Eleições dos EUA: Trauma familiar mudou eleição em Ohio – 04/11/2026 – Mundo

Mulher de terno branco levanta os braços em comemoração diante de grupo diverso que aplaude e sorri. Bandeira dos Estados Unidos aparece ao fundo, indicando ambiente político.

Duas décadas depois da eleição de seu último candidato, o Partido Democrata finalmente conseguiu levar uma representante à vitória para o governo do estado de Ohio, no Meio-Oeste dos Estados Unidos.

Amy Acton, 60, teve sua vitória projetada na terça-feira (3) como nova líder do estado —conhecido por ser um pêndulo nas disputas. O resultado acompanha a tendência geral destas eleições de meio de mandato, nas quais os democratas conseguiram uma virada histórica na Câmara e no Senado, ameaçando os próximos anos do governo Trump.

A campanha de Acton foi marcada por muitos ataques e mobilização nas redes. No entanto, uma coisa se destacou: um anúncio envolvendo sua própria mãe, Donna Arthur, divulgado pelas redes sociais e televisão como uma propaganda política do candidato republicano, Vivek Ramaswamy.

“Não é fácil para uma mãe dizer isso, mas Amy tem um problema sério”, diz a mãe biológica no anúncio de campanha. “Ela é uma mentirosa. […] Mentiu durante toda sua vida.”

As acusações da progenitora de Acton datam de muitos anos antes do pleito. A governadora eleita se afastou de sua mãe biológica há décadas, após o seu padrasto, Cledith “Bud” Arthur, ser acusado de abusar dela sexualmente dos 9 até os 12 anos.

Bud foi indiciado pelo júri local após o pai biológico da menina, Gerald Stearns, descobrir os casos de estupro e denunciá-lo à polícia em 1978. O padrasto fugiu do estado junto de Donna Arthur antes de ser julgado e nunca foi processado, permanecendo foragido da Justiça por 26 anos, até sua morte, em 2004, na Pensilvânia.

Conforme a campanha democrata, a última vez que Acton viu sua mãe biológica presencialmente foi no tribunal em 1978, depois que seu padrasto foi formalmente acusado. A candidata se pronunciou sobre o ataque, condenando a atitude do rival.

“Não vou tratar como normal alguém que disse que minha infância é apenas algo de que estou reclamando, alguém que hoje acaba de divulgar um anúncio usando minha mãe biológica, de cuja guarda fui retirada aos 12 anos por abuso e negligência graves, além de abuso sexual”, disse ela à Spectrum News, um canal de notícias a cabo de Ohio.

Em resposta ao vídeo publicado, a campanha democrata divulgou uma declaração em vídeo do irmão de Acton, Philip Stearns. Na peça, ele afirma que sua irmã mais velha suportava “a pior parte” dos abusos que sofreu na infância para protegê-lo, criticando Ramaswamy e seus aliados por explorarem a situação.

“Eu sofri muitos ataques, mas Amy sempre levou a pior”, diz Philip.

A propaganda com a mãe biológica da candidata foi um tiro na culatra da campanha republicana. A opinião pública apresentou repúdio imediato à forma como Ramaswamy aproveitou o trauma de uma vítima de abuso infantil —inclusive entre sua própria base de apoio conservadora e alguns representantes republicanos.

A indignação levou à suspensão da veiculação do anúncio na reta final da campanha. O comercial não indicava diretamente que se tratava de uma peça financiada pela campanha, apesar de o candidato republicano ter assumido a responsabilidade pela peça no dia seguinte à publicação.

Connie Luck, porta-voz da campanha republicana, afirmou que US$ 4 milhões (R$ 21,8 milhões) foram gastos para impulsionar o vídeo, que tinha a intenção, disse, de mostrar como Acton “tem sérios problemas com a verdade, dos quais o público precisa estar ciente”. Segundo a porta-voz, Donna Arthur não recebeu cachê por sua participação.

O presidente Donald Trump se posicionou em defesa da atitude, elogiando a ação de Arthur e Ramaswamy e atribuindo à imprensa a má repercussão da campanha.

“[Ele deve] deixar que todos ouçam a mãe de uma candidata defeituosa, desonesta e incapaz explicar como a filha é um desastre que mente, trapaceia e rouba de forma incontrolável!”, afirmou o presidente em sua conta no Truth Social.

“Eu só queria que as mães dos meus adversários fossem corajosas o bastante para se manifestar e explicar que seu filho ou sua filha é mentiroso e muito pior.”

Além da fala de Trump, o vice-presidente J. D. Vance também se manifestou ao dizer que gostaria que seus colegas republicanos “parassem de choramingar” devido ao anúncio. Ele disse estar “um pouco enojado” com as críticas de integrantes de seu próprio partido.

O pai biológico de Amy obteve a custódia total da filha e a criou pelo resto de sua juventude. Ela credita frequentemente o pai como o “herói que salvou sua vida”, garantindo que ela frequentasse a escola e participasse de projetos locais que aguçaram sua visão política.

Formada em medicina, Amy ganhou projeção nacional em 2019 ao ser nomeada diretora do Departamento de Saúde do estado, liderando a resposta inicial à pandemia de Covid-19.

Ela nunca havia se candidatado a nenhum cargo antes da eleição. As pesquisas iniciais indicavam a vitória de Ramaswamy, no estado que vivia uma guinada conservadora nos últimos anos.

Entre suas propostas, ela propõe reduzir o custo de vida e fortalecer o aparato público, principalmente a saúde, usando fundos do estado para perdoar dívidas médicas de cidadãos de baixa renda, facilitando o acesso ao Medicaid e combatendo “cobranças surpresas” de convênios.



Fonte ==> Folha SP

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