Bolsonaros foram de desconfiança a alinhamento aos EUA – 18/07/2026 – Política

Donald Trump e Jair Bolsonaro apertam as mãos em ambiente interno com bandeiras dos Estados Unidos e do Brasil ao fundo.

Em janeiro de 2019, o recém-eleito presidente Jair Bolsonaro (PL) trocou algumas palavras com o democrata Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos. Em um coquetel do Fórum Econômico Mundial, Bolsonaro disse ao interlocutor, conhecido pelo ativismo ambiental: “A Amazônia não pode ser esquecida. Temos muitas riquezas. E gostaríamos muito de explorá-las junto com os EUA”.

O convite, que gerou estranhamento –”Não entendi muito bem o que quis dizer”, Al Gore respondeu–, ficou marcado como um dos exemplos de alinhamento aos Estados Unidos durante a gestão Bolsonaro.

A mesma postura é adotada pelos filhos do ex-presidente, especialmente o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que escolheu a nação americana para seu autoexílio, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que, desde que anunciou sua pré-candidatura à Presidência, já viajou ao menos seis vezes ao país, onde descolou uma reunião e uma foto com o presidente Donald Trump.

Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1990 e 2000, imbuída de um nacionalismo comum nos círculos militares, a família Bolsonaro fazia críticas públicas aos americanos, os acusando de desejar explorar a Amazônia.

Em agosto de 1995, ao criticar a demarcação da terra indígena Yanomami, o então deputado federal Jair Bolsonaro afirmou que a região era alvo de “cobiça internacional” e que “soberania não se negocia”. Três anos depois, disse que havia “grande interesse norte-americano pela nossa Amazônia” devido às reservas minerais.

Como de costume, Flávio seguiu os passos do pai ao tratar do assunto no início de sua carreira política. Em outubro de 2003, enquanto deputado estadual no Rio de Janeiro, associou o interesse americano pelos povos indígenas às riquezas presentes nas áreas demarcadas. Afirmou que os Estados Unidos interferiam na nossa soberania e disse que, caso o Brasil não reagisse, o futuro seria de “dependência total” do país.

Dois anos antes, Carlos Bolsonaro (PL), então vereador no Rio de Janeiro, afirmara: “É extremamente ridículo abrir um jornal e ver uma manchete que diz o seguinte: ‘FMI está satisfeito com o Brasil’. Que país é este, meu Deus, que recebe elogios dos americanos em relação à nossa postura diante deles? O governo brasileiro está de cócoras para os EUA. Nós temos que tomar uma postura extremamente enérgica de patriotismo”.

À época, o mesmo Al Gore era tratado em certos grupos militares como o maior representante da ameaça americana ao território brasileiro, diz João Roberto Martins Filho, professor da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e estudioso do militarismo no Brasil há mais de 30 anos.

A suspeita de intervenção estrangeira nasceu com o fim da Guerra Fria e a ascensão dos Estados Unidos como a grande potência mundial, ele afirma. “Isso tinha uma função: criar uma causa unificadora no meio militar, que era a defesa da Amazônia.”

Segundo o professor, Bolsonaro adotou esse discurso para obter ganhos com sua base eleitoral. “Nessa primeira encarnação como militar rebelde, Bolsonaro falava coisas que poderiam ter apoio na reserva, que garantiam o voto da família militar.”

Há, também, outra explicação para a postura de desconfiança em relação aos americanos, afirma o cientista político Jorge Chaloub, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Bolsonaro surge quase como um sindicalista do baixo oficialato das Forças Armadas. Na década de 1990 havia a percepção [entre o grupo] de que o Exército tinha sido esquecido, que o Brasil estava entregue aos interesses do capital estrangeiro”, diz.

Chaloub lembra que, naquela época, havia um campo nacionalista de direita do qual fazia parte, por exemplo, o ex-deputado federal Enéas Carneiro, que era contrário ao comunismo e, também, aos Estados Unidos.

