O Amapá, “solo fértil de imensos tesouros”, como diz seu hino, está no centro da corrida do ouro. Na rota de garimpeiros expulsos da terra indígena yanomami, o estado nos últimos anos registrou a expansão da exploração ilegal do metal precioso.
Os criminosos passaram a migrar para o Amapá após serem expulsos pelo aumento da fiscalização em outras unidades da federação. Esse movimento acontece em meio a um crescimento da presença do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) na região amazônica.
Só neste ano, o Ibama (instituto do meio ambiente) realizou seis operações contra o garimpo ilegal, sendo duas em maio, em áreas protegidas entre o Amapá e o norte do Pará, onde ficam o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e o Vale do Jari. Em um dos pontos de suporte do crime, foram apreendidos 441 explosivos.
Quinze pessoas foram detidas, mas liberadas por falta de condições logísticas para a condução até uma delegacia. As aeronaves utilizadas nas operações têm lotação limitada, o que inviabiliza o transporte de número elevado de passageiros.
Em maio, o órgão coordenou a operação Calha Norte, que destruiu sete escavadeiras hidráulicas, dois tratores, três quadriciclos, dezenas de motores e acampamentos clandestinos, além de ter descartado 3.300 litros de diesel.
No mesmo mês, o Ibama promoveu uma nova fase da operação Domo Amazônico, que tenta expulsar do Vale do Jari, desde agosto de 2025, os garimpeiros oriundos de outras áreas de exploração ilegal na amazônia.
Foram destruídos, entre outros, 31 acampamentos, além do descarte de 14.250 litros de diesel e 350 litros de gasolina. Também nessa ação ninguém foi preso.
Felipe Finger, coordenador do GEF (Grupo Especial de Fiscalização) do Ibama, destaca que detectou mais de 300 km de ramais clandestinos. Segundo ele, nesse mosaico de áreas protegidas, a devastação se estende desde a Estação Ecológica do Jari, uma unidade de conservação federal, até mais ao norte, chegando a ameaçar terras indígenas.
“São mais de 300 km abertos de ramais clandestinos para o deslocamento das escavadeiras nas áreas protegidas do Vale do Jari. Esse fenômeno só é possível com o alto preço do ouro. Fora desse patamar, não tem como eles fazerem esse nível de investimento. Para grandes maquinários entrarem nesse território, estamos falando de investimentos astronômicos”, disse ele à Folha.
O GEF identificou a rota feita pelos garimpeiros expulsos da terra yanomami. Segundo a ONG Greenpeace, as atividades ilegais na área registraram redução de 95,18% em 2025, após a crise humanitária causada pelas devastações das florestas e dos rios, contaminados com mercúrio (metal pesado altamente tóxico utilizado para agrupar partículas finas de ouro).
Segundo Finger, a desintrusão resultou em uma migração dos criminosos para o território Sararé, em Mato Grosso, que também recebe operações de repressão contra o garimpo. De lá, mais uma vez expulsos, eles foram para o Amapá e chegaram até o Parque Amazônico, na Guiana Francesa, que nos últimos anos também sofre forte pressão da exploração ilegal de brasileiros.
“Notamos essa migração, mais precisamente no ano passado, que coincidiu com os trabalhos de intensificação de fiscalização na Terra Indígena Sararé”, acrescentou.
Além disso, a valorização do ouro também contribui para esse movimento. O metal teve uma alta histórica que fez os preços quase dobrarem nos últimos dois anos, o que aumentou a possibilidade de ganhos de quem atua no garimpo ilegal.
Em 2025, entrou em vigor um acordo entre os presidentes Lula (PT) e Emmanuel Macron, da França, para ampliar as ações de combate ao garimpo ilegal na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. A iniciativa ocorre por meio do programa Ouro Alvo, da Polícia Federal, que descobre o “DNA do ouro” (a assinatura físico-química da amostra, para relacioná-la a seu território de origem).
Esse mercado clandestino atraiu o PCC e o CV, que passaram a operar e expandir as atividades ilegais na amazônia, com atuação também em países africanos, como Sudão e África do Sul.
Investigações da Polícia Federal e do MPF (Ministério Público Federal) apontaram, nos últimos anos, que parte expressiva do ouro extraído da terra yanomami alimentava o mercado nacional e o internacional. O metal chegava a países da Europa, da Ásia e aos EUA.
Amapá é o estado mais preservado do país
Sem ligação por terra com o restante do Brasil, o Amapá é o estado mais preservado do país por ter a maior parte de sua floresta amazônica em locais de difícil acesso. Cerca de 73% do território do estado é composto por áreas protegidas, o maior percentual do Brasil, incluindo terras indígenas, territórios quilombolas e 21 unidades de conservação.
De olho no alto preço do ouro, o governador Clécio Luís Vieira (União) celebra a retomada da mineração industrial na região do município de Pedra Branca do Amapari, a 189 km de Macapá, onde vivem indígenas e ribeirinhos. A empresa Amapá Minerals substitui a antiga mina Tucano Gold, que estava com as atividades paralisadas havia cerca de quatro anos.
Segundo o governo, a empresa está instalada no estado desde setembro, período em que conduz um processo de reestruturação do empreendimento. Para a viabilidade do projeto, Clécio contou como aliado o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Eles prometem desenvolvimento do estado com geração de empregos.
Procurada pela reportagem desde maio, a gestão de Clécio não respondeu a questões relacionadas ao licenciamento ambiental e à segurança da operação. No portal oficial, o governo afirma que “dispõe de estudos técnicos consolidados, uma legislação ambiental moderna e segura”, sem detalhes.
Alcolumbre disse, em nota, que “a retomada das atividades da Amapá Minerals ocorre em conformidade com os requisitos legais e as autorizações dos órgãos competentes” e que “tem muito orgulho de ter contribuído para a construção do diálogo e do ambiente de segurança jurídica”.
Em 2025, uma barragem de rejeitos de uma estrutura de mineração industrial de cobre, ocupada por garimpeiros ilegais, rompeu e contaminou os rios Cupixi e Araguari, entre Pedra Branca do Amapari e Porto Grande. Na época, a gestão Clécio tentou minimizar o problema, mas análises de amostras da água apontaram a presença de mercúrio e cianeto (substância altamente tóxica e letal).
Fonte ==> Folha SP
