Escola ‘made in Nordeste’ muda cara do ensino de economia – 23/03/2026 – Ilustríssima

Dez homens e uma mulher posam em fila na entrada do Centro de Ciências Sociais Aplicadas, com plantas ao redor e o nome do centro visível na fachada.

[RESUMO] O Pimes, centro de pós-graduação em economia da UFPE, tem produzido pesquisa de nível internacional, com métodos quantitativos, sobre problemas sociais brasileiros (crime, saúde, educação), rompendo padrão que concentrava estudos de ponta em Rio e São Paulo. Ao ganhar reconhecimento no exterior e mandar estudantes para centros de excelência (Stanford, Universidade da California, Bocconi, UBC), o programa dá oportunidade a jovens pesquisadores das regiões Norte e Nordeste: negros, gente que vem de famílias pobres, como Gil do Vigor e Maria Eliúde.

O Centro de Ciências Sociais Aplicadas, no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, é formado por um conjunto de prédios baixos com paredes de tijolo aparente que conferem ao local um ar despretensioso —austero, mas simpático. No final do ano passado, em um dos corredores amplos e arejados que dão acesso às salas de aula, o economista Gilberto Nogueira, 34, aguardava ansioso o início do seminário de que iria participar.

Ele ia ser o primeiro a falar, quando a sessão começasse, dali a alguns minutos. Apresentaria sua pesquisa a colegas de vários países da América Latina —a nata dos pesquisadores da região, reunidos na UFPE para o encontro anual da Lacea, sigla em inglês pela qual é conhecida a Associação Econômica da América Latina e do Caribe.

Gil do Vigor, como Gilberto passou a ser conhecido depois de participar do programa Big Brother Brasil, em 2021, disse ter se sentido naquele momento, em novembro de 2025, tão nervoso quanto nos “paredões” de eliminação do BBB. “Diria que até mais”, observou.

O fato de ele ter chegado até ali era o resultado de uma trajetória improvável. Pouca coisa, em suas mais de três décadas de vida, havia contribuído para que Gil fizesse doutorado pela Universidade da Califórnia em Davis (EUA) e se tornasse um pesquisador competente, reconhecido por professores e pares, capaz de apresentar seus estudos em uma conferência de nível internacional.

Gil chegou lá apesar de quase nenhum incentivo favorável, diria um economista. Primeiro, por ter nascido em uma família pobre. Jacira Santana, sua mãe, conseguiu criar duas meninas e um menino (Gil é o caçula) com o salário de cozinheira e auxiliar de serviços gerais.

Quando pequeno, ele já gostava de matemática, mas a falta de dinheiro o obrigava a procurar livros da disciplina, descartados, no lixo acumulado nas ruas do bairro. Na pós-graduação, Gil sentia falta de um preparo melhor em inglês, que procurava aprimorar assistindo a vídeos no YouTube.

Depois que saiu do Big Brother, foi o dinheiro, e não a falta dele, que passou a ser visto por muita gente como possível ameaça. Pessoas próximas, que acompanhavam a trajetória acadêmica de Gil, começaram a se questionar se ele iria insistir no plano de fazer um doutorado nos Estados Unidos, agora que se tornara milionário. Para que passar pelos rigores e pelas dificuldades da vida acadêmica, se já tinha fama e riqueza?

Tanto no momento de escassez, quanto no de abundância, o Pimes —programa de pós-graduação em economia da UFPE, que mantém o nome do tempo em que era um Programa Integrado de Mestrado em Economia e Sociologia— foi importante para Gil.

O programa começou a se reformar há dez anos, quando ele ainda estava na graduação. Ao buscarem padrão internacional para o funcionamento da pós na UFPE, os professores de Gil acabaram por suscitar no aluno o desejo de fazer um doutorado fora do país. Um desejo que persistiu mesmo quando o ex-aluno já havia conquistado segurança financeira. O Pimes também lhe deu, simultaneamente, acesso ao conhecimento de que precisava para avançar na vida acadêmica.

No encontro da Lacea, em novembro passado, Gil do Vigor apresentou sua pesquisa —em inglês— em uma das salas em que havia estudado, anos antes, no Recife. Um espaço em forma de anfiteatro. Numa das fileiras ao fundo, vendo a cena do alto, Breno Sampaio, 41, professor de economia na UFPE, sentia-se satisfeito com o resultado do trabalho de uma década.

