Dra. Ariane Bonucci alerta: perda auditiva pode aumentar risco de demência na terceira idade

Fonoaudióloga, especialista em Audiologia Clínica, mestre em Ciências Médicas e sócia-fundadora do Espaço da Audição destaca a importância do diagnóstico precoce e dos cuidados com a saúde auditiva

A perda auditiva vai muito além da dificuldade para ouvir sons. Com o avanço da idade, o problema pode comprometer a comunicação, reduzir a participação social e estar associado a impactos na saúde cerebral. Estudos apontam a perda auditiva não tratada como um dos fatores de risco modificáveis relacionados ao desenvolvimento de demência.

A Dra. Ariane Bonucci, fonoaudióloga, especialista em Audiologia Clínica, mestre em Ciências Médicas e sócia-fundadora do Espaço da Audição, alerta para a importância de reconhecer os sinais precocemente e buscar avaliação profissional.

“Hoje sabemos que a audição está muito mais relacionada à saúde do cérebro do que imaginávamos. A perda auditiva é considerada um dos fatores de risco modificáveis associados ao desenvolvimento de demência, especialmente quando não é tratada”, explica a especialista.

O esforço para ouvir pode sobrecarregar o cérebro

De acordo com a Dra. Ariane Bonucci, uma das possíveis explicações para a relação entre perda auditiva e declínio cognitivo está no esforço adicional exigido pelo cérebro para compreender informações sonoras.

Quando uma pessoa não escuta adequadamente, o cérebro precisa trabalhar mais para completar palavras e interpretar uma conversa. Esse esforço constante pode consumir recursos envolvidos também em funções como atenção e memória.

Além disso, a dificuldade para acompanhar diálogos pode fazer com que o indivíduo reduza sua participação em encontros familiares, atividades sociais e situações do cotidiano. Com o tempo, algumas pessoas passam a evitar restaurantes, festas, cursos e reuniões por considerarem cansativo ou constrangedor acompanhar as conversas.

“Ouvir é uma forma de manter o cérebro conectado às pessoas e ao mundo”, destaca Ariane.

A especialista ressalta, entretanto, que ter perda auditiva não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá demência. Trata-se de uma associação e de um fator de risco que pode ser alvo de intervenção.

Quais sinais indicam perda auditiva?

A perda auditiva relacionada ao envelhecimento costuma surgir de maneira gradual. Por isso, muitas vezes os familiares percebem os primeiros sinais antes da própria pessoa.

Entre os indícios estão pedir frequentemente para que os outros repitam o que disseram, aumentar excessivamente o volume da televisão, ter dificuldade para acompanhar conversas em grupo ou compreender diálogos ao telefone. Uma frase comum também pode servir de alerta: “Eu escutei, só não entendi.”

Segundo Ariane, a dificuldade costuma ser mais evidente em ambientes com ruído ou quando várias pessoas conversam simultaneamente.

Mudanças de comportamento também merecem atenção. Um idoso que passa a evitar encontros sociais pode não estar desinteressado, mas enfrentando dificuldades para ouvir e compreender as conversas.

O zumbido, a sensação de ouvido tampado, dor ou tontura também são sintomas que devem ser investigados.

“Não precisamos esperar a dificuldade se tornar grande para começar a cuidar dela”, afirma a fonoaudióloga.

Tratamento pode ajudar a preservar a saúde cognitiva

Pesquisas vêm reforçando a importância do diagnóstico e do tratamento adequado da perda auditiva. Além de melhorar a comunicação, o tratamento pode favorecer a interação social e a manutenção dos estímulos auditivos e cognitivos.

A Dra. Ariane Bonucci cita um estudo clínico realizado em 2023 que acompanhou idosos com maior risco de declínio cognitivo. Segundo os dados apresentados pela especialista, o tratamento da perda auditiva esteve associado a uma redução de 48% na taxa de declínio cognitivo ao longo de três anos.

Nesse contexto, os aparelhos auditivos devem ser indicados de acordo com a avaliação individual de cada paciente.

“Tratar a perda auditiva não é apenas voltar a ouvir melhor. É manter a pessoa conectada, comunicativa, socialmente ativa e com maior acesso aos estímulos sonoros que chegam ao cérebro”, ressalta.

Diagnóstico precoce é fundamental

Para Ariane, não é necessário esperar a perda auditiva se tornar severa para procurar ajuda.

“Não devemos esperar ‘parar de ouvir’ para procurar ajuda”, enfatiza.

A identificação precoce de uma alteração auditiva permite orientar o paciente e, quando necessário, iniciar o tratamento mais rapidamente. O objetivo é preservar a comunicação, a autonomia, as relações sociais e a qualidade de vida.

A adaptação aos aparelhos auditivos também exige um período de aprendizagem. O cérebro precisa se readaptar aos sons depois de passar um longo período recebendo estímulos de forma reduzida.

Por isso, quanto mais tempo uma perda auditiva permanece sem tratamento, mais desafiador pode ser o processo de adaptação.

Prevenção começa com hábitos saudáveis

A proteção da audição deve começar ao longo de toda a vida. Entre os principais cuidados estão evitar exposição prolongada a sons intensos, controlar o volume dos fones de ouvido e utilizar proteção auditiva em ambientes com níveis elevados de ruído.

Também é importante não introduzir hastes flexíveis ou outros objetos dentro dos ouvidos. Sintomas como zumbido, dor, sensação de ouvido tampado ou redução da audição devem ser avaliados por um profissional especializado.

A saúde auditiva também está relacionada às condições gerais do organismo. Diabetes e hipertensão, por exemplo, podem estar associadas a alterações auditivas. A prática regular de exercícios físicos, uma alimentação equilibrada e o acompanhamento médico contribuem para a saúde cardiovascular e para um envelhecimento mais saudável.

A especialista recomenda ainda incluir a avaliação auditiva nos cuidados de rotina, principalmente a partir da meia-idade ou sempre que houver sintomas ou fatores de risco.

“Muitas pessoas fazem acompanhamento da pressão, colesterol, visão e coração, mas passam décadas sem avaliar a audição”, observa.

Dra. Ariane Bonucci

Dra. Ariane Bonucci

Tecnologia e acompanhamento profissional

Outro ponto destacado pela Dra. Ariane Bonucci é a necessidade de superar o preconceito em relação aos aparelhos auditivos. Os dispositivos disponíveis atualmente são cada vez menores, discretos e tecnologicamente avançados.

No entanto, a tecnologia deve estar associada a um acompanhamento especializado. Cada pessoa apresenta características, necessidades auditivas e rotinas diferentes, o que torna fundamental uma avaliação individualizada.

Para a especialista, cuidar da audição é também investir em qualidade de vida e autonomia.

“Envelhecer bem não significa apenas viver mais. Significa continuar conversando, participando, aprendendo, convivendo e mantendo autonomia. E a audição tem um papel fundamental em tudo isso”, conclui a Dra. Ariane Bonucci.

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