Uma turística visita às ruínas romanas da cidade de Nimes, no sul da França, serviu como subterfúgio para o encontro secreto entre o então embaixador norte-americano Thomas Jefferson (1743-1826), principal autor da declaração de Independência dos Estados Unidos, e o estudante brasileiro de medicina José Joaquim Maia e Barbalho (1757-1788), que usava o pseudônimo Vendek.
A conversa presencial aconteceu em 21 de março de 1787.
Ambos trocavam cartas já há alguns meses. Vendek queria costurar apoio do recém-independente país da América do Norte a um movimento semelhante para que os domínios portugueses no Novo Mundo também fossem libertados do jugo colonial.
Episódio mais concreto da relação entre a fundação dos EUA e a Inconfidência Mineira, a reunião entre Jefferson e Vendek já havia sido apresentada pelo historiador britânico Kenneth Maxwell, em seu livro “A Devassa da Devassa – A Inconfidência Mineira: Brasil e Portugal (1750-1808)”.
No ano passado, ganhou mais detalhes documentais na pesquisa do historiador André Figueiredo Rodrigues, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ele é autor do livro “A Independência dos Estados Unidos e a Conjuração Mineira”.
“Pesquiso o tema há cerca de 30 anos, ao longo desse tempo fui levantando muito material, fichando depoimentos, reunindo cópias de documentos e correspondências, consultando vários arquivos”, conta ele, à BBC News Brasil.
No prefácio do livro de Rodrigues, o historiador norte-americano Erick Langer, professor na Universidade Georgetown, ressalta que a pesquisa mostra como a revolução ocorrida nos Estados Unidos em 1776 inspirou o separatismo em uma colônia portuguesa “em um período muito inicial dos movimentos de independência das Américas”, mostrando “o papel de liderança que mais tarde o Brasil assumiu nos movimentos anticoloniais das Américas”.
Professor na Universidade Federal de Minas Gerais e autor do livro “1789-1808 – O Império Luso-brasileiro e Os Brasis”, o historiador Luiz Carlos Villalta lembra à BBC News Brasil que esta não é a única evidência da semelhança ideológica entre os revolucionários norte-americanos e os inconfidentes mineiros naquela época.
Ambos os grupos consumiam as mesmas notícias de jornais sobre os acontecimentos e foram influenciados por livros com temática revolucionária. É o caso de “Histoire Philosohpique Des Deux Indes”, do iluminista francês Guilherme Thomas François Raynal (1713-1796), que assinava L’Abbé Raynal.
“Quatro dos inconfidentes mencionaram esta obra”, diz Villalta.
Segundo o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie, os Estados Unidos foram um grande modelo exportador de ideias de independência e de república.
Para ele, o ineditismo de pesquisas como a de Rodrigues está justamente em mostrar que a Inconfidência Mineira foi “o primeiro movimento” a receber e assimilar tal influência norte-americana “antes mesmo dos processos de independência da América espanhola”.
O professor americano qualifica como “fascinante” a história dos contatos estabelecidos entre “os revolucionários de Minas Gerais” e Jefferson.
“Os documentos [trazidos por Rodrigues] revelam uma trama de espionagem envolvendo um emissário americano e um estudante de medicina brasileiro, que demonstrava simpatia com o movimento de libertação de Portugal”, destaca. “Essa história, até então pouco conhecida, mostra como os Estados Unidos serviram de modelo para outras elites […] que desejavam conquistar a independência das monarquias europeias.”
Langer situa, assim, Joaquim José da Silva Xavier (o Tiradentes) e seu grupo como “um dos primeiros, se não o primeiro” movimento anticolonial latino-americano.
“Os Estados Unidos trouxeram para o continente americano a perspectiva de independência e de ruptura com a monarquia. Não dá para dissociar a Inconfidência Mineira dos acontecimentos norte-americanos”, afirma à BBC News Brasil o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (FESPSP).
Simpatia, mas sem envolvimento
Após a reunião com o brasileiro, Jefferson enviou relatório ao seu chefe, o diplomata John Jay (1745-1829), então secretário das Relações Exteriores da Confederação.