Professores e ex-alunos do Pimes no encontro da Lacea marcavam uma guinada, visível desde 2020, na projeção internacional da UFPE. O programa de pós em economia da federal de Pernambuco tem produzido pesquisa sofisticada, na fronteira técnica da disciplina, sobre problemas sociais —crime, saúde, educação— a partir de bases de dados brasileiras.

Os resultados têm sido publicados em algumas das melhores revistas acadêmicas do mundo: Econometrica, Journal of Development Economics e Journal of Public Economics, entre outras. Trata-se de pesquisa de ponta, diz Breno Sampaio, que tem orgulho de ser “made in Nordeste”.

Além disso, como parte do reconhecimento de que começam a desfrutar internacionalmente, alunos do Pimes têm sido aceitos para doutorados em algumas das melhores universidades do mundo: Stanford, Universidade da Califórnia, Bocconi (na Itália), Universidade de British Columbia (no Canadá). Gil do Vigor não é um caso isolado.

Em uma disciplina altamente hierarquizada, na qual durante décadas quatro ou cinco centros localizados no Rio e em São Paulo concentraram —ainda concentram— a pesquisa e a formação acadêmica de ponta em economia no Brasil, a ascensão recente do núcleo pernambucano tem chamado atenção. E ela também foi feita, como no caso da trajetória acadêmica de seu ex-aluno mais famoso, de maneira improvável, apesar de muitos incentivos contrários.

Professor da Universidade de British Columbia, no Canadá, Claudio Ferraz parou para prestar atenção mais detida ao Pimes em 2016. Ele e Rodrigo Soares, ambos economistas de projeção internacional, circulavam pelos corredores de um encontro da Associação Econômica da América Latina e do Caribe, naquele ano realizado em Medellín, na Colômbia, quando Ferraz notou um grupo desconhecido de brasileiros reunidos em volta de uma mesa.

“Parei para conversar e descobri que era um grupo de professores do Pimes.”

Ferraz disse ter ficado impressionado porque todos tinham pesquisa a apresentar no encontro da Lacea. “Uns três ou quatro. Não havia três ou quatro pesquisadores da PUC naquele encontro, por exemplo”, explicou, fazendo referência a um dos centros de excelência em economia no país, a PUC-Rio, onde ele então dava aula.

A grande participação de pesquisadores do Pimes em um encontro internacional, naquele ano, foi um dos primeiros resultados de intervenções feitas por um grupo de jovens pesquisadores que tinham acabado de ser incorporados ao departamento de economia da UFPE.

Paulo Henrique Vaz, hoje coordenador da pós-graduação em economia na federal de Pernambuco, voltou de seu doutorado na Universidade de Illinois (EUA) em 2015. Um pouco antes dele, Breno e seu irmão, Gustavo Sampaio, também tinham terminado seus PhDs na mesma instituição.

Alguns professores foram contratados por concurso em 2015, incluindo Rafael Costa Lima, que decidira trocar a USP pela UFPE, onde havia feito o curso de graduação. “Eu sou do Recife, estava em São Paulo fazia quatro anos e não me sentia adaptado, apesar de gostar de trabalhar na USP”, explicou Costa Lima.

Paulo Vaz disse ter notado, ao chegar, que os professores e alunos do Pimes tinham pouca ou nenhuma participação nos melhores congressos nacionais e internacionais. Embora houvesse uma tradição de mandar alunos para fazer pós-graduação nos Estados Unidos desde a década de 1970, esse intercâmbio era muito dependente da relação de antigos professores do Pimes com o brasilianista Werner Baer, que dava aula na Universidade de Illinois e no passado, nos anos 1960 e 1970, havia ajudado a organizar a pós-graduação em economia no Brasil, trazendo recursos e atuando como intermediário entre organizações americanas e universidades brasileiras.

Baer sempre apoiou o Pimes, e a boa formação de Vaz e dos irmãos Sampaio era em parte resultado desse esforço do brasilianista. Mas agora os três e Rafael Costa Lima queriam um departamento que funcionasse como os centros onde eles haviam estudado, como os melhores da disciplina: com seminários regulares de alto nível, estímulo à pesquisa e à participação em congressos nacionais e internacionais. Colocaram isso em prática, desenvolveram os próprios projetos, e o investimento começou a dar frutos.

“Várias coisas que a gente não precisava fazer, necessariamente, a gente resolveu fazer para se ajudar, para tornar o ambiente melhor para os professores e também para os alunos”, explicou Costa Lima.

As pesquisas avançaram, e o grupo de novos professores passou a ter presença constante em alguns dos melhores seminários da disciplina. O economista Gabriel Ulyssea, professor no University College em Londres, lembra-se de encontrar Breno Sampaio em congressos.

“Eu comecei a ver o Breno apresentando. E pensei: ‘Pô, quem é esse cara?’.” Ulyssea admite ter ficado surpreso ao encontrar alguém tão bom vindo de um centro, o Pimes, que até então ninguém contava entre os principais programas de pós em economia do país.

“A academia é muito elitista, e às vezes a gente nem se dá conta. Você pensa: ‘Como é que pode um cara bom desse jeito vindo desse lugar de que eu nunca ouvi falar? Como é que ele não está na FGV? Como é que a gente ainda não o contratou?’.”

O Pimes começou a se destacar. Primeiro aos poucos, e então de repente. O salto final contou com algum elemento de sorte.

Um aluno de Breno Sampaio ouviu certo dia, em 2015, um colega de academia (a do corpo, não da mente) falar de uma empresa, sediada no Recife, que fazia acompanhamento online de processos judiciais. Kurier Inteligência Jurídica, era o nome.

“Eles têm dados da Justiça brasileira”, disse o aluno, mais tarde, para Sampaio, “e estão querendo fazer produtos de análise de dados, de inteligência, de previsão”. O professor ouviu e não demorou para entender a importância daquela fonte de informação.

Entrou em contato com a empresa, que rastreava o surgimento de processos em tribunais de todo o país e oferecia a advogados o serviço de informação atualizada sobre eles.

Sampaio ajudou a companhia com sua expertise em análise de dados, mas também a convenceu a montar um banco de dados com todos os processos judiciais do país ao longo de mais de uma década. Uma base desse tipo é o sonho de qualquer economista, e não existe em quase nenhum lugar do mundo.

“Tem em países da Escandinávia”, lembrou Sampaio. Mas a pacífica e próspera Escandinávia não é exatamente o lugar ideal para estudar crime —algo a que ele passou a se dedicar.

O banco de dados abriu portas. Sampaio estabeleceu uma parceria com o pesquisador italiano Paolo Pinotti, da Universidade Bocconi, em Milão. Pinotti é um dos grandes especialistas em economia do crime no mundo. Dessa parceria vieram recursos (que Pinotti podia levantar na Europa), maior inserção nas redes acadêmicas do mundo rico e até acesso a computadores melhores, capazes de analisar um maior volume de dados.

A interlocução com a elite da pesquisa mundial “ajuda de várias formas”, diz Sampaio. “Ajuda por ter mais feedback de outras pessoas, e aí o trabalho vai se aperfeiçoando. Acho que ajuda até em um aspecto psicológico, assim, de você expandir um pouco a fronteira do que você acha que consegue fazer.”

Em 2022, Breno Sampaio, Paolo Pinotti e Diogo Britto, um economista brasileiro que fez doutorado na Itália e também trabalha na Bocconi, publicaram um artigo sobre “o efeito da perda de emprego e do seguro-desemprego sobre o crime no Brasil” (era esse o título, em inglês) na Econometrica, uma das cinco melhores revistas acadêmicas de economia no mundo.

No trabalho, mostravam de maneira rigorosa que o aperto financeiro, a falta de recursos, empurrava indivíduos para o crime. Outros professores e alunos do Pimes já estavam publicando, nessa época, e continuaram a publicar, depois, artigos em ótimas revistas acadêmicas internacionais. Mas o trabalho da Econometrica se tornou uma espécie de joia da Coroa do Pimes. Ninguém mais ia olhar um crachá e se perguntar: “Pimes? Que lugar é esse?”.

Com o reconhecimento internacional, o Pimes passou a fazer uma ponte entre ótimos alunos –alguns que talvez tivessem dificuldade de ir estudar longe de casa, mesmo dentro do Brasil— e grandes universidades internacionais.

Foi esse o caso de Gil do Vigor, que precisou trabalhar enquanto cursava a graduação. “Para eu conseguir dar esse salto”, de ir fazer o doutorado na Universidade da Califórnia, “eu precisava de um centro próximo de onde eu moro, que me desse uma boa formação acadêmica e permitisse voos ainda maiores”, ele disse. “O Pimes dá essa oportunidade não só para mim, mas para muitas pessoas ali no Norte e Nordeste.”

