Do convés de um navio na costa leste da Groenlândia, a presença mais majestosa não são as baleias, os icebergs nem as imponentes montanhas cobertas por geleiras.
É o desfile de água gélida, azul, com 120 quilômetros de largura, que desce pela costa vindo do oceano Ártico. Mais ao sul, essas correntes se misturam com água tropical que sobe através da Corrente do Golfo, e juntas determinam as temperaturas oceânicas em todo o Atlântico Norte, como torneiras de água quente e fria em uma banheira gigante.
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Agora, porém, os humanos estão mexendo nas torneiras. O rápido aquecimento causado pelas emissões de gases de efeito estufa está tornando o Ártico mais chuvoso e derretendo seu gelo, tanto em terra quanto no mar.
Se muita dessa água excedente chegar ao Atlântico Norte, os cientistas temem que isso possa interromper os processos que trazem água quente dos trópicos. As consequências para o clima seriam de longo alcance: invernos mais gelados na Grã-Bretanha, furacões mais fortes no leste dos Estados Unidos e, talvez mais preocupante, mudanças nas faixas de chuva que alimentam populações na África, América do Sul e Ásia.
Para entender melhor essa ameaça, uma equipe de pesquisadores navegou da Islândia até a costa leste da Groenlândia neste verão com um navio carregado de equipamentos de coleta de dados. Essas águas são implacáveis com instrumentos delicados: encontros com icebergs são um risco constante. O gelo marinho torna a área intransitável durante grande parte do ano.
“Há muito poucos dados daqui”, disse Nick Foukal, oceanógrafo da Universidade da Geórgia (EUA), que liderou a expedição de duas semanas. “Então qualquer dado vai ser realmente, realmente importante.”
Observar as correntes oceânicas enquanto elas mudam é crucial para aprofundar a compreensão dos cientistas sobre como e quando elas podem atingir pontos de não retorno. O problema, à medida que os humanos alteram o clima da Terra, é que mudanças drásticas podem não esperar que os pesquisadores se sintam seguros em sua compreensão antes de começarem.
O que torna os mares ao redor da Groenlândia tão importantes para o planeta? A resposta está relacionada a um imenso ciclo de água que serpenteia pelos oceanos do mundo, conectando mudanças climáticas em locais distantes.
Você poderia começar a seguir esse ciclo no Atlântico tropical, onde o forte sol aquece o mar e o torna extrassalgado através da evaporação. Essa água viaja para cima, passando pela costa leste da América do Norte até que, nas proximidades da Islândia e da Groenlândia, começa a se transformar.
A água quente encontra o ar frio e libera parte de seu calor, tornando-se mais fria e densa. Isso faz com que ela afunde nas profundezas. Flui através do abismo, passando pela América do Sul e ao redor da Antártida, antes de ressurgir séculos depois, pronta para começar a jornada novamente.
Os cientistas deram a essa parte atlântica da esteira transportadora oceânica um nome pouco elegante: Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, ou Amoc (pronuncia-se “eimoque”, em inglês). E eles temem que um dia ela pare completamente.
O que os preocupa são aquelas quantidades crescentes de água doce se espalhando pelo Atlântico Norte. Elas diluem as correntes quentes e salgadas que viajam dos trópicos, fazendo com que afundem menos. Mas esse afundamento é o que impulsiona a água quente para o norte em primeiro lugar. Quando uma extremidade da esteira transportadora fica mais lenta, a outra também fica. Pouco a pouco, toda a esteira desacelera até que, em certo ponto, ela para.
Se isso acontecer, menos calor tropical chegaria às regiões setentrionais do Atlântico, tornando a Grã-Bretanha e os países nórdicos mais frios. Mais calor poderia permanecer próximo ao Caribe, fornecendo combustível extra para furacões e distorcendo os padrões atmosféricos que distribuem chuvas em ambos os lados do Atlântico e além.
Evidências geológicas nos dizem que tudo isso ocorreu várias vezes antes, mais recentemente há cerca de 12,8 mil anos. Hoje há sinais de que uma desaceleração está em curso, e os modelos dos cientistas preveem que ela continuará por décadas. A parte difícil é antecipar quando isso pode levar a outra paralisação. No próximo século? Na próxima década? No próximo ano?
“No mundo real, o ponto de inflexão parece muito mais próximo do que os modelos sugerem”, disse Stefan Rahmstorf, professor de física oceânica da Universidade de Potsdam, na Alemanha. Isso significa que o risco de que isso ocorra antes do final do século é significativo demais para ser ignorado, disse Rahmstorf.
O que ajudaria a reduzir as incertezas seriam mais medições sustentadas e de longo prazo sobre como a água em todo o Atlântico está mudando, disse Thomas Haine, professor de ciências da terra e planetárias da Universidade Johns Hopkins.
Nas últimas duas décadas, cientistas têm medido a Amoc ao longo de duas seções transversais importantes no hemisfério Norte, uma do Labrador à Groenlândia até a Escócia; a outra entre as Bahamas e as ilhas Canárias. Mas eles têm muito menos clareza sobre a água doce que flui do Ártico, disse Haine.
“Acreditamos que o sistema vai ter essa grande mudança, e sabemos disso antecipadamente”, disse ele. “Devemos sair e tentar observar isso acontecer.”
Depois de deixar o porto na Islândia e navegar além do Snaefellsjokull —o vulcão onde começa a “Viagem ao Centro da Terra”, livro de Júlio Verne—, Foukal e seus colegas foram recebidos na costa da Groenlândia por um sol glorioso e mares completamente calmos. Passariam dias antes que vissem qualquer uma dessas coisas novamente.
A carga principal de sua expedição era um arsenal de amarrações, cada uma equipada com instrumentos semelhantes a sonares para medir correntes oceânicas. Cada amarração também estava conectada a uma série de flutuadores, boias e instrumentos menores medindo temperatura e salinidade da água, como uma corrente com centenas de metros de comprimento.
Cinco das amarrações pareciam módulos lunares amarelos. Outra parecia um torpedo laranja achatado e estava conectada a uma boia em forma de barril projetada para desviar de icebergs. A boia ficaria escondida nas profundezas, escaneando as águas acima em busca de gelo passando, então subiria a uma profundidade segura para fazer medições antes de mergulhar novamente.
Os cientistas planejavam colocar as amarrações ao longo de um trecho a cerca de 56 km do fundo do mar, a 71 graus de latitude norte. Eles as deixariam lá até o próximo ano, permitindo que coletassem meses de medições da água que corre pela costa leste da Groenlândia.
Coletar dados dessa maneira lembra Foukal da pesca de lagosta que ele fazia quando crescia em Massachusetts (EUA): você não sabe o que conseguiu até puxar as gaiolas. “É como jogar dados”, disse ele.
Primeiro, porém, os cientistas e a tripulação tinham que retirar com segurança as pesadas amarrações do navio em movimento e colocá-las no mar exatamente nos pontos certos —uma produção altamente coreografada de guinchos, polias e cordas que James Dunn, assistente de engenharia sênior na expedição, comparou a um balé.
“Tudo tem que se encaixar de uma vez”, disse Dunn, que trabalha para o Instituto Oceanográfico Woods Hole em Massachusetts.
Nos primeiros dias da viagem, céus limpos e mares calmos ajudaram os cientistas e a tripulação a instalar as amarrações sem problemas. Logo, porém, o vento aumentou e as coisas ficaram mais difíceis.
O robô submarino em forma de charuto da equipe parou de funcionar e teve que ser pescado. Um importante equipamento científico no convés queimou um fusível, e uma substituição foi enviada por avião da Islândia para o vilarejo de caçadores de focas de Ittoqqortoormiit e trazida a bordo.
Para se abrigar das tempestades, os cientistas fizeram um desvio de vários dias no Scoresby Sound, um dos maiores fiordes do mundo, onde coletaram medições das águas que circulavam dentro e fora da profunda enseada.
Então a boia que desvia de icebergs começou a apresentar problemas, e os cientistas elaboraram um plano arriscado: eles navegariam de volta, puxariam a amarração para fora da água, tentariam consertar a boia e a reimplantariam.
O plano era a esperança dos pesquisadores para coletar todos os dados que queriam antes de julho do próximo ano, quando planejam recuperar seus instrumentos e começar a tirar conclusões sobre como as correntes costeiras estão se movendo e mudando.
Em uma manhã cinzenta e nítida, a estrutura em forma de torpedo surgiu à vista. Andrew Davies, assistente de engenharia do Woods Hole, inclinou-se sobre o corrimão de estibordo e a agarrou com um gancho em uma vara. Nikiforos Delatolas, engenheiro, passou a tarde e a noite debruçado sobre um laptop, solucionando os problemas da boia defeituosa.
Era meia-noite, fazia frio e chuviscava quando todo o equipamento estava de volta sob as ondas. Pela primeira vez em horas, os cientistas sorriram.
“Foi divertido”, disse Dunn. “Vamos fazer de novo.”
Fonte ==> Folha SP