“Bolsonaro sempre teve proximidade com esse nacionalismo, que ajudava a explicar por que o [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso não dava dinheiro para o Exército. Esse discurso crítico ao neoliberalismo [do governo FHC] não pertencia só à esquerda nos anos 1990.”

A partir da metade da década de 2010 houve uma virada de chave no discurso dos Bolsonaros. Uma primeira inflexão ocorreu em julho de 2013, quando a Câmara discutiu uma moção de repúdio aos Estados Unidos após revelações de que a Agência de Segurança Nacional americana havia monitorado comunicações brasileiras.

Jair disse que os EUA eram um parceiro comercial importante e que o Brasil não deveria buscar “animosidades” com o país. Também afirmou que os brasileiros deviam homenagens aos americanos “pelo que ocorreu em 1964”.

Chaloub afirma que essa mudança de posicionamento se explica a partir da transição de Bolsonaro de um deputado do baixo clero para um político com potencial de se tornar uma grande liderança da direita. “Nesse movimento, ele entra em contato com um ecossistema mais amplo de direita que estava sendo formado, que incluía o Instituto Millenium, o Olavo de Carvalho, redes sociais como Orkut e Facebook”, diz.

Nesses espaços, afirma o professor, havia uma defesa explícita de alinhamento aos EUA para se contrapor ao que entendiam como um alinhamento internacional da esquerda a países como Venezuela, Cuba e a Argentina dos Kirchner.

“Para esse campo [de direita], existe uma guerra civilizacional entre culturas. De um lado está a cultura ocidental cristã, que estaria ameaçada. O Brasil faz parte dessa cultura, da qual o país líder é os Estados Unidos.”

Com a sobreposição temporal dos governos Trump e Bolsonaro, o alinhamento da família aos EUA se acentuou. No ano passado, o ex-presidente afirmou em entrevista ao jornal digital Poder360 que é apaixonado por Trump, pelos americanos e pelos Estados Unidos.

Essa intensificação se deu a partir do momento em que o bolsonarismo passou a mimetizar aspectos do Maga, o Make America Great Again (Torne a América Grande de Novo), movimento que alçou Trump ao poder, afirma Feliciano Guimarães, pesquisador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

Ele diz que o Brasil passou a integrar uma “internacional reacionária iliberal” capitaneada pelo Maga, segundo a qual “as elites globalistas, a soma de todas as esquerdas e os burocratas de Estado, estão destruindo as famílias tradicionais conservadoras e os valores do Ocidente”.

No segundo mandato de Trump surgiu um novo elemento que aprofundou ainda mais a aproximação dos Bolsonaros –uma estratégia americana mais agressiva de enfrentamento à China no continente. Por ter uma relação mais densa com os chineses, o Brasil se tornou o principal alvo, diz Guimarães.

“A estratégia de segurança nacional do presidente Trump, emitida no final de 2025 para 2026, que coloca as Américas como o centro de atuação do governo americano, tem como pano de fundo a disputa com a China”, afirma ele.

Enquanto se acumulam escândalos e obstáculos para a pré-campanha de Flávio no território nacional, da relação com Daniel Vorcaro, do Banco Master, aos entreveros com a madrasta, Michelle Bolsonaro (PL), o senador busca vitórias nos EUA. Comemorou, por exemplo, a decisão do governo Trump de classificar facções criminosas brasileiras como terroristas.

Por outro lado, o filho de Jair Bolsonaro tenta proteger sua imagem dos estragos do tarifaço, mal recebido pelo eleitorado e apoiado pelo irmão Eduardo no ano passado. Novas tarifas sobre uma série de produtos brasileiros foram confirmadas na noite de quarta-feira (15).

Para Guimarães, a relação de proximidade com o governo americano é um “problema estratégico grave” para o pré-candidato porque o tipo de agressividade que envolve a aplicação das tarifas gera um efeito conhecido como “rally around the flag”. Esse fenômeno acontece quando, em meio a uma grande crise internacional ou emergência, a população se une em torno do governo.

“Não há meios de Flávio conseguir reverter a percepção de que esse é um governo dos Estados Unidos agressivo aos interesses brasileiros.”



Fonte ==> Folha SP

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