O embaixador dizia que no território brasileiro havia portugueses, “brancos nativos”, “escravos negros e mulatos”, “índios civilizados e selvagens”. Os portugueses seriam poucos, na maioria “esquecidos de sua mãe pátria” e com disposição para “se tornar independentes”.
O “corpo da nação” era formado pelos brancos nativos, com o número de escravizados sendo “tão numeroso quanto o de homens livres”. Já os indígenas, argumentava ele, não tinham “energia” e não se intrometeriam em qualquer iniciativa independentista.
Jefferson afirmava que os brasileiros queriam apoio dos norte-americanos, porque precisavam de uma nação inspiradora para que conseguissem empreender a independência. “Eles consideram a revolução americana como precursora das deles”, escreveu, dizendo que os brasileiros viam os Estados Unidos como capazes de lhes dar “um apoio honesto” e nutriam simpatia por eles.
Na análise do diplomata, o movimento separatista ocorreria pela união entre as capitanias do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e da Bahia. Jefferson acreditava que o Brasil teria sucesso se parasse de enviar aos portugueses os impostos coloniais sobre a exploração mineradora —o famoso “quinto”, que era devido à Coroa como tarifa após a extração de ouro, diamante e outras pedras preciosas.
Segundo Jefferson, se o Brasil cessasse de enviar esse montante a Portugal, a metrópole não teria recursos para uma contraofensiva que sufocasse um motim separatista. Pelas suas contas, Portugal precisaria de pelo menos um ano para conseguir preparar financeiramente uma expedição de repressão, revela o historiador Rodrigues em seu livro.
No relato, Jefferson diz que o estudante brasileiro gostaria que os norte-americanos fornecessem embarcações, trigo e peixe para o Brasil e que havia a intenção de que, uma vez independente, o território sul-americano estabelecessem um governo republicano.
“Durante toda a nossa conversa, tive o cuidado de lhe fazer ver que eu não tinha instruções, nem autoridade, para dizer uma palavra a qualquer pessoa sobre esse assunto, e que eu só poderia dar-lhe minhas próprias ideias como um único indivíduo”, salientou Jefferson, na sua missiva.
Ele afirmou que havia deixado claro ao estudante que sua recém-independente nação não estava “no momento em condições” de se intrometer “em nenhuma guerra” e que havia um desejo particular de “cultivar a amizade com Portugal, com quem mantemos um comércio vantajoso”.
“Mas uma revolução bem-sucedida no Brasil obviamente não seria desinteressante para nós”, disse.
‘De algum modo compatriotas’
No processo instituído para julgar os envolvidos na inconfidência mineira, o primeiro a contar às autoridades sobre conversas travadas entre Vendek e Jefferson foi o médico Domingos Vidal de Barbosa Laje (1761-1793).
Assim como seu conterrâneo, Laje também havia cursado medicina na Universidade de Montpellier, na França —por isso, ambos teriam convivido.
Laje, contudo, afirmou que seu colega atuou “fingindo-se enviado de sua nação”, considerou um atrevimento ele ter ido tratar com a autoridade norte-americana e acrescentou que Jefferson, “observando a sua proposição e ridícula figura, totalmente o desprezou”.
Nascido no Rio, Maia e Barbalho, o Vendek, havia estudado matemática em Coimbra e, a partir de 1785, cursava medicina em Montepellier. O historiador Rodrigues atesta que foi a partir desse ano que ele teria sido encarregado, “a mando de comerciantes do Rio”, de procurar o representante dos Estados Unidos para “discutir um possível apoio” a um movimento de independência do Brasil.
Na Europa, ele participou dos círculos intelectuais que alimentavam o desejo de romper com Portugal. Os mesmos grupos supriam, intelectual e ideologicamente, os ativistas que fizeram a Inconfidência Mineira.
Barbosa Laje afirmou que “havia cinco ou sete negociantes” do Rio procurando apoios internacionais. O principal interesse desses cariocas era na libertação do porto para negócios com outras potências que não só a metrópole portuguesa.
Segundo um dos depoimentos prestados por inconfidentes, a essa altura Tiradentes estava no Rio buscando apoio para seu movimento separatista, em uma confluência de interesses.
