Confira sugestões de livros para jovens de 11 a 14 anos – 06/09/2026 – Educação

Jovem com camiseta branca e mochila colorida lê uma revista em uma estante de biblioteca. Ao fundo, outra pessoa consulta livros em outra estante próxima a janelas amplas.

Em uma fase marcada pela descoberta de interesses, pela busca da identidade e pela disputa da atenção com as telas, encontrar o livro certo no início da adolescência pode fazer toda a diferença na formação de um leitor.

Para ajudar pais e educadores nessa tarefa, a Folha convidou dez personalidades ligadas ao universo da literatura e da educação para indicar obras capazes de despertar a curiosidade, ampliar repertórios e criar gosto pela leitura.

Escritores, jornalistas, acadêmicos e criadores de conteúdo indicaram, cada um, três livros para jovens com idades entre 11 e 14 anos. Como duas sugestões se repetem, o resultado é uma lista de 28 títulos que percorre diferentes gêneros, épocas e temas.

O objetivo não foi selecionar os melhores livros voltados para esse público, mas produzir uma lista de recomendações de adultos que já foram jovens leitores vorazes que sirva como guia para atiçar o interesse das novas gerações.

Compõem a seleção clássicos da literatura brasileira como “A Droga da Obediência”, de Pedro Bandeira, e “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, assim como antigos e novos clássicos internacionais, caso de “Alice no País das Maravilhas“, de Lewis Carroll, e a saga “Harry Potter“, de J.K. Rowling.

Também aparecem na seleção títulos mais contemporâneos, como “A Pequena Loja de Venenos”, de Sarah Penner. O livro se tornou um fenômeno nas redes impulsionado pelo BookTok, comunidade de leitores e criadores de conteúdo sobre livros no TikTok.

“Tem uma narrativa envolvente, com elementos de mistério e protagonismo feminino, que prende o leitor desde o início e mostra como a leitura pode ser, acima de tudo, uma experiência imersiva”, afirma a especialista em educação e leitura Carolina Pavanelli, que indicou a obra.

Participantes que são pais e mães de adolescentes levaram em consideração a percepção dos filhos ao pensar nas sugestões dos livros. Foi o caso da jornalista e colunista da Folha Bianca Santana, que escolheu as obras junto com a filha Cecília, 13.

A diferença na experiência de leitura intergeracional ficou evidente em algumas indicações, como “Becos de Memória”, de Conceição Evaristo.

“Li já adulta e fiquei impactada pela sensação de entrar e sair dos becos da favela, me conectando profundamente a cada personagem. Para Cecília, a leitura não foi imediatamente fluida. O ritmo lento e a construção fragmentada exigiram persistência. Mas justamente por isso a leitura foi importante”, afirma Bianca.

“Corda Bamba”, de Lygia Bojunga, foi citado duas vezes, escolha da escritora e jornalista Gabriela Romeu e do professor de literatura infantil e infantojuvenil da USP (Universidade de São Paulo) Valnikson Viana de Oliveira.

“O seu potencial estético reside justamente na escrita sensível que não subestima a inteligência dos leitores, oferecendo uma ponte metafórica entre o mundo interior e a realidade da passagem da infância para a adolescência”, afirma Oliveira.

“O Gênio do Crime”, de João Carlos Marinho, esteve na seleção novamente de Oliveira, assim como do jornalista e colunista da Folha Antonio Prata.

“É um daqueles livros de ação que atravessam gerações e que nunca perdem a graça”, diz Prata.

Na trama, um grupo de crianças participa de uma investigação secreta para desmascarar uma rede criminosa especializada na falsificação de raras figurinhas de futebol.


Antonio Prata

Escritor, roteirista e colunista da Folha, autor de “Por quem as panelas batem”

“O Gênio do Crime”, de João Carlos Marinho (Global)

É um daqueles livros de ação que atravessam gerações e que nunca perdem a graça.

Saga “Harry Potter”, de J.K. Rowling (Rocco)

Os clássicos são incontornáveis e são uma delícia de ler.

“Fazendo Meu Filme”, de Paula Pimenta (Gutenberg)

Minha filha está há meses lendo e não consegue parar. Turma, amizade, primeiros amores, escrito numa linguagem atual e atraente para as meninas.


Bianca Santana

Doutora em ciência da informação, mestre em educação e jornalista. É colunista da Folha e autora de “Quando me Descobri Negra”

“Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, de Carolina Maria de Jesus (Ática)

Apesar de duro, o diário escrito por uma mulher negra no fim dos anos 1950 ajuda adolescentes a compreenderem o racismo, o machismo e a desigualdade social que ainda estruturam o Brasil. A escrita é direta, cotidiana, quase como se ela sentasse ao nosso lado e contasse seus dias, dores, desejos. Fácil ler, difícil lidar com a tristeza. Livro importante para nutrir empatia e desejo de transformação.

“Capitães da Areia”, de Jorge Amado (Companhia das Letras)

A idade das personagens e suas aventuras por Salvador criam identificação imediata com adolescentes. Pedro Bala, Professor, Dora e os demais personagens nos prendem e não largam nem quando o livro acaba. Liberdade, amizade e a dureza da sobrevivência atravessam o romance repleto de aventura e desejo de vida. Além de querido por mim e pelos meus filhos, era o livro preferido do meu pai.

“Becos da Memória”, de Conceição Evaristo (Pallas)

Li já adulta e fiquei impactada pela sensação de entrar e sair dos becos da favela, me conectando profundamente a cada personagem. Para Cecília, a leitura não foi imediatamente fluida. O ritmo lento e a construção fragmentada exigiram persistência. Mas justamente por isso a leitura foi importante. Atravessar o livro, com o desafio de permanecer nele, foi possível pela intimidade construída pela narradora Maria Nova, adolescente que nos leva por suas memórias.


Camilla Dias

Pesquisadora de literaturas negras e criadora de conteúdo. Dona do perfil @camillaeseuslivros

“A Cor da Ternura”, de Geni Guimarães (Quinteto)

Pode auxiliar na compreensão de forma sensível e profunda, temas como racismo, identidade, autoestima e pertencimento, por meio de uma narrativa emocionante que aproxima literatura, memória e realidade social brasileira.

“Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis”, de Jarrid Arraes (Seguinte)

Permite que conheçam mulheres negras fundamentais para a história do Brasil, muitas vezes apagadas dos livros escolares, fortalecendo o senso crítico, a representatividade e a valorização da memória e da resistência negra.

“O Karaíba – Uma História do Pré-Brasil”, de Daniel Munduruku (Melhoramentos)

Convida a conhecer perspectivas indígenas sobre a história e a formação do Brasil, ampliando a compreensão sobre ancestralidade, diversidade cultural e resistência dos povos originários por meio de uma narrativa envolvente e reflexiva.


Carolina Pavanelli

Especialista em educação e leitura

“A Droga da Obediência”, de Pedro Bandeira (Moderna)

É um clássico absoluto da formação de leitores no Brasil. Tem ritmo, suspense e personagens com os quais o jovem se identifica rapidamente, ao mesmo tempo em que introduz questões sobre autonomia e pensamento crítico.

“O Mistério do 5 Estrelas”, de Marcos Rey (Global)

É praticamente imbatível em termos de engajamento. A narrativa é ágil, envolvente, com uma dose certa de humor e mistério, criando aquela experiência essencial de “não conseguir parar de ler”.

“A Pequena Loja de Venenos”, de Sarah Penner (HarperCollins Brasil)

É um fenômeno recente, muito impulsionado por comunidades como o BookTok. Tem uma narrativa envolvente, com elementos de mistério e protagonismo feminino, que prende o leitor desde o início e mostra como a leitura pode ser, acima de tudo, uma experiência imersiva.


Gabriela Romeu

Escritora e jornalista, autora de livros premiados como “Terra de Cabinha” e “Diário das Águas”

“Corda Bamba”, de Lygia Bojunga (Casa Lygia Bojunga)

Uma das maiores maestras da literatura infantil brasileira, Lygia Bojunga narra a realidade triste da protagonista, Maria, esticando magistralmente as cordas do onírico.

“Luna Clara e Apolo Onze”, de Adriana Falcão (Salamandra)

Impossível não se apaixonar pelos personagens desta obra de Adriana Falcão, que narra uma história de amor e sagas familiares com lentes fantásticas.

“Quando Minha Mãe Voou no 14-Bis”, de Penélope Martins (Pera Book)

Penélope Martins aborda com traquejo de linguagem questões áridas, como saúde mental e ausência, em um fluxo de consciência libertador, repleto de humor e poesia.


Ilan Brenman

Escritor de livros infantis e infantojuvenis

“Matilda”, de Roald Dahl (Record/Galeria Júnior)

É um dos meus autores preferidos de todos os tempos para crianças e jovens. Já vi muitos alunos de 11 e 12 anos mergulhados nas histórias de Dahl, ainda mais quando descobrem que ele também é o autor do clássico: “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.

“Os Amigos”, de Kazumi Yumoto (Martins Fontes)

A história gira em torno de um grupo de meninos que, ao encontrar um velho solitário, decide observar de longe a sua morte. Parece estranho dizer isso assim, mas a história é linda, delicada e surpreendente, só lendo para entender.

“Trezentos Parafusos a Menos”, de Ricardo Azevedo (Moderna)

Acredito muito no humor como forma de aproximar crianças e jovens do mundo literário. E esse livro me fez rir muito. É uma narrativa sobre o cotidiano de uma família com a qual muita gente vai se identificar. E aqueles que não se identificarem provavelmente vão se divertir e emocionar observando aquela família atentamente.

