O paradoxo fitness brasileiro: por que o crescimento das academias ainda não se traduz em uma população mais saudável?

Profissional de Educação Física Rodrigo Rezende propõe uma reflexão sobre os desafios do setor fitness e defende que o próximo passo do Brasil não é abrir mais academias, mas desenvolver uma verdadeira cultura de treinamento.

O Brasil nunca teve tantas academias, centros de treinamento, assessorias esportivas, estúdios especializados, aplicativos de exercícios, relógios inteligentes e acesso à informação sobre saúde, emagrecimento, hipertrofia e qualidade de vida. O país figura entre os maiores mercados fitness do mundo e acompanha uma indústria que cresce ano após ano, impulsionada por inovação, tecnologia e novos modelos de negócio.

Ao mesmo tempo, porém, indicadores relacionados ao excesso de peso, obesidade, diabetes, hipertensão, sedentarismo, estresse, ansiedade, depressão e distúrbios do sono continuam avançando. Esse cenário levanta uma pergunta que, segundo o profissional de Educação Física Rodrigo Rezende, precisa ser discutida com maior profundidade: estamos realmente mais saudáveis?

Para o especialista, esse contraste representa o que ele denomina de “Paradoxo Fitness Brasileiro”. Em sua análise, o crescimento da indústria, por si só, não foi capaz de produzir uma transformação proporcional na saúde da população.

“Temos academias, mas isso é suficiente?”, questiona Rodrigo ao analisar o cenário nacional. Segundo ele, possuir uma das maiores estruturas do mercado fitness mundial não significa, necessariamente, contar com uma população fisicamente ativa, metabolicamente saudável e emocionalmente equilibrada.

Na avaliação do especialista, existe uma diferença importante entre oferecer acesso ao exercício e construir uma cultura de treinamento consistente. Embora milhões de brasileiros frequentem academias, uma parcela significativa da população ainda não atinge as recomendações mínimas de atividade física, enquanto doenças crônicas associadas ao estilo de vida permanecem em crescimento.

Rodrigo ressalta ainda que o exercício físico não substitui tratamentos médicos, psicológicos ou farmacológicos quando estes são necessários. No entanto, destaca que há amplo consenso científico sobre o papel da atividade física regular na prevenção e no controle de diversas doenças crônicas, além da contribuição para a melhora da qualidade de vida.

Academia e treinamento não são sinônimos

Um dos principais pontos defendidos por Rodrigo Rezende é que frequentar uma academia não significa, necessariamente, estar treinando.

Segundo ele, treinamento é um processo estruturado, baseado em objetivos definidos, avaliação física, planejamento, progressão de estímulos, recuperação e reavaliação constante. Intensidade, volume, frequência, intervalo de recuperação, amplitude de movimento, velocidade de execução, seleção de exercícios e características individuais precisam ser considerados para que o organismo produza adaptações consistentes.

Idade, composição corporal, histórico de treinamento, limitações físicas, qualidade do sono, nível de estresse e disponibilidade de tempo também fazem parte desse processo.

Quando essas variáveis são negligenciadas, explica o especialista, muitas pessoas passam anos frequentando academias sem explorar plenamente sua capacidade adaptativa. Comparecem regularmente, mas deixam de evoluir porque repetem continuamente os mesmos estímulos, impedindo que o organismo produza novas adaptações fisiológicas.

Exercício vai muito além de gastar calorias

Outro aspecto abordado por Rodrigo é a forma como parte da indústria do emagrecimento reduziu o exercício físico à lógica simplificada do balanço calórico.

Na sua avaliação, essa visão ignora a complexidade da fisiologia humana.

Ele explica que o treinamento de força não atua apenas no aumento da massa muscular. Também desempenha papel importante na funcionalidade, autonomia, proteção articular, utilização de glicose e saúde metabólica, enquanto o exercício aeróbico promove adaptações cardiovasculares, melhora da capacidade cardiorrespiratória e redução de fatores de risco para diversas doenças.

Para o especialista, um programa eficiente precisa integrar diferentes capacidades físicas, como força, resistência, potência, mobilidade, coordenação, estabilidade e condicionamento cardiovascular, uma vez que saúde não depende de um único componente, mas do equilíbrio entre diferentes sistemas do organismo.

A obesidade exige uma visão mais ampla

Ao discutir o crescimento da obesidade no Brasil, Rodrigo Rezende chama atenção para a necessidade de abandonar explicações simplistas.

Segundo ele, a obesidade é uma condição multifatorial, influenciada por fatores genéticos, ambientais, sociais, econômicos, psicológicos e comportamentais.

Nesse contexto, alimentação e movimento permanecem como elementos fundamentais, mas não devem ser tratados como adversários.

O especialista observa que muitas pessoas utilizam o treinamento como uma espécie de autorização para exagerar na alimentação, transformando o exercício em punição e a comida em recompensa. Para ele, essa lógica compromete a construção de hábitos duradouros.

A proposta, segundo Rodrigo, é compreender treinamento e alimentação como estratégias complementares para desenvolver um organismo funcional, metabolicamente eficiente e preparado para envelhecer com autonomia.

Saúde mental também faz parte da equação

A reflexão também aborda a relação entre atividade física e saúde mental.

Rodrigo destaca que evidências científicas associam o exercício regular à melhora do humor, da qualidade do sono, da percepção de bem-estar e da capacidade de lidar com o estresse.

Além dos mecanismos fisiológicos, ele ressalta a importância dos aspectos comportamentais. O treinamento estabelece rotina, cria metas, favorece a percepção de progresso e fortalece a sensação de competência, tornando-se, para muitas pessoas, um dos poucos momentos do dia dedicados ao autocuidado.

Ao mesmo tempo, faz um alerta sobre um comportamento comum: acreditar que uma hora diária de treino é suficiente para compensar hábitos prejudiciais mantidos durante o restante do dia.

Segundo ele, permanecer longos períodos sentado, dormir pouco, alimentar-se inadequadamente, viver sob estresse constante, consumir álcool em excesso e negligenciar a hidratação continua produzindo impactos importantes sobre a saúde.

“O organismo responde à consistência, não à empolgação”, resume o especialista.

Os cinco pilares para resultados sustentáveis

Como alternativa ao cenário apresentado, Rodrigo Rezende defende uma abordagem integrada baseada em cinco pilares considerados essenciais para promover adaptações duradouras.

O primeiro é o treinamento estruturado, realizado com objetivos claros, organização, progressão e acompanhamento profissional.

O segundo envolve uma alimentação compatível com os objetivos individuais e sustentável ao longo do tempo.

O terceiro destaca a importância do sono, fundamental para recuperação física, regulação hormonal, memória, controle do apetite e saúde mental.

O quarto pilar trata do gerenciamento do estresse, especialmente da necessidade de desenvolver estratégias eficazes de recuperação diante das demandas da vida moderna.

Por fim, Rodrigo aponta a continuidade como fator decisivo para qualquer processo de transformação. Segundo ele, resultados consistentes não são produzidos pelos programas mais radicais, mas por aqueles que conseguem ser mantidos com qualidade ao longo do tempo.

Uma reflexão sobre o futuro da saúde

Para Rodrigo Rezende, o maior desafio do mercado fitness brasileiro deixou de ser democratizar o acesso às academias. O próximo passo consiste em qualificar a experiência das pessoas dentro e fora desses ambientes.

Na sua avaliação, o país precisa transformar acesso em participação, participação em adesão, adesão em treinamento de qualidade e, finalmente, treinamento de qualidade em saúde.

Mais do que discutir academias, suplementos ou equipamentos, sua reflexão propõe uma mudança de perspectiva sobre comportamento humano, educação em saúde e construção de hábitos sustentáveis.

Segundo o especialista, exercício não deve ser encarado como castigo, alimentação não deve funcionar como punição e descanso não pode ser confundido com preguiça. A verdadeira transformação acontece quando comportamento, fisiologia e consistência passam a caminhar juntos — uma reflexão que, para ele, pode ajudar a compreender por que o Brasil continua convivendo com indicadores preocupantes de saúde, mesmo sendo uma das maiores potências do mercado fitness mundial.

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *