Há um ano, quando viu as mobilizações para enviar roupas e alimentos para as vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul, Carolina Monteiro de Barros, 11, ficou pensando nas crianças, como ela, que tinham tido suas vidas transformadas pela tragédia.
Filha da empresária Tatiana Monteiro de Barros, fundadora do movimento de ação social União BR, ela decidiu dar uma ideia para a mãe. “Vi todo mundo ajudando os adultos, mas falei: ‘E as crianças?’” conta. Fã de leitura, a menina sugeriu enviar “algo legal e educativo” para elas: livros.
Surgiu, assim, o “Projeto Carolina para Bibliotecas no RS”, que doou milhares de livros, além de cadeiras, mesas e estantes, para 98 bibliotecas escolares no estado. Em dezembro, Carolina viajou de São Paulo para Canoas, uma das cidades mais atingidas pelas cheias, para participar da inauguração de uma delas.
“Fiquei muito feliz de ajudar e de fazer o que é certo. A gente tem bastante, precisamos ajudar as pessoas que não têm”, diz.
No outro extremo do Brasil, em Caxias, no Maranhão, outra jovem fundou seu primeiro projeto social com a mesma idade de Carolina. Gianna Vitória Torres, que hoje tem 17 anos, criou, aos dez, o Naturalize, para conscientizar sobre educação climática e ambiental.
“Vivo em uma região rural, cercada de natureza, e meus pais vieram de comunidades tradicionais, então essa realidade sempre esteve presente na minha vida”, conta. “Sempre fui muito esperançosa e tento transformar essa esperança em ação.”
Hoje, ela é embaixadora do #tmjUNICEF, programa de voluntariado da agência da ONU para a infância que treina jovens para serem comunicadores digitais em prol de mudanças sociais.
Gianna e os outros participantes usam a linguagem acessível e bem-humorada das redes sociais para conscientizar sobre temas como cyberbullying, violência, vacinação e desinformação. A adolescente acredita que os conteúdos geram identificação com a audiência: “Acho que é uma forma de democratizar assuntos difíceis, de nivelar quem está mandando a informação com quem está escutando, aprendendo”.
Carolina e Gianna são exemplos de que nunca é cedo para praticar a generosidade e a solidariedade e para pensar em soluções para os problemas sociais do pais. No Brasil, porém, ainda são incipientes as iniciativas que trabalham esses valores na infância e na adolescência de uma forma estruturada.
A educação para a cultura de doação é a primeira diretriz do Movimento por uma Cultura de Doação (MCD), rede que reúne centenas de iniciativas voltadas para essa temática no Brasil. Um levantamento de 2023 da coalizão mostrou que, de 272 iniciativas mapeadas, apenas 42 seguiam essa primeira diretriz. Destas, só 8% tinham interação com escolas e 6%, com universidades.
Segundo Douglas Gonzalez, do comitê coordenador do MCD, faltam especialmente ações voltadas para crianças menores. “É um grande desafio. A gente sabe que as experiências da primeira infância têm impacto duradouro na arquitetura do cérebro, na forma como a pessoa entende e reage ao mundo. Mas a maioria das iniciativas de educação para a cultura de doação foca em adolescentes ou adultos”, diz.
Para Gonzalez, cultura de doação é “uma forma de raciocinar a vida” e, mesmo que crianças não tenham uma renda que possam doar, elas podem aprender os valores ligados a essa cultura.
“Se a gente ensina a criança para lidar com esses valores desde cedo, lá na frente, quando ela virar uma profissional, uma empresária, ela vai lidar com a sociedade de uma maneira diferente.”
Um exemplo de ação que busca educar para a cultura de doação é a Plataforma de Educação para Gentileza e Generosidade (EGG), que oferece material didático, campanhas de mobilização, cursos e planos de aula baseados na metodologia internacional Learning to Give (aprendendo a doar), adaptada para a nova BNCC (Base Nacional Comum Curricular).
