Carro do ovo ajuda a combater violência doméstica – 29/08/2026 – Cotidiano

Carro do ovo ajuda a combater violência doméstica - 29/08/2026 - Cotidiano

Em São Paulo, a prevenção da violência contra a mulher vai de porta em porta com agentes comunitárias de saúde. Em Pernambuco, pega carona no carro do ovo. Em comum, as duas iniciativas usam caminhos pouco convencionais para levar informação sobre violência doméstica a comunidades onde campanhas tradicionais nem sempre chegam.

As experiências fazem parte de um cenário de iniciativas que buscam ampliar a participação das mulheres e enfrentar diferentes formas de violência. O mapeamento “Ecossistema de incentivo à participação e representatividade na política no Brasil”, do Instituto Update, identificou 114 iniciativas no país.

Segundo Carol Althaller, diretora-executiva do Instituto Update, a violência é uma barreira à entrada e à permanência das mulheres nos espaços de poder. Mulheres negras, indígenas, trans e de outros grupos historicamente afastados enfrentam barreiras específicas.

“As experiências mostram a importância de chegar às mulheres a partir dos próprios territórios e de suas redes. Há iniciativas que articulam apoio jurídico e psicológico, formação, comunicação e espaços seguros de troca. Isso ajuda a enfrentar um dos efeitos da violência política, que é justamente o isolamento das lideranças.”

Em São Paulo, a informação chega por quem já conhece o território: as agentes comunitárias de saúde.

Wagner Alves Pereira, da Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público, conta que o projeto surgiu da percepção de que o trabalho com as mulheres não poderia se limitar à responsabilização criminal dos agressores. Era preciso atuar também na assistência, na rede de atendimento e na efetivação dos direitos das mulheres.

A Lei Maria da Penha é conhecida, mas seus direitos nem sempre. “Quando você pergunta para as mulheres quais são os direitos que a lei contempla, as mulheres não sabem falar”, afirma Pereira.

A primeira cartilha, “Mulher, vire a página”, explicava o ciclo da violência e os direitos previstos em lei. Depois, a equipe percebeu que era preciso alcançar também mulheres imigrantes. O material ganhou versões em cinco idiomas e passou a ser levado às residências pelas agentes comunitárias.

As profissionais receberam capacitação sobre violência doméstica e a Lei Maria da Penha. A estratégia foi pensada para que a cartilha pudesse ser entregue a qualquer família, sem identificar uma mulher como vítima —e sem colocar a moradora ou a própria agente em uma situação de exposição.

As agentes tinham cerca de dois meses para distribuir os materiais e depois a equipe retornava para ouvir dúvidas e dificuldades. Para Pereira, a escolha delas é importante porque “chegam a lugares que muitas vezes o serviço público não chega”.

O projeto começou em Cidade Tiradentes e chegou a Guaianases (zona leste), região central e Perus (zona sul). A pandemia interrompeu parte da estratégia, quando as agentes precisaram se concentrar no combate à Covid-19.

É no estado, aliás, que se concentra a maior parte das iniciativas voltadas à participação política de mulheres, negras, indígenas e LGBTQIA+ mapeadas pelo Instituto Update: São Paulo soma 26 iniciativas — 22,8% do total nacional —, o maior número entre todos os estados pesquisados.

Em Pernambuco, a informação vem pelas ruas. A ação do Gajop (Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares) e do Fórum Popular de Segurança Pública de Pernambuco começa com a mobilização de organizações comunitárias.

De manhã, a equipe chega de kombi, conversa com as lideranças e começa o percurso. O alto-falante anuncia a chegada e chama os moradores. Os ovos ficam dentro da kombi. Ao lado do veículo, integrantes da equipe caminham com panfletos, panos de prato e bandejas. “Chega aí, quero trocar uma ideia com você”, diz a gravação que anuncia a ação.

O caminho nem sempre é simples. Em algumas comunidades, as ruas são estreitas, há escadarias e canais de esgoto a céu aberto. Quando a kombi não consegue avançar, a equipe segue a pé. Em alguns lugares, são as próprias moradoras que ajudam a transportar as bandejas em carros de mão.

“Cada comunidade tem uma dinâmica”, afirma Edina Jatobá, coordenadora-executiva do Gajop. Há locais onde as mulheres circulam bastante e outros em que evitam sair de casa por causa da violência. O que une os territórios, diz ela, é a presença da violência doméstica e uma forte organização comunitária.

Por isso, a ação só é realizada onde existe uma organização parceira para ajudar na mobilização.

Até o material foi pensado para entrar na rotina das casas. De um lado de uma das peças há uma receita de bolo; do outro, informações sobre violência doméstica, denúncia e telefones úteis. Também são distribuídos panos de prato.

A equipe passou a conversar também com os homens. O motorista da kombi grava mensagens específicas para eles, lembrando que violência doméstica é crime e que a comunidade conhece os canais de denúncia.

Em algumas casas, a abordagem vira conversa. Mulheres chamam a equipe para entrar e pedem que a orientação seja explicada em voz alta porque há um companheiro, namorado ou filho dentro da residência.

“A gente sai da casa com a certeza absoluta de que aquela informação chegou ao seu destino”, afirma Edina.

Para Alberto Kopittke, diretor do Instituto Cidade Segura, o carro do ovo segue uma estratégia considerada promissora pelas evidências internacionais: trabalhar dentro das comunidades para mudar normas sociais relacionadas à violência contra a mulher.

Para ele, a prevenção precisa envolver profissionais de saúde, assistência social, escolas e lideranças dos territórios, formando uma rede capaz de identificar e encaminhar casos, como ocorre no caso das cartilhas em São Paulo. “Campanha de mídia não funciona sozinha”, afirma.



Fonte ==> Folha SP

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