Conforme Rodrigues reconstitui em seu livro, a primeira carta trocada entre Vendek e Jefferson foi escrita pelo brasileiro em 2 de outubro de 1786. Ele pediu a um professor de sua universidade que entregasse a correspondência ao diplomata norte-americano —temia sofrer alguma retaliação por ser estrangeiro, segundo apurou o historiador.
Em francês, o estudante brasileiro afirmou que tinha um “assunto de grande relevância” para compartilhar. Afirmou, entretanto, que não poderia viajar até Paris, onde estava baseado o norte-americano.
No dia 16 do mesmo mês, Jefferson mandou resposta pelo mesmo professor. A tréplica de Vendek chegou ao diplomata em 21 de novembro. “Vós sabeis que a minha desgraçada pátria geme em uma terrível escravidão, que se torna cada dia mais insuportável desde o tempo da vossa gloriosa independência, pois os bárbaros portugueses nada poupam para nos fazer desgraçados com medo que sigamos os vossos passos”, escreveu ele.
O brasileiro completou que “decidimos seguir o exemplo marcante” dos Estados Unidos e “quebrar os grilhões e reanimar nossa liberdade, que está totalmente morta e oprimida pela força, que é o único direito que os europeus têm sobre a América”.
No entanto, Vendek dizia que para concretizar esse desejo o Brasil precisava “ter uma potência que dê uma mão”. E mirava nos Estados Unidos. “Dito isso, senhor, é a vossa nação que acreditamos ser a mais apta para nos ajudar, não só porque foi quem nos deu o exemplo, mas também porque a natureza nos fez habitantes do mesmo continente e, consequentemente, de algum modo compatriotas”, argumentou.
Um mês depois, em 26 de dezembro, Jefferson comunicou ao brasileiro que iria em breve embarcar para o sul da França em busca de tratamento de saúde em águas medicinais. Segundo Rodrigues, era mero artifício para despistar possíveis censores que pudessem ver nesse encontro alguma conspiração do embaixador contra uma potência europeia.
Há uma nova carta do brasileiro, em 5 de janeiro. Em 19 de março de 1787, Jefferson escreveu com seu plano. “Ele sugeriu que se encontrassem na cidade mediterrânea de Nimes, propondo que usassem como motivo para a reunião sigilosa o pretexto de que iriam visitar, como turistas, as ruínas romanas existentes naquela localidade”, revela Rodrigues.
Combinaram o encontro entre as colunas da antiga arena romana e acertaram que se hospedariam no mesmo hotel. Ali haveria uma “senha” para que soubessem quem era quem. Deveriam perguntar ao recepcionista sobre o “viajante estrangeiro que chegou hoje”.
Como explica o historiador Rodrigues, o intento de Vendek não despertou o apoio dos norte-americanos porque estes estavam mais preocupados em consolidar o seu processo de independência. Era momento de angariar o máximo de apoio da Europa, e não buscar antipatias que ainda pudessem fortalecer uma possível tentativa de reconquista inglesa.
Ao mesmo tempo, era um momento em que os norte-americanos tinham de financiar a construção da infraestrutura básica do seu país —não podiam se dar ao luxo de enviar recursos para movimentos estrangeiros.
“Enquanto nação em construção, os Estados Unidos dificilmente dariam apoio ao Brasil, pois a predileção estava em manter acordos econômicos com a Europa”, comenta Missiato. “Mas havia interesse deles em um país independente [no continente] com relações próximas.”
“Já os inconfidentes tinham forte interesse em se aproximar dos americanos. Viam nos Estados Unidos a salvaguarda da independência das Américas”, completa o historiador.
Segundo Villalta, Jefferson “não deu muita confiança”.
“Não houve ressonância disso por parte dele. Mas a busca por apoio indica que havia na América Portuguesa um anseio de imitar-se aos Estados Unidos.”
Ao longo de toda a década de 1780, aquelas ideias circularam entre a elite intelectual brasileira —os filhos dos ricos que eram enviados para estudar na Europa. Segundo Rodrigues, entre 1772 e 1785, cerca de 300 brasileiros frequentaram as carteiras da Universidade de Coimbra. De 1767 a 1793, 15 jovens do Brasil estudaram em Montepellier —sobretudo no curso de medicina.
