Eu denunciei o racismo. Em troca, adoeci.

Thainá Caroline dos Reis

Por Thainá Caroline dos Reis*

Quando entrei na Toyota, acreditava que estava realizando um sonho. Mas, entrei com um sonho, vivi um pesadelo, e agora estou doente. Eu queria construir uma carreira, crescer profissionalmente e ser reconhecida pelo meu trabalho. Nunca imaginei que aquele ambiente mudaria completamente a minha vida.

Sou uma mulher negra e vivi situações de racismo, assédio moral, humilhações e isolamento dentro da empresa.

O mais doloroso é que tudo se agravou justamente depois que tive coragem de denunciar aquilo que entendia ser injusto.

Muitas pessoas acreditam que denunciar é suficiente para que a verdade apareça. Eu também acreditava.
Mas descobri que, muitas vezes, a vítima precisa lutar muito mais do que quem é acusado.
Não fiquei apenas nas palavras.
Reuni vídeos, gravações de áudio, fotografias, conversas, prints, documentos, laudos médicos, receitas de medicamentos, relatórios de especialistas e, posteriormente, o próprio laudo do perito judicial produzido no meu processo trabalhista.

Cada documento representa um pedaço da minha dor.

Cada laudo representa o adoecimento de uma trabalhadora que entrou saudável em uma empresa e hoje precisa de acompanhamento psiquiátrico e psicológico. Faço uso de medicamentos controlados, incluindo Rivotril, e continuo afastada do trabalho por orientação médica.

Minha vida nunca mais foi a mesma.

O racismo não termina quando o expediente acaba.
Ele acompanha a vítima para casa.
Ele tira o sono.
Ele destrói a autoestima.
Ele provoca crises de ansiedade, síndrome do pânico, depressão e medo.
Ele faz com que levantar da cama seja uma batalha.

O que mais me marcou não foram apenas as atitudes, mas também as palavras.

Durante uma conversa com uma representante do RH da Toyota, e conforme registro que apresentei como prova, ouvi frases que jamais saíram da minha memória.
Em determinado momento, ela me disse:
“Você vai remoer isso até quando? Você vai pedir demissão? Não, né… Então passa uma faca nisso. Passa um divisor de águas.”
Ela me falava que “ela era contratada pra resolver problemas, e que eu era contratada pra não dar problemas”.

Como se tudo aquilo que eu havia vivido pudesse simplesmente ser esquecido.
Como se bastasse “seguir em frente”.
Como se o problema estivesse em mim por não conseguir apagar a dor.

Em outro momento, essa mesma representante do RH afirmou:
“Entenda, você é negra… E desde pequena você já nasceu assim, negra.”

Até hoje me pergunto o que aquela frase pretendia me ensinar.
Porque eu sempre soube que sou uma mulher negra.
O que eu jamais aceitei foi que isso pudesse servir para naturalizar situações que eu sei que são discriminatórias ou para justificar que eu simplesmente me conformasse com elas.

Mesmo diante de todo esse conjunto de provas, procurei as instituições acreditando que encontraria proteção.
Levei minha denúncia ao Ministério Público do Trabalho. Entreguei vídeos, áudios, prints, laudos médicos, documentos e, posteriormente, o laudo do perito judicial.
Ainda assim, a sensação que ficou foi a de encontrar mais uma barreira.

É devastador quando o órgão ao qual recorremos para buscar proteção nos faz sentir que toda a dor vivida, todo o adoecimento e todo o conjunto de provas apresentados ainda parecem não ser suficientes.
A vítima passa a ter a impressão de que precisa provar, repetidas vezes, que sofreu, enquanto continua convivendo diariamente com as consequências daquilo que denunciou.

A decepção não parou por aí.
Também procurei o sindicato dos trabalhadores.
Acreditei que encontraria acolhimento e defesa. Afinal, essa é a missão de um sindicato.
Mesmo diante de tudo o que apresentei, recebi uma resposta que jamais esquecerei.
O diretor sindical me respondeu:
“Eu entendo a sua indignação, mas como você mesma disse eu sou diretor do sindicato, não da empresa. A gente vive no capitalismo, quem manda são os empresários, não nós trabalhadores.”

Naquele momento, senti que estava completamente sozinha.
A sensação era de que ninguém tinha força para enfrentar uma grande empresa.
Como se o sofrimento de uma trabalhadora pudesse ser colocado em segundo plano diante do poder econômico.

Hoje continuo vinculada à empresa, mas afastada por determinação médica.
Enquanto tento recuperar minha saúde, também enfrento uma batalha judicial em busca de justiça. Reviver tudo em perícias, audiências e documentos significa reviver, inúmeras vezes, a dor que eu gostaria apenas de superar.

Não escrevo este texto por vingança.
Escrevo porque milhares de trabalhadores negros ainda enfrentam situações semelhantes e permanecem em silêncio por medo de perder o emprego, sofrer represálias ou adoecer ainda mais.
Escrevo porque nenhuma empresa, por maior que seja, pode estar acima da dignidade humana.
Escrevo porque nenhuma instituição deveria fazer uma vítima sentir que sua dor precisa ser provada infinitamente para ser levada a sério.

Meu processo ainda está em andamento e confio que a Justiça analisará todas as provas e decidirá de forma imparcial.

Mas existe algo que nenhuma decisão poderá apagar.

A mulher que entrou naquela empresa cheia de sonhos não é a mesma que escreve este texto hoje.

O racismo, o assédio e a violência psicológica deixam marcas que não aparecem apenas nos processos judiciais.
Elas aparecem na saúde, na família, nos relacionamentos, na autoestima e na vida de quem sobrevive a tudo isso.
Contar minha história é transformar o silêncio em resistência.

É dizer para outras mulheres negras que elas não estão sozinhas.
É lembrar às empresas, às instituições e à sociedade que combater o racismo exige mais do que discursos de diversidade. Exige coragem para ouvir, investigar, acolher e agir.

Porque nenhuma pessoa deveria adoecer por ter tido a coragem de denunciar aquilo que acreditava ser injusto.

Minha voz pode ter sido ignorada por muitos. Mas ela não será silenciada.

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*Instagram: https://www.instagram.com/c_caroline96

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