Uma das grandes questões que circundavam a COP 30 era como a cidade de Belém iria receber os milhares de visitantes que participam da conferência. Com o evento finalizado neste sábado (22), a capital paraense terminou com um saldo positivo, na avaliação de especialistas e entidades que conversaram com a reportagem.
Os espaços culturais e as festas ganharam os principais elogios, enquanto o transporte recebeu mais críticas. Apontada como grande vilã antes do evento devido à alta dos preços, a questão da hospedagem não teve novos problemas relevantes durante a cúpula. Representantes do setores de hotéis e de locação dizem, inclusive, que sobraram vaga.
“Por volta de 45% dos imóveis disponíveis não foram locados. Se mais delegações tivessem vindo, haveria hospedagem para todos”, diz a presidente do Creci-PA (Conselho dos Corretores de Imóveis do Pará), Maria Luísa Carneiro. O presidente da ABIH-PA (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará), Tony Santiago, afirma que a ocupação ficou em 83%, “um pouco abaixo do esperado”.
COP30
Uma newsletter com o que você precisa saber sobre a conferência da ONU em Belém
Um dos lugares que mais atraíram turistas durante o evento foi o novo complexo Porto Futuro, às margens da baía do Guajará, que reúne espaços de arte, cultura, gastronomia e bioeconomia.
Entre esses espaços está o Museu das Amazônias, que viu um incremento no número de visitantes e uma maior quantidade de estrangeiros, segundo Camila Costa, coordenadora de comunicação da entidade. Outro local concorrido foi o recém-inaugurado Mercado de São Brás, do início do século 20, que virou polo gastronômico e cultural.
A cidade também fervilhou nos diversos espaços paralelos à conferência espalhados pela cidade. Em volta da praça Frei Caetano Brandão, zona de fundação de Belém, três casas instaladas em edifícios históricos formaram uma espécie de complexo extraoficial.
Uma delas era o espaço do Instituto Voz dos Oceano, da família Schurmann, conhecida por dar a volta ao mundo a bordo de veleiros. A entidade instalou uma exposição sobre a poluição em rios e mares na histórica Casa das Onze Janelas, uma edificação do século 18.
Ao lado, o Hub Culture tinha um espaço que abrigou painéis e eventos culturais com foco em sustentabilidade, inovação e criatividade. Do outro lado da praça ficou a Casa Dourada, em um casarão de arquitetura portuguesa, com fachada de azulejos. Trata-se do espaço do Instituto Psica, criado pelo festival de mesmo nome e que permanecerá ativo após a COP.
A noite também foi bem animada, com bares e casas noturnas cheios de participantes da COP30. Foi criada, inclusive, a “beer zone” (zona da cerveja), com uma agenda de festas e outros eventos.
Para João Cláudio Tupinambá Arroyo, coordenador nacional do comitê COP30 do grupo Ser Educacional, Belém “deu conta do recado” como sede do evento. “A cidade não entrou em colapso, muito pelo contrário, nos proporcionou um orgulho sem precedentes.”
Segundo Arroyo, que é pró-reitor de pesquisa e extensão da Unama (Universidade da Amazônia), “além do alto nível da logística do evento em si, eles [os participantes da COP30] encontraram uma gastronomia sem igual, uma cultura própria, música e dança apaixonantes e roteiros a ambientes amazônicos próximos”. Sobre os pontos negativos, ele afirma que faltaram “mais obras na periferia da cidade.”
Já a engenheira civil Patrícia Bittencourt, diretora regional da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos), aponta que o maior problema do evento foi o acesso à zona verde (área que abrigava os eventos oficiais da sociedade civil). “Realmente foi um gargalo, muito mal planejado”, critica. “Um motorista de Uber falou para mim que recusava as viagens porque chegava a ficar 40 minutos no engarrafamento.”
A especialista também acha que faltou estímulo ao uso de transporte público. “Deveria haver também ônibus gratuito para os visitantes da zona verde, como havia para os credenciados da zona azul. Porque isso seria uma forma de aliviar o transporte individual e reduzir os conflitos. Eu particularmente, anteontem, desisti de ir à zona verde por conta da dificuldade de acesso.”
Outra falha apontada por Patrícia foi a ausência de promoção do uso da bicicleta. “Poderiam também ter implantado um sistema de transporte de bicicleta compartilhada, mesmo que temporário, já que temos uma rede razoável de ciclovias e ciclofaixas no entorno do Parque de Cidade.”
Coordenadora de um projeto que avalia o impacto da COP30 na cidade, Olga Lúcia Castreghini de Freitas considera que Belém pode atrair novos eventos e mais turistas no futuro, caso decida investir nisso. “Isso depende também de oferecer uma estrutura de passeios, de hospedagem, de aeroporto e de transporte que seja interessante para os turistas. Então, se o governo não aproveitar este momento para promover, de forma regular, Belém como destino turístico, apenas o elemento COP não vai ser suficiente, pois é muito individualizado.”
Fonte ==> Folha SP
