de Almeida – 11.mai.12/Folhapress

Quando se consideram os custos relacionados ao cumprimento dos limites da UE para as emissões de carbono dos combustíveis marítimos e o preço das licenças de carbono do setor, o biodiesel fica mais barato que “quase todos” os combustíveis marítimos convencionais, afirmou a Argus.

Essa inversão incomum de preços pode acelerar a adoção de biocombustíveis mais sustentáveis pelo transporte marítimo, segundo analistas, à medida que aumenta a pressão regulatória para reduzir as emissões. O setor responde por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Esse “novo e surpreendente desdobramento” deve incentivar os armadores “a repensar suas estratégias de combustível, já que os biocombustíveis marítimos muitas vezes podem sair mais baratos que o gasóleo marítimo quando se levam em conta as economias líquidas de emissões disponíveis nos programas da UE”, afirmou Madeleine Jenkins, especialista em precificação de biocombustíveis europeus da Argus.

Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.

Os biocombustíveis podem ser usados na maioria das embarcações com poucas modificações, tanto misturados a combustíveis convencionais quanto em sua forma pura, e surgiram como uma das opções mais disponíveis para reduzir as emissões do transporte marítimo. Eles podem ser produzidos a partir de cultivos agrícolas ou resíduos orgânicos, mas têm densidade energética ligeiramente menor que a dos combustíveis convencionais, o que significa que os navios precisam queimar cerca de 7% a 10% mais combustível por viagem.

Uma parcela significativa do biodiesel vendido em Roterdã, o segundo maior centro de abastecimento de navios do mundo, atrás de Singapura, é produzida a partir de resíduos, como efluentes de usinas de óleo de palma do Sudeste Asiático e óleo proveniente de resíduos alimentares. Com isso, o biodiesel permaneceu em grande medida imune à alta dos preços dos combustíveis fósseis neste ano.

As vendas de misturas de biodiesel marítimo em Roterdã subiram acentuadamente na comparação anual no segundo trimestre de 2026 e mais que dobraram em relação aos três meses anteriores, impulsionadas pela disparada dos preços do diesel, provocada tanto pela guerra com o Irã quanto pela introdução de regras holandesas para implementar a Diretiva de Energia Renovável III da UE.

As regras holandesas exigem que os fornecedores de combustíveis marítimos reduzam as emissões associadas aos produtos que vendem, com metas que se tornam progressivamente mais rigorosas ao longo do tempo. Fornecedores que não estão no caminho para cumprir a meta deste ano reduziram os preços para vender biodiesel suficiente e se adequar às normas.

O Sistema de Comércio de Emissões da UE e o regulamento FuelEU Maritime também mudaram a equação econômica para os armadores ao impor um custo crescente aos combustíveis com alta intensidade de carbono.

A vantagem dos biocombustíveis em relação a outros combustíveis alternativos, como metanol ou amônia, é a facilidade de adoção pela frota existente. Jason Stefanatos, diretor global de descarbonização do grupo de classificação marítima DNV, descreveu-os como “praticamente uma solução de substituição direta”, afirmando que a maioria dos motores marítimos modernos poderia utilizá-los com pouca ou nenhuma adaptação.

Os navios ainda podem exigir mudanças, como a divisão de tanques em dois para armazenar tanto biocombustível quanto combustível marítimo convencional, ou ajustes nos procedimentos a bordo, mas isso “não é um obstáculo intransponível nem algo particularmente trabalhoso”, acrescentou.

Ainda assim, os biocombustíveis continuam representando uma parcela ínfima do mercado global de combustíveis marítimos. A DNV estima que eles respondam por cerca de 0,6% do consumo de combustível na navegação, apesar do rápido crescimento de sua adoção desde 2021.

Isso decorre, em parte, da concorrência com outros setores, como o transporte rodoviário e, cada vez mais, a aviação, por matérias-primas sustentáveis limitadas. As regras da UE que restringem quais materiais podem se qualificar para benefícios relacionados às emissões — devido ao receio de que cultivos alimentares sejam desviados para a produção de combustíveis— também limitaram a oferta.

“É um combustível que certamente terá um papel no futuro”, afirmou Stefanatos, mas a dimensão de sua contribuição para a matriz de combustíveis marítimos “dependerá fortemente do preço e da disponibilidade”.

A Argus estima que a demanda por biodiesel avançado puro em Roterdã possa chegar a cerca de 250 mil toneladas neste ano, ou mais de 40% de um mercado marítimo global estimado em 600 mil toneladas. A produção mundial é de pouco menos de 4 milhões de toneladas, embora também abasteça outros setores além do transporte marítimo.





Fonte ==> Folha SP

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *