Gil do Vigor: Educação é o único investimento durável – 25/05/2026 – Educação

Homem de meia-idade com cabelo curto e barba aparada veste terno cinza escuro e camiseta preta, sorrindo enquanto segura a lapela do paletó. Ele está em um escritório moderno com janela grande ao fundo mostrando prédios altos e céu claro.

“A educação sempre vai ser a solução, sempre vai ser a saída e sempre vai ser a chave secreta, porque vai abrir todas as portas.”

É com essa convicção que Gilberto Nogueira, o Gil do Vigor, define o pilar central de sua trajetória. Conhecido por seu trabalho na televisão e nas redes sociais, o economista e ex-BBB nunca escondeu que sua paixão atende por outro nome: a educação. Prestes a receber, em junho, o título de PhD em economia pela Universidade da Califórnia em Davis, nos EUA, o pernambucano é um defensor do ensino no Brasil.

A relação com os livros começou cedo, em meio a uma difícil realidade. Segundo Gil, a percepção clara de que a escola seria o seu motor de mudança foi construída de forma gradual, impulsionada pelo exemplo de luta de sua mãe, Jacira.

“Ela falava: ‘olha, eu não consegui estudar mais do que eu gostaria, mas vocês têm a obrigação de fazerem isso’. Com o tempo e percebendo as graves questões de desigualdade, eu entendi que precisava estudar se quisesse mudar de vida, senão ia ficar muito difícil”, conta Gil.

A escolha pelo curso de economia foi pragmática e curiosa. Gil conta que fugiu da medicina por medo de sangue e descartou a engenharia por não saber desenhar. Acabou encontrando na ciência econômica a união perfeita entre a disciplina matemática e a história humana.

Apesar do sucesso alcançado na televisão —que encara como um aprendizado diário e um doutorado sob o comando de Ana Maria Braga— e nas redes sociais, Gil optou por não abandonar a vida acadêmica. Essa escolha reflete sua habilidade em transitar entre o mundo analítico da economia e a comunicação simples e popular que utiliza para se conectar com o público digital.

Em entrevista à Folha, Gil afirma que a atual geração corre um perigo ao buscar o imediatismo rápido das redes digitais e acabar subestimando a força de uma formação universitária.

Em que momento você percebeu que a educação seria o principal instrumento de transformação da sua realidade e da vida da sua família?

Não sei dizer o momento exato, mas sempre fui apaixonado pela educação. Quando era criança, houve uma cena bem específica: eu queria muito estudar e ficava pedindo para minha mãe, que dizia que eu precisava esperar a idade certa. Quando comecei a frequentar a escola, minha irmã pegou conjuntivite. Quando minha irmã pegou conjuntivite, ninguém em casa podia ir às aulas. Minha mãe sempre foi muito responsável. Eu comecei a chorar porque queria ir à aula, enquanto minha irmã estava feliz por faltar. Eu estava na alfabetização e já tinha dentro de mim aquele amor pelos estudos.

Fui crescendo e compreendendo que essa paixão era real. Além de eu gostar de ir à escola, eu passei a entender, aos poucos, que ali estava um mecanismo de transformação. Não consigo apontar uma única cena que tenha mudado minha forma de pensar, mas percebi, gradualmente, que a educação era a minha única saída, porque venho de uma família muito humilde e simples.

Você entrou no BBB, saiu com uma enorme projeção e, mesmo assim, não abandonou os estudos. Para o grande público, isso costuma ser inesperado. Por que você decidiu continuar investindo na carreira acadêmica?

Há um ponto essencial: o fato de ser economista, de vir de uma realidade muito simples e ter senso prático —algo que aprendi na minha casa. A televisão é uma carreira instável, e aprendo muito sobre isso com a Ana Maria [Braga], por quem sou apaixonado. A gente luta muito para conquistar algo e luta ainda mais para manter. Não é fácil. Sabemos que as coisas são muito sensíveis hoje em dia e você pode estar na mídia hoje e não estar amanhã.

Estou há cinco anos nessa trajetória, graças ao trabalho de uma equipe incrível que me ajuda muito. No começo foi difícil, eles estavam sempre puxando minha orelha para me ensinar, o que considero fundamental. Há todo um time por trás do Gil que faz acontecer. Obviamente, também há o meu esforço de entender e produzir meus conteúdos. É um grande conjunto, mas sabemos que, independentemente desse empenho, não existe garantia na televisão ou na mídia toda. Como sou uma pessoa muito avessa ao risco, prefiro sempre o certo.

E qual é o investimento mais seguro? O bem mais durável de um ser humano é o seu conhecimento. Por exemplo, me formei na graduação em 2016. O conhecimento que o Gil economista tinha há dez anos hoje está muito mais maduro, permitindo que eu o utilize de maneira mais eficiente. A educação é um investimento durável que, além de ter uma alta taxa de retorno, é o único bem que ninguém pode tirar de você. Vi uma frase uma vez que dizia: “Se me tirarem todo o dinheiro, as casas e todos os bens, e me deixarem nu na rua, eu reconstruo tudo com o meu conhecimento”.



Hoje em dia, um vídeo pode viralizar e gerar riqueza rápida nas redes sociais, mas o dinheiro nunca trará uma solidez comparável à do conhecimento

Uma parte das novas gerações cogita abandonar a faculdade para tentar a vida na internet como influenciador. Quais riscos você enxerga nessa decisão e como mostrar para esses jovens que a formação universitária não deve ser subestimada?

É importante ser muito franco nesse debate. Temos uma geração jovem e tudo é muito rápido. Isso é um perigo. O que vem fácil às vezes vai embora fácil também. A construção é muito importante. O retorno da educação é muito alto, mas exige uma construção. Pergunto: se eu plantar uma semente hoje, posso querer que a árvore dê frutos amanhã? Desculpa, meu amor, não vai acontecer. É preciso plantar. Se alguém disser “ah, mas eu plantei e não deu fruto”, talvez seja porque não regou. É preciso plantar, regar e cuidar para que o resultado venha no momento certo. Vejo a educação dessa forma.

No entanto, existe uma geração do imediato. As pessoas às vezes não têm paciência de assistir a um vídeo de quatro, cinco ou dez minutos para obter conhecimento, como se tirar dez minutos da vida fosse o maior absurdo do mundo. O conhecimento é rico, mas não caminha pelo imediatismo.

Isso vem também de um grupo que tenta desqualificar o saber com um discurso absurdo, dizendo: “o ensino superior não vale mais nada porque conheço alguém que se formou e hoje está em um emprego de renda baixa”. Usam essas exceções para classificar a faculdade como algo ruim ou ultrapassado. Mas a educação nunca será ultrapassada, porque conhecimento é poder e riqueza. A sociedade atual só foi construída graças ao conhecimento. Sem estudo e desenvolvimento, não teríamos televisão, celular ou a tecnologia. Tudo veio de pessoas que dedicaram a vida a isso.

Por outro lado, enfrentamos uma questão política: para alguns grupos, é melhor que a população não seja instruída, já que o conhecimento é libertador. Se você tem conhecimento, não é enganado facilmente — embora ninguém esteja totalmente imune à quantidade de golpes que atingem inclusive pessoas esclarecidas. Portanto, o investimento mais seguro para qualquer pessoa, jovem ou adulta, é o conhecimento, e dizer que o ensino superior não traz retorno é uma grande mentira. Agora, o saber precisa vir atrelado ao esforço e à busