Crônica das muralhas invisíveis

Crônica das muralhas invisíveis

Dizem que o sertão, lá pras bandas de Monte Santo, não tem começo nem fim. É um lugar que acontece – como se fosse mais lembrança do que geografia. E foi ali, nesse pedaço de mundo onde o sol parece nascer já cansado e a sombra é artigo de luxo, que viveu Gilmário, prefeito, coronel de si mesmo e rei por falta de concorrência.

Mandava mais que notícia ruim.

Gilmário tinha o costume de decidir tudo: da cor da igreja até o silêncio das pessoas. Quem discordava, discordava baixo. Quem enfrentava, mudava de assunto – ou de cidade. Era um homem feito de certezas, e como todo homem assim, não cabia nele ninguém além dele mesmo.

Até que apareceu Enquídio.

Ninguém soube direito de onde veio. Diziam que surgiu do mato, lá pras bandas da caatinga mais fechada, onde nem o juazeiro se arrisca a crescer direito. Andava descalço, falava pouco e ria como quem não deve nada ao mundo – o que, convenhamos, já é uma afronta.

Enquídio não pedia licença. Sentava onde queria, bebia da água que encontrava e olhava nos olhos – coisa perigosa em terras de Gilmário.

O encontro dos dois não foi cordial. Foi no meio da feira, entre um petisco de bode e uma discussão sobre o preço do feijão. Gilmário estranhou aquele homem que não se encolhia. Enquídio estranhou aquele homem que se achava grande demais.

Trocaram palavras. Depois empurrões. E quando viram, estavam rolando na poeira, como dois meninos brigando por nada – ou por tudo.

O povo assistia em silêncio, porque no sertão até a curiosidade tem respeito.

Mas a briga, veja você, terminou em riso.

Não um riso qualquer. Um riso desses que desmonta o orgulho como vento desmonta cerca velha. Gilmário, pela primeira vez em anos, encontrou alguém que não o temia. Enquídio, pela primeira vez, encontrou alguém que precisava aprender a não ser temido.

Viraram amigos.

E não daqueles de visita em domingo. Eram de estrada, de poeira, de desafio. Juntos enfrentaram as secas mais teimosas, os coronéis vizinhos, um jagunço que se dizia invencível e até um boato de assombração que rondava um açude esquecido.

Dizem que certa vez enfrentaram um “bicho” nas matas do interior – um tal de Humbabão, criatura mais falada que vista, que ninguém sabia se era gente, fera ou exagero. Voltaram vivos, o que no sertão já é prova suficiente de vitória.

Mas a vida, que não gosta de histórias perfeitas, resolveu cobrar o preço.

Enquídio adoeceu.

Não foi de repente, não. Foi minguando, como lua no fim do mês. O riso foi ficando raro, o passo mais curto, o silêncio mais comprido. Gilmário, que enfrentava qualquer coisa, não sabia lutar contra aquilo.

E um dia, o sertão ficou sem o riso de Enquídio.

A morte, no sertão, não chega – ela se instala.

Gilmário mudou.

Não virou santo, nem poeta – mas perdeu a arrogância como quem perde um dente: sem querer, mas para sempre. Passou a andar pelas ruas sem pressa, a ouvir mais do que falar, a olhar o céu como se esperasse resposta.

Foi então que o medo apareceu.

Não o medo de perder poder, mas o medo de deixar de existir.

Saiu pelo mundo – ou pelo que o sertão permite chamar de mundo – atrás de cura, de reza forte, de história antiga. Ouviu falar de um velho que tinha sobrevivido a uma enchente dessas que apagam mapa. Diziam que ele sabia o segredo da vida comprida.

Gilmário foi.

Encontrou o velho, magro como promessa não cumprida, sentado à beira de um rio que só corria quando queria. O homem contou histórias de água que engole tudo, de gente que constrói abrigo antes da chuva chegar, de vida que se salva por teimosia.

Gilmário ouviu tudo.

Pediu o segredo.

O velho riu – aquele riso antigo, que parece saber mais do que conta.

Mandou Gilmário esperar acordado por uma noite inteira.

Gilmário, que já tinha enfrentado seca, fome e saudade, perdeu para o sono.

Quando acordou, o segredo tinha passado.

Voltou derrotado.

Ou assim pensou.

Porque ao chegar à sua terra, viu algo que nunca tinha reparado: as coisas que ficaram.

A cisterna que mandou cavar.
A escola que insistiu em construir.
A feira que organizou, mesmo sem entender de feira.
E, principalmente, as histórias.

As histórias de um homem que mudou.

As histórias de uma amizade que ensinou um rei a ser gente.

Gilmário percebeu, então, que ninguém fica para sempre – mas algumas coisas ficam o suficiente.

E que o sertão, esse velho sábio, guarda melhor do que qualquer eternidade.

Quanto a Enquídio…

Ah, Enquídio continua por lá.

No vento que passa entre os mandacarus.
No riso solto de quem não tem medo.
E, principalmente, no homem que Gilmário se tornou.

Porque há amizades que não acabam.

Viram muralha.

Daquelas que não se veem, mas sustentam tudo.



Fonte ==> Ba.gov

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