Andar pelas ruas de São Paulo foi o que despertou em Thaís Santos, 24, a vontade de ser engenheira civil. Filha de taxista e sem engenheiros na família, ela construiu a imagem da profissão a partir do que via pela cidade. Os nomes gravados nas placas de obra eram sua referência —cada um deles, para ela, era o rosto de alguém que deixaria uma marca na história da cidade.
Primeira da família a cursar o ensino superior, Thaís via na graduação também uma forma de abrir novos caminhos dentro de casa. Antes mesmo de escolher o curso, ela já havia escolhido a Poli-USP, ainda no ensino fundamental. O gosto por exatas também ajudou na decisão.
Mas a graduação que ela imaginava não foi a que encontrou. Ingressou em 2020 e, com o início remoto durante a pandemia, se afastou da prática da engenharia e passou a se interessar por áreas que não esperava, como consultoria e finanças. Hoje, trabalha em uma gestora com foco no mercado imobiliário. “Juntou as duas coisas que eu gosto”, diz. Ela acompanha obras e analisa a viabilidade de projetos de incorporadoras e construtoras.
As áreas da engenharia ligadas a infraestrutura e cidades estão entre as mais tradicionais do campo. De acordo com o censo do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), entre cerca de 48 mil entrevistados, 39% dos profissionais atuam na construção civil, a área mais frequente entre os registrados.
Para o pró-reitor adjunto de graduação da UFMG, Pedro Pereira, o Brasil é um país que ainda está em construção, carente de saneamento básico e modernização logística em rodovias e escoamento, o que garante uma demanda contínua desse profissional.
O engenheiro civil é responsável por acompanhar uma obra do início ao fim, do projeto no papel à manutenção da estrutura pronta. Está presente em pontes, aeroportos, redes de saneamento e edifícios.
Na USP, a dificuldade apontada não é a falta de emprego, mas a concorrência com o mercado financeiro. Bancos contratam engenheiros civis pela capacidade analítica e oferecem condições mais atrativas. “A bolsa de estágio na área era de R$ 3.500 a R$ 4.000. No banco já é diferente. Eu já assinei estágio de R$ 6.000”, diz o professor da Poli-USP Fernando Akira.
Segundo Thaís, durante a graduação, instituições financeiras ofereciam cursos e palestras dentro da universidade, enquanto empresas de engenharia apareciam menos. “Eu aprendi Excel na faculdade porque gestoras e bancos davam cursos do zero ao avançado. Senti falta dessa conexão com a engenharia.”
Dados do Confea mostram expansão da profissão nas últimas duas décadas. O pico foi em 2019, com 40.311 novos registros de engenheiros civis. Desde então, vem caindo: foram 23.590 registros em 2024 e 22.050 em 2025.
De acordo com Fernando Saraiva, engenheiro membro do Crea-SP, apesar de a construção civil continuar demandando profissionais, outras áreas do campo ganharam protagonismo.
Além disso, ele diz que a queda decorre da combinação de menos ingressantes e alta evasão. Após o boom das engenharias na década passada, a procura diminuiu. Parte dos estudantes que entra não consegue concluir o curso por dificuldades acadêmicas, financeiras ou de adaptação.
Thaís diz que hoje não se vê trabalhando na engenharia civil tradicional. Segundo ela, muitos colegas compartilham a mesma percepção. “É até engraçado conversar com as pessoas. Todo mundo faz engenharia, mas no fim do dia ninguém queria trabalhar com engenharia.”
Observar obras também foi o que levou Gabriele Tres, 26, a cursar engenharia civil. Durante viagens em família, ela chamava atenção para duplicações de rodovias e viadutos. O interesse por exatas e a influência das duas irmãs mais velhas, também engenheiras, ajudaram na decisão.
Gabriele se define como “muito tímida” quando entrou no curso. Para enfrentar a própria insegurança, passou a se envolver em atividades extracurriculares e chegou a presidir o diretório acadêmico. “A engenharia é muito técnica e às vezes deixa de lado essa parte mais pessoal”, diz.
No mercado de trabalho, ela passou por diferentes áreas, de estudos hidrológicos ao mercado financeiro, em busca de experiência e renda. Hoje, atua no time de implantação de infraestrutura rodoviária na Motiva, empresa de infraestrutura de mobilidade, onde faz gestão de contratos com empreiteiras e acompanha cronogramas e o avanço de obras.
Técnica de segurança do trabalho, Pollyana Ferraz, 38, vê o mercado como “superaquecido”, mas ressalta que as oportunidades exigem disposição para sair da zona de conforto. “Esteja preparado e muito disposto. Acho que vale todo o sacrifício”, diz. Hoje, atua como supervisora de engenharia de obras na Motiva e passa boa parte do tempo em viagem.
Fernando Rosa, vice-presidente no exercício da presidência do Crea-SP, também considera que o mercado de trabalho está aquecido e demandando cada vez mais profissionais.