Renné França

Escritor e professor, vencedor do prêmio Barco a Vapor por “Onde Morre o Vento”

“O Menino no Espelho”, de Fernando Sabino (Record)

Neste livro, Fernando Sabino consegue de certa forma encapsular um momento único e especial entre o final da infância e o início da juventude, quando tudo no mundo ainda é possível e a fronteira entre realidade e imaginação não está completamente formada.

“A Turma da Rua Quinze”, de Marçal Aquino (Ática)

Entre os muitos clássicos juvenis da Coleção Vaga-Lume, o livro de Marçal Aquino é o meu preferido por causa do mistério, da aventura e, principalmente, o sabor de amizade que permeia toda a narrativa, valorizando a importância do trabalho em equipe e como esta etapa da vida é fundamental para nossa formação como seres sociais, que vivem em comunidade.

“Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol (domínio público)

A aventura mágica da menina Alice imaginada por Lewis Carroll estabeleceu o formato de narrativa que mistura fantasia com jornada de amadurecimento, utilizando cenários e seres fantásticos para tratar de temas muito reais que envolvem escolhas e aprendizados comuns ao início da juventude e com os quais teremos que lidar por toda a vida.


Telma Borges

Professora da Faculdade de Educação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

“De Onde Eles Vêm”, de Jefferson Tenório (Companhia das Letras)

Este é o potente relato de Joaquim, um jovem que acabou de ingressar na universidade, que luta contra contra todo tipo de discriminação no cenário hostil da universidade pública de Porto Alegre, logo após ter sido criado o sistema de cotas raciais. Esta é uma narrativa que nos ajuda a entender o Brasil contemporâneo com seus avanços e retrocessos no campo da justiça social.

“Mata Doce”, de Luciany Aparecida (Alfaguara)

Este livro, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2024, narra a história de uma comunidade rural do sertão baiano entrelaçando o passado e o presente de Maria Teresa (que nos conta essa história), de suas mães, de sua madrinha e as tensas relações com os fazendeiros da região, cuja violência é o único método utilizado para resolver os problemas comunitários.

“O Crime do Cais do Valongo”, de Eliana Alves Cruz (Record)

Narrado nas vozes de Muana e Nuno, o livro conecta o Brasil a Moçambique, enquanto revela atrocidades praticadas contra aqueles que chegavam para ser vendidos naquele cais. Passado e presente vão se misturando à medida que esses narradores, que conviveram com a vítima —Bernardo Vianna, um homem branco— tentam iluminar os pontos sombrios do que acontecia com os aportados naquele cais.


Txai Suruí

Ativista, líder indígena da etnia suruí e coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé. É colunista da Folha

“Poesia da Terra”, de Bárbara Kariri (Feminas)

Escolhi “Poesia da Terra” porque amo poesia. E um livro de poesia feito por uma mulher indígena vem para nos acolher. Quando conheci esse livro logo me apaixonei.

“A Terra Uma Só”, de Timóteo Verá Tupã (Hedra)

Nos convida a conhecer outro modo de vida e mostra como outros mundos existem neste mundo, contado por um próprio Guarani como o povo Guarani entende que o mundo foi criado. O Nhandereko (modo de vida Guarani) é uma cosmologia e modo de vida lindo de respeito e cuidado à natureza que nos mostra ser possível viver de outras formas neste mundo.

“A Terra Dá, A Terra Quer”, de Antônio Bispo (Ubu)

Também nos traz essa outra cosmovisão de relação e reciprocidade com a Terra, além de ser uma experiência de palavras, um livro gostoso de ler, um livro que é antídoto contra o pensamento colonial.


Valnikson Viana de Oliveira

Professor de literatura infantil e infantojuvenil da USP (Universidade de São Paulo)

“Corda Bamba”, de Lygia Bojunga (Casa Lygia Bojunga)

Com uma profundidade psicológica rara, a obra utiliza o insólito para abordar a autodescoberta e o amadurecimento emocional diante da dor da perda. O seu potencial estético reside justamente na escrita sensível que não subestima a inteligência dos leitores, oferecendo uma ponte metafórica entre o mundo interior e a realidade da passagem da infância para a adolescência.

“O Gênio do Crime”, de João Carlos Marinho (Global)

A obra é um marco da literatura juvenil brasileira, com uma trama ao estilo policial repleta de mistério e humor. A aventura urbana é irresistível aos adolescentes, pois valoriza o protagonismo coletivo e a capacidade analítica dos personagens, transformando a leitura em um intrigante jogo de raciocínio.

“Em Cima da Hora”, de Roger Mello (Companhia das Letrinhas)

Este livro se destaca pelo arrojo visual e pela narrativa não linear, desafiando o jovem a uma leitura multissensorial. A importância estética da obra está no diálogo sofisticado entre texto verbal, projeto gráfico e ilustrações, capturando a atenção de uma geração conectada ao imagético e estimulando uma interpretação crítica e criativa do tempo.



Fonte ==> Folha SP

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