Campo Limpo tem disparada de alagamentos e inundações – 17/05/2026 – Cotidiano

Vista aérea mostra favela com casas pequenas e amontoadas ao lado de linha de trem elevada. Trem branco circula na via férrea paralela a uma avenida com poucos carros. Vegetação dispersa aparece entre as construções e ao longo da linha férrea.

Na tarde de 16 de janeiro, o motorista de aplicativo Marcos da Mata Ribeiro, 68, dirigia de volta para casa acompanhado da esposa Maria Deusdete Bezerra Ribeiro, 67. O carro em que estavam ficou preso em um trecho inundado da avenida Carlos Caldeira Filho, no distrito Vila Andrade, zona sul de São Paulo. A água subiu em três minutos e levou o veículo para dentro do córrego Morro do S.

O casal morreu na área com mais alagamentos e inundações na capital paulista no primeiro trimestre de 2026.

Alagamentos ocorrem quando a água sobe por falha na drenagem, e inundações, o quando há transbordamento de rios e córregos. Ao todo, foram 66 ocorrências anotadas pela Defesa Civil na região administrada pela subprefeitura do Campo Limpo. O número é o maior da série histórica iniciada em 2013 e também 50% mais alto do que os registros do mesmo período de 2025, mostra levantamento da Folha com dados do Geosampa, plataforma de informações geográficas da prefeitura.

O aumento destoa do padrão da cidade este ano: os 409 registros representam queda de 25% em relação ao ano passado e redução de 8% na comparação com a média histórica ajustada –sem considerar o atípico 2016 com mais de 3.800 casos, quase todos concentrados na subprefeitura de São Miguel Paulista (zona leste) devido a uma cheia prolongada no Jardim Pantanal e arredores.

A explosão dos registros de transbordamentos e de acúmulo de água em vias da subprefeitura do Campo Limpo –que também inclui os distritos Capão Redondo e Vila Andrade– contribuiu para que a zona sul tivesse 201 notificações de janeiro a março deste ano. Pela primeira vez desde 2013, a região ultrapassa a zona leste, que teve 160 casos na temporada de chuvas deste ano.

Cheias em bairros no leste paulistano são na maioria das vezes explicadas pela ocupação inadequada da várzea do rio Tietê. São Miguel Paulista e Itaim Paulista são as subprefeituras mais críticas e registraram respectivas 55 e 51 ocorrências em 2026.

Já a inversão do eixo das maiores cheias passando do leste para o sul paulistano passa por razões diversas, como a mudança no padrão das precipitações, a impermeabilização do solo e a redução de área verde, resultantes do crescimento urbano acelerado.

Embora o índice acumulado de chuva no primeiro trimestre na zona sul tenha sido de 636 mm, próximo da média de 645 mm do mesmo período de 2013 a 2026, tempestades intensas em curtos períodos passaram a ficar mais comuns, de acordo com o CGE (centro de emergências da prefeitura).

Na tempestade que resultou no transbordamento que tirou as vidas de Marcos e Maria, a bacia do Morro do S registrou 62 mm em apenas 30 minutos, quase 10% do total do trimestre. O volume é “raro e histórico nos parâmetros de engenharia”, segundo o órgão.

O crescente adensamento urbano associado às características geográficas da região e o histórico de investimento público em obras de drenagem também devem ser considerados, segundo Fernando Dornelles, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

A área campeã de alagamentos em São Paulo ocupa grande parte das bacias hidrográficas dos córregos Morro do S e Pirajuçara. Ambas altamente urbanizadas e com fundos de vales densamente ocupados por moradias, muitas resultantes de loteamentos irregulares e favelas.

A bacia do Morro do S tinha 71% de área impermeabilizada em 2016, ano do mapeamento para o plano local de drenagem. O documento previa que, sob a atual Lei de Zoneamento, a impermeabilização chegaria ao limite de 85%.

Situação igualmente desfavorável para a absorção da água pelo solo é a do sistema Pirajuçara. O principal estudo de drenagem dessa bacia apontava, em 2020, que a impermeabilização poderia subir de 73% para 81% com a atual Lei de Zoneamento. O índice ainda atingiria 89% nas áreas de residências de baixo padrão.

Outro dado que reflete o adensamento construtivo na bacia do Pirajuçara é o da área não vegetada, que passou de 92,6% para 95,1% de 2013 a 2024, segundo levantamento feito pelo engenheiro ambiental Edimilson Rodrigues, do MapBiomas.

No sistema Morro do S, as áreas urbanas já ocupavam 97,1% da área em 2013, sendo que o indicador avançou para 97,5% em 2024.

Tais dados dão pistas do porquê da concentração de notificações à Defesa Civil nas margens do córrego do Engenho, na bacia do Pirajuçara. O cruzamento dos transbordamentos com o mapeamento da ocupação, ambos pelo Geosampa, indica o acúmulo de ocorrências em trechos em que o curso d’água corta loteamentos irregulares e favelas.

Diante da irreversível urbanização, os reservatórios de armazenamento são as principais soluções para conter grandes volumes de água e amenizar cheias, sem desconsiderar a importância de intervenções como canalizações e parques lineares.

Apontado em 2016 como uma das estruturas necessárias para a bacia do Morro do S, o piscinão do Capão Redondo começou a ser construído em 2022 e não foi concluído no prazo de 36 meses. A prefeitura atribui o atraso à inesperada presença de granito nas escavações, dificultando o trabalho. Agora, a previsão é de que o reservatório passe a funcionar no segundo semestre.

A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) reclama que gestões anteriores investiram pouco em obras de drenagem na cidade. A administração afirma ter gasto R$ 10,6 bilhões em infraestrutura e serviços para combater o problema de 2021 a 2026, valor superior ao total aplicado de 2003 a 2020.

Outras das principais intervenções em andamento no sistema Morro do S, diz a prefeitura, são a canalização do córrego Água dos Brancos, do reservatório do córrego dos Freitas e das galerias do córrego São Luiz. Na bacia do Pirajuçara, a gestão afirma que estão em execução o reservatório do córrego Antonico e as obras na praça Alfredo Gomes. O município não comentou sobre o córrego do Engenho.

A prefeitura ponderou que os registros no Geosampa podem não representar a quantidade exata e a gravidade dos alagamentos, já que um único evento pode gerar múltiplos chamados da população.

A Folha optou por esse dado porque são justamente ocorrências atendidas pela Defesa Civil após serem informadas por cidadãos que observam ou se encontram em situação de risco. Outra opção seria usar os dados do CGE, coletados por agentes de trânsito. Essa alternativa esbarra em questões como o direcionamento para ocorrências de trânsito e a significativa redução no número de fiscais ao longo dos anos.



Fonte ==> Folha SP

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