A instituição mantém iniciativas de aproximação com estudantes por meio do Crea-SP Jovem, que conecta universitários ao sistema Confea/Crea, promove troca de experiências e aproximação com o mercado de trabalho e a atuação profissional na área
De acordo com Rosa, os conselhos de engenharia alertam para o risco de falta de engenheiros no futuro e atua para incentivar a formação.
O presidente licenciado do Confea, Vinicius Marchese, afirma que já faltam profissionais no país, sobretudo no interior, para atender demandas básicas de prefeituras. Ele diz que, em visitas a municípios paulistas, o problema mais recorrente é a falta de equipes técnicas e de projetos para obras e serviços essenciais.
Segundo ele, essa lacuna ameaça áreas como mobilidade, saneamento básico, transição energética e planejamento urbano. “O país perde uma mão de obra qualificada, técnica e estratégica”, afirma.
Além da engenharia civil, há outros campos ligados à infraestrutura e ao funcionamento das cidades. A área de transportes e logística trata do planejamento de sistemas de mobilidade e do escoamento de pessoas e mercadorias, com atuação em rodovias, portos, aeroportos e no planejamento urbano.
Já a engenharia cartográfica e de agrimensura trabalha com tecnologias de geoprocessamento e sistemas de informação geográfica para produzir mapas, levantamentos e modelos digitais usados no ordenamento territorial e no planejamento urbano e rural.
Na área de recursos hídricos, o foco é a gestão da água, do abastecimento ao controle de bacias hidrográficas, com impacto direto na segurança hídrica de cidades e do campo.
A engenharia sanitária e ambiental, por sua vez, atua no controle da poluição, no tratamento de resíduos e na preservação ambiental, com presença tanto no setor público quanto na indústria e em consultorias privadas.
ENGENHARIA CIVIL (e variações)
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 173
- O que o aluno vai aprender: Projetar e dimensionar estruturas, lidar com materiais e entender como uma obra sai do papel, além de desenvolver habilidades em gestão de pessoas, fundamentais para coordenar equipes em canteiros de obras.
- O que a área faz: Está por trás de obras e infraestrutura —prédio, ponte, estrada, saneamento. O trabalho vai do projeto à execução e depois à manutenção, garantindo que tudo funcione e fique de pé com segurança
- Profissões depois de se formar: Engenheiro projetista, gestor de obras, fiscal de infraestrutura e atuação em Real Estate (mercado imobiliário e empreendimentos). O profissional também é requisitado em órgãos governamentais para normatização e aprovação de projetos urbanos.
ENGENHARIA DE TRANSPORTES / LOGÍSTICA / MOBILIDADE
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 13
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O que o aluno vai aprender: O foco está no escoamento de produção, dimensionamento de rodovias e sistemas de logística de grande porte.
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O que a área faz: Planeja e gerencia os sistemas de transporte (especialmente o rodoviário, predominante no Brasil) e a infraestrutura necessária para a movimentação de pessoas e mercadorias.
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Profissões depois de se formar: Gestor logístico, engenheiro de tráfego, planejador de mobilidade urbana e consultor em cadeias de suprimentos industriais.
ENGENHARIA CARTOGRÁFICA / AGRIMENSURA
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 16
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O que o aluno vai aprender: Levantamentos topográficos, geodésicos, fotogramétricos e batimétricos. O aluno domina sistemas de informação geográfica (SIG), geoprocessamento e algoritmos baseados em Inteligência Artificial para análise de dados espaciais.
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O que a área faz: Resolve problemas de ordenamento territorial, gerando mapas, cartas, atlas e modelos digitais de terreno essenciais para o planejamento rural e urbano.
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Profissões depois de se formar: Engenheiro Cartógrafo e Agrimensor atua em empresas de mapeamento digital, órgãos de gestão territorial e projetos de agrimensura em larga escala.
ENGENHARIA HÍDRICA / RECURSOS HÍDRICOS
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 8
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O que o aluno vai aprender: Recebe formação em hidráulica e hidrologia, muitas vezes vinculada a departamentos de engenharia sanitária e civil.
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O que a área faz: Gerencia o uso da água e planeja a distribuição e o aproveitamento de recursos hídricos na natureza.
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Profissões depois de se formar: Gestor de bacias hidrográficas, consultor em saneamento e profissional em agências reguladoras de águas.
ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 60
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O que o aluno vai aprender: Fundamentos de química e biologia aplicados ao saneamento, tratamento de efluentes e engenharia civil sanitária.
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O que a área faz: Ataca problemas de saúde pública e ambientais através da implantação de redes de esgoto, tratamento de água e gestão de resíduos sólidos.
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Profissões depois de se formar: Engenheiro sanitarista em companhias de águas e esgotos, gestor ambiental em prefeituras e consultor em tratamento de rejeitos industriais.
Fonte ==> Folha SP