É o caso também da cearense Maria Eliúde, 30, que hoje faz doutorado na Universidade de British Columbia, no Canadá. A mãe de Maria a criou sozinha na primeira infância, trabalhando como empregada doméstica. Dormia nas casas de quem a empregava. Maria fez mestrado no Pimes. Simultaneamente, estagiou como analista de dados na Kurier, a empresa que fez parceria com Breno Sampaio para rastrear processos judiciais.

Com o dinheiro da bolsa de mestrado e do trabalho na Kurier, Maria pôde ajudar a melhorar as condições de moradia da família. Pagou o reboco, o revestimento externo, da parede da frente na casa em que moram a mãe, os avós maternos e uma prima com paralisia cerebral, em Itapipoca, no Ceará.

Agora, com a bolsa de doutorado canadense, quer terminar a reforma. “A minha mãe tem o sonho de fazer a casa toda rodeada de alpendres. E eu quero também rebocar as paredes que faltam, na parte de fora da casa. Só a frente é rebocada, a lateral não é.” Sem revestimento, ela diz, “quando chove, alaga tudo”.

A pesquisa de Maria tem a ver com sua experiência de vida, com o fato de a mãe ter tido que parar de trabalhar para cuidar da prima com paralisia cerebral. Ainda no Pimes, ela começou a estudar o impacto de “choques adversos” de saúde sobre a renda das famílias e a educação dos filhos.

A diversidade de origem dos alunos pode ajudar a melhorar a qualidade da pesquisa, observa o economista Filipe Campante, professor da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. “A diversidade é positiva não apenas como um valor em si, mas porque ela traz para a pesquisa gente capaz de perguntar coisas que não seriam perguntadas” por outros pesquisadores.

Gabriel Ulyssea considera que o Pimes é “o Brasil que está dando certo”. Um caso raro de departamento de economia em universidade pública que tem conseguido produzir pesquisa de nível internacional. Isso, apesar dos salários mais baixos e dos recursos mais limitados para pesquisa, comparados ao que está disponível para professores da PUC-Rio ou das FGVs, do Rio e de São Paulo, por exemplo.

O uso do gerúndio se justifica, Ulyssea diz, porque o trabalho ainda é dependente da reunião atual de pessoas que compõem o Pimes. E há uma ameaça não desprezível à continuidade da pesquisa que tem sido feita na UFPE, uma ameaça lembrada por vários economistas que torcem pelo sucesso da pós pernambucana: a de que seus pesquisadores, ao se destacarem, recebam ofertas de outras instituições, com mais recursos.

Pesa contra a emigração, a despeito dos salários melhores que poderiam ganhar em outras partes, o apego que Breno Sampaio, Paulo Vaz e Rafael Costa Lima, ouvidos pela Folha, dizem ter por Pernambuco. Breno Sampaio já recebeu ofertas, e não quis sair do Recife.

“O brasileiro é bairrista, e o pernambucano é mais ainda”, ele diz, antes de citar aspectos da cultura local de que gosta —e de que não pretende abrir mão. “Eu não saio daqui. Podem botar 1 milhão de salário lá em São Paulo, que eu não vou. O meu negócio é aqui, entendeu?”

Filipe Campante observa que algo parecido acontece com economistas de ponta franceses, que abrem mão de salários mais altos e de posições de prestígio nos Estados Unidos para voltar à Europa. “Você vê isso em vários lugares do mundo. Na França, por exemplo. Formam gente fantástica, aí esses caras vão estudar pelo mundo afora e uma parte deles volta. Por que volta? Porque querem morar em Toulouse, sei lá.”

“O dinheiro não compra tudo”, observou Paulo Vaz, ao comentar o desejo de Gil do Vigor de insistir no sonho do doutorado, mesmo depois de ter milhões na conta bancária.

O mesmo Vaz pareceu se referir a algo parecido, quando comentou as ofertas de emprego de outros centros e o apego a Pernambuco dos professores do Pimes. Fez questão de lembrar dos feriados em que ele e Breno Sampaio se encontravam na praia dos Carneiros, um balneário de águas mornas e cristalinas a duas horas do Recife.

“Eu encontrava Breno, e ele dizia: ‘Eita, que saudade de Illinois. Eita, como eu queria morar em Washington, D.C. Eita, que eu queria estar na avenida Paulista agora.”



Fonte ==> Folha SP

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