Tiradentes tinha livro americano
Conforme informa o Museu da Inconfidência, de Ouro Preto, Tiradentes tinha um exemplar de um livro em francês chamado “Coletânea das Leis Constitutivas das Colônias Inglesas Confederadas Sob a Denominação de Estados Unidos da América Setentrional”, que incluía a declaração da independência do país. O exemplar, no acervo do museu, teria sido comprado em Birmingham, na Inglaterra, pelo engenheiro José Álvares Maciel (1760-1804), um dos intelectuais mineiros da época.
Segundo Rodrigues, Tiradentes utilizou o livro “para propagandear ideias subversivas” em Minas Gerais, incitando apoiadores “a participarem da rebelião que se planejava”.
O historiador conta que, entre os meses de julho e setembro de 1788, Tiradentes e o engenheiro Maciel se encontraram no Rio de Janeiro. Retornado há pouco da Europa, onde havia estudado, este contou ao militar mineiro sobre o sucesso da independência das 13 colônias britânicas na América do Norte e o presenteou com o livro.
Para o professor da Unesp, a partir daí os encontros entre os separatistas mineiros se tornaram mais frequentes, com a intensificação dos preparativos para a conjuração que ocorreria em breve.
No quarto e mais importante dos depoimentos de seu processo, prestado em 18 de janeiro de 1790, Tiradentes diria que Maciel havia lhe contado que “pelas nações estrangeiras por onde tinha andado”, seus interlocutores se admiravam que o Brasil não tivesse ainda seguido “o exemplo da América inglesa”.
Rodrigues descobriu, contudo, que as ideias independentistas já grassavam entre a elite intelectual de Minas antes disto. Em depoimento prestado em 21 de julho de 1789, no processo que julgava a Inconfidência Mineira, o fazendeiro Francisco Antônio de Oliveira Lopes (1750-1794) declarou que “a concepção inicial da ideia de estabelecer uma República em Minas foi obra do cônego Luís Vieira da Silva [(1735-1809)] em 1781”.
O sacerdote católico era considerado um dos mais eruditos entre os ideólogos do movimento dos inconfidentes mineiros, dono de uma biblioteca repleta de livros com ideias iluministas e republicanas. Segundo Lopes, o padre Silva defendia a instauração de uma “república livre e independente”.
No mesmo ano de 1781, um grupo de 12 estudantes do Rio e de Minas fizeram um pacto em Coimbra —eles se comprometiam a lutar pela independência do Brasil. “Esses estudantes, quando voltavam ao Brasil, traziam as influências das ideias liberais que circulavam na Europa”, diz Ramirez.
Inspiração e influência
De acordo com o geógrafo e economista Roberto Uebel, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), onde coordena o Núcleo de Estudos e Negócios Americanos, esse episódio mostra que havia uma aproximação entre os ideólogos da Inconfidência Mineira e os que haviam realizado a independência norte-americana —mas “os objetivos eram distintos” entre esses dois grupos.
“Não há evidências fortes de que os Estados Unidos já tivessem, naquele momento, um projeto estruturado para influenciar os rumos do território que viria a ser o Brasil”, diz ele, à BBC News Brasil. “O que existia era interesse diplomático e atenção ao que acontecia no mundo atlântico, mas não uma atuação direta ou sistemática.”
“Ainda não havia a intenção dos Estados Unidos de influenciar o Brasil”, completa Ramirez, lembrando que essa ideia dos norte-americanos de exercer uma liderança continental seria implementada apenas a partir de um século depois.
Thomas Jefferson, considerado um dos fundadores da república norte-americana, se tornaria o terceiro presidente dos Estados Unidos, comandando o país de 1801 a 1809.
Vendek, o estudante Maia e Barbalho, nunca retornaria ao Brasil. Ele morreu em Coimbra, Portugal, vítima de tuberculose, um ano antes do episódio da Inconfidência Mineira.
Fonte ==> Folha SP