O material é gratuito e está disponível no site gentilezagenerosidade.org.br.
“O assunto é sério e temos muita fundamentação teórica, baseada em neurociência. pedagogia, psicologia e filosofia, mas levamos isso para as pessoas de forma descomplicada, leve, colorida, com música”, explica a escritora Marina Pechlivanis, cofundadora da plataforma.
A iniciativa nasceu em 2019, com o Dia de Doar Kids, um desdobramento do Dia de Doar voltado para o público mais jovem. Hoje, a organização promove também uma Semana Nacional da Educação para a Gentileza e Generosidade, no mês de outubro, um prêmio para escolas com boas práticas, projetos que incentivam o protagonismo jovem e pesquisas com crianças e adolescentes.
Por trás de tudo isso, está um conceito que a EGG chama de “capacitação sociotransformacional”. “É sair da indignação e da reclamação e encontrar caminhos para partir para a ação”, diz Pechlivanis.
Contemplado duas vezes com o Prêmio EGG Escolas, o Centro Educacional Inovação, instituição particular na cidade de Pombos, em Pernambuco, tenta incutir desde cedo a participação cidadã e a generosidade nos alunos.
Os estudantes que se destacam nas aulas de música, por exemplo, tornam-se professores de música de crianças assistidas pelo CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) local.
Os alunos também criaram uma iniciativa com receitas sustentáveis usando o abacaxi —principal produto regional— para beneficiar mulheres em situação de vulnerabilidade e até escreveram um projeto de lei, com a ajuda dos professores, e conseguiram a aprovação da primeira faixa de pedestres da cidade, em um cruzamento em frente à escola.
“Tenho certeza de que o mundo seria melhor se todo mundo aprendesse a partilhar um pouquinho”, diz a diretora pedagógica, Mylena Cavalcanti. Ela própria fundou uma ONG aos 15 anos, o Instituto João de Deus, para beneficiar uma comunidade periférica. “Generosidade se aprende em casa e se aprende na escola.”
Mudar o mundo brincando
“Vamos mudar o mundo brincando?” Com essa proposta, a ONG LiveLab, referência em gamificação social, quer engajar jovens para transformar suas escolas e comunidades. A metodologia, chamada Jornada X, é baseada em jogos colaborativos, com os participantes divididos em “tribos” e missões a serem alcançadas.
“A gente estimula que eles pensem nas melhorias necessárias, observem os recursos materiais e humanos disponíveis naquele território e façam mutirões e outras ações transformadoras. Eles passam a empreender dentro dessa lógica de impacto, de fazer a diferença coletivamente”, explica Manuela Colombo, diretora-executiva da LiveLab.
As ações idealizadas pelos participantes para solucionar problemas locais vão desde vaquinhas e feiras até a pressão pela liberação de recursos públicos.
“O processo precisa ser divertido, mas precisa também deixar um legado, fazer a diferença na vida da comunidade”, diz Colombo.
Para incentivar diálogos sobre a importância do ato de doar —na escola, em família ou com amigos—, o Instituto Phi lançou, em novembro de 2024, um instrumento lúdico: o jogo “Puxa Conversa- Filantropia” (Matrix). O livro-caixinha, com cartas que abordam o assunto, está à venda em livrarias, mas parte das unidades foram doadas para escolas e ONGs.
Uma delas foi o NEAC (Núcleo Especial de Atenção à Criança), no RJ. Segundo a coordenadora de projetos da instituição, Bárbara Correa, “as crianças desconheciam a palavra filantropia, mas sabiam exatamente o sentido da doação”.
“Conversamos sobre como eles achavam que poderiam ajudar alguém e muitos falaram que ajudam os vizinhos. Há um movimento constante de solidariedade nas comunidades, e esta deve ser estimulada e valorizada também com as crianças”, afirma.
Esta reportagem foi produzida para a Causa do Ano: Doar É Transformar, que conta com apoio do Movimento Bem Maior.
Fonte ==> Folha SP
