Anotações, exercícios, simulados e livros ao redor da mesa de estudos em casa. A cena, comum na rotina de vestibulandos, mostra uma fase marcada por cobranças, ansiedade e até uma sensação de insuficiência. A chegada do segundo semestre aciona uma contagem regressiva invisível na mente dos estudantes para os vestibulares e o Enem (Exame Nacional de Ensino Médio), transformando a reta final de preparação em uma verdadeira panela de pressão.
No entanto, essa pressão não começa no terceiro ano do ensino médio. Segundo a professora Rafaela Lemos, coordenadora de orientação educacional do Colégio Poliedro, o peso das expectativas costuma se manifestar antes do ano do vestibular.
“A mudança dos anos finais do fundamental para o início do ensino médio já inicia essa expectativa, porque muda calendário, mudam os professores, as estruturas de aulas. Todo o desenho do ensino médio já é com a proposta do final, dos vestibulares”, explica Lemos.
Com essa transição, os estudantes começam a ter simulados no dia a dia e conteúdos densos passam a ditar o ritmo de estudos.
Essa fase ganha contornos diferentes a depender da realidade socioeconômica. Mônica Gobbita, psicóloga e professora da PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas), ressalta que o vestibular funciona de maneiras distintas de acordo com a classe social.
Além disso, a psicóloga afirma que o vestibular atua na sociedade atual como um momento de transição simbólico, como um rito de passagem. “De maneira geral, o vestibular pode vir como um catalisador de crises. É um momento muito específico de rompimento com a vida infantil, com a vida de dependência dos pais.”
“Quando chegam no terceiro ano do ensino médio, o grupo social já vai perguntando: o que você vai fazer de vestibular? Já escolheu? Tudo isso vai dando consistência para essa pressão que é ter que escolher uma profissão aos 17 anos”, explica Gobbita.
Além da escolha de um caminho profissional, as redes sociais também podem ser uma ferramenta de amplificação dessa pressão pré-vestibular. A comparação com outros estudantes nas redes sociais pode alimentar o que especialistas chamam de “cultura tóxica do estudo”.
A professora Karina Fensterseifer, conselheira universitária da Escola Bilíngue Carolina Patrício, explica que alguns alunos consomem conteúdos de perfis que romantizam rotinas impossíveis.
“Isso gera uma pressão. O estudante olha o colega nas redes sociais fazendo tudo e ainda criando conteúdo, indo na academia e fazendo tudo. Isso gera uma cultura tóxica de competitividade e de autocobrança muito forte”, afirma Fensterseifer.
Lemos diz que esses conteúdos de vidas perfeitas nas redes sociais ampliam o estresse e a sensação persistente de que “não vou dar conta”.
Identificar quando o limite de estudo saudável foi ultrapassado é essencial. É um dos primeiros passos para evitar que a pressão se torne incontornável.
Segundo as especialistas, vários sinais indicam que o limite foi ultrapassado: queda súbita no rendimento, reclusão excessiva no quarto, isolamento familiar e episódios de sonolência excessiva ou insônia.
Fensterseifer conta que a ansiedade se manifesta também no corpo —como a clássica perna que não para de sacudir— e na incapacidade de se concentrar em atividades simples.
“É aquele aluno que não consegue focar numa conversa, acha que é tudo um desperdício de tempo, ter uma conversa, ter um momento de lazer, é como se ele estivesse deixando de estudar e sendo prejudicado”, explica a conselheira universitária.
Encontrar saídas para aliviar a pressão exige do estudante organização, apoio e equilíbrio para definir as prioridades. Uma das estratégias apontadas por Fensterseifer é dividir os estudos em pequenas metas alcançáveis no curto e médio prazo. Isso alivia o desespero de encarar o volume denso de conteúdo.
Além disso, práticas simples também fazem diferença. Alimentação, sono, momentos de lazer, descontração, prática de esportes e de mindfulness são importantes, segundo as especialistas.
Desmistificar o peso da escolha do curso também ajuda a reduzir a carga emocional. Gobbita afirma que é essencial “desinflar” o pensamento de que existe uma decisão perfeita ou definitiva.
“Nenhuma escolha que nós fizermos na vida vai ser 100% segura. Se a gente escolhe uma coisa, a gente está deixando outra”, conclui a psicóloga.
Como aliviar a pressão dos vestibulares e Enem
Com base nas dicas e recomendações das professoras Rafaela Lemos e Karina Fensterseifer e da psicóloga Mônica Gobbita, confira como aliviar a pressão dos vestibulares e Enem:
Monte um “Kit SOS” de autocuidado
Crie uma lista com ferramentas, músicas, filmes ou atividades que funcionem como um refúgio para momentos de alto estresse. Ter essa “caixinha de recursos” intencional ajuda a acionar o botão de pausa quando o caos parecer tomar conta.
Divida em pequenas metas
Olhar para a quantidade de conteúdo do ano inteiro de uma só vez gera desespero. O ideal é quebrar o cronograma em metas menores e alcançáveis no curto e médio prazo. Celebrar essas pequenas conquistas diárias ajuda a reduzir a ansiedade e dá uma sensação de progresso.
Técnicas de respiração e meditação
A ansiedade frequentemente se manifesta no corpo. Reservar alguns minutos para meditar ou fazer exercícios de respiração guiada —especialmente antes de simulados e provas importantes— ajuda a acalmar, melhora o foco e devolve o controle emocional.
“Desinfle” o peso da escolha perfeita
Tire das costas o peso de que a decisão atual é uma sentença definitiva para o resto da vida. Entenda que nenhuma escolha é 100% segura e que a carreira hoje em dia é fluida. Saber que é possível recalcular a rota no futuro tira o caráter dramático do vestibular.
Construa e acione a sua rede de apoio
Não tente carregar todo o peso sozinho. Identifique quem são as pessoas com quem você pode contar —sejam familiares, amigos, professores da escola. Conversar sobre as angústias e pedir ajuda pedagógica ou emocional é fundamental para dividir a carga.
Sono e os momentos de lazer
Não encare o descanso como perda de tempo ou desperdício, mas sim como parte estratégica da sua preparação. Manter uma rotina regular de sono, alimentar-se bem, praticar atividades físicas e se permitir momentos de lazer sem culpa são o combustível necessário para que o cérebro continue assimilando o conteúdo no dia seguinte.
Fonte ==> Folha SP
