EUA fará teste obrigatório de testosterona em militares – 16/07/2026 – Mundo

Homem de terno e gravata vermelha faz saudação com a mão direita ao olhar para frente, cercado por quatro soldados com uniformes camuflados e boinas pretas, em ambiente escuro.

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou nesta quarta-feira (15) um novo programa obrigatório de triagem para testar anualmente todos os militares com 30 anos ou mais, incluindo mulheres, para deficiência de testosterona.

O tratamento hormonal para militares com baixos níveis de testosterona será voluntário.

“Nossa vantagem tática mais decisiva sempre será o combatente individual”, afirmou Hegseth em um vídeo gravado em seu escritório no Pentágono. “Temos o dever sagrado de preservar essa vantagem.”

Segundo ele, em uma mensagem publicada nas redes sociais junto ao vídeo, o objetivo é criar um “Departamento da Guerra com alta testosterona”, denominação que Hegseth prefere usar para o Departamento de Defesa.

O foco de Hegseth nos níveis de testosterona, em um momento em que as forças americanas intensificam os ataques ao Irã, é considerado incomum. Normalmente, secretários de Defesa concentram sua atuação em questões estratégicas mais amplas, envolvendo alianças, guerras e produção de armamentos.

Mas Hegseth, ex-oficial da Guarda Nacional do Exército e veterano da Guerra do Iraque, não evitou se envolver em aspectos cotidianos da vida dos militares, como a imposição de novos padrões de aparência para soldados que, devido a problemas de pele, anteriormente tinham autorização para usar barba.

“Chega de barbudos”, declarou.

Militares com menos de 30 anos poderão se voluntariar para fazer o exame, e aqueles que apresentarem baixos níveis hormonais terão a opção de receber terapia de reposição de testosterona (TRT, na sigla em inglês). “Trata-se de restaurar e otimizar sua capacidade natural”, disse Hegseth.

Segundo ele, o objetivo é preparar melhor os militares para um campo de batalha moderno, que descreveu como “brutal e implacável”.

Níveis clinicamente baixos de testosterona em homens podem causar perda de massa muscular, fadiga, obesidade e disfunção sexual, além de estarem associados a outros problemas graves de saúde, como diabetes, osteoporose e depressão.

Estresse, privação de sono e traumatismos cranianos, que fazem parte da vida militar, também podem reduzir os níveis do hormônio. Estudos recentes identificaram uma condição chamada “síndrome do operador”, na qual militares que passaram longos períodos em unidades de Operações Especiais apresentam maior probabilidade de relatar problemas médicos, incluindo queda nos níveis de testosterona.

O uso da testosterona também envolve riscos à saúde, especialmente à fertilidade, por interromper a produção de espermatozoides. Além disso, pode aumentar o risco de coágulos sanguíneos e frequentemente causa acne e queda de cabelo.

Devido ao estigma ainda existente, muitos militares evitam fazer exames para detectar baixa testosterona ou buscam terapia hormonal por meio de empresas que vendem diretamente ao consumidor ou por fontes ilegais, afirmou o urologista Theodore Crisostomo-Wynne, do Centro Médico Militar Madigan, durante um painel da FDA [Food and Drug Administration, agência americana equivalente à Anvisa] em dezembro.

“Há militares que trabalham a carreira inteira para conquistar essas funções especiais, que são altamente disputadas”, disse Crisostomo-Wynne. “Eles temem que, se forem diagnosticados e tratados para essa condição, possam perder esse status.”

Embora as mulheres também produzam testosterona, os homens apresentam níveis entre 10 e 20 vezes maiores. Atualmente, não existe nenhum tratamento com testosterona aprovado pela FDA para mulheres.

Apesar de a terapia de reposição de testosterona ter usos médicos legítimos, o hormônio também vem ganhando enorme popularidade nos EUA como uma substância voltada ao aumento de massa muscular e ao estilo de vida. A demanda cresceu de menos de 1 milhão de prescrições em 2000 para quase 12 milhões em 2025.

A baixa testosterona afeta principalmente homens à medida que envelhecem. Recentemente, porém, o uso da terapia tem crescido mais rapidamente entre homens jovens, muitos dos quais não apresentam deficiência clínica do hormônio. Influenciadores populares, como Joe Rogan e Andrew Huberman, falaram publicamente sobre o uso da terapia, assim como o secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr.

Hegseth, como secretário de Defesa, tem buscado cultivar uma imagem de líder simpático à “machosfera”. Ele se exercita regularmente com as tropas. Ele supervisionou a proibição de militares transgêneros e questionou se as mulheres são um prejuízo para unidades de combate terrestre. O secretário de Defesa bloqueou repetidamente as promoções de mulheres aos postos de general e almirante, mesmo depois de terem sido selecionadas por comissões compostas por oficiais superiores.

Hegseth também adotou o ceticismo em relação às vacinas comum em setores da machosfera. No início deste ano, determinou o fim da obrigatoriedade da vacina anual contra a gripe, classificando a exigência como um mandato “absurdo e excessivo”. Dois meses depois, após um surto de gripe no treinamento básico da Força Aérea que deixou centenas de militares doentes e matou um recruta, os militares voltaram atrás e restabeleceram a obrigatoriedade da vacinação contra a gripe para todos os militares e novos recrutas em treinamento inicial.

A ordem de Hegseth pode ter implicações para a determinação emitida por ele e pelo presidente Donald Trump no ano passado proibindo militares transgênero de servir nas Forças Armadas. A medida, atualmente contestada nos tribunais federais, baseia-se parcialmente no argumento do Pentágono de que militares transgênero poderiam não ter acesso à terapia hormonal em zonas de guerra.

“As Forças Armadas devem manter elevados padrões de saúde física e mental para garantir que possam ser mobilizadas, combater e vencer, inclusive em condições adversas e sem acesso a tratamento médico rotineiro ou a provisões especiais”, afirma a proibição anunciada pelo governo Trump em janeiro de 2025.

O Pentágono não explicou por que o fornecimento de terapia hormonal seria um problema para militares transgênero, mas não para os demais integrantes das Forças Armadas. No entanto, a ordem executiva que instituiu a proibição afirma que a “ideologia radical de gênero” seria prejudicial à coesão das tropas.

“A recomendação de Hegseth para que militares homens utilizem testosterona deixa absolutamente claro que a política que proíbe militares transgênero por utilizarem o mesmo medicamento é puro preconceito”, afirmou Shannon Minter, diretor jurídico do Centro Nacional para os Direitos LGBTQIA+. “Isso representa um flagrante tratamento desigual e evidencia a falta de racionalidade da proibição.”



Fonte ==> Folha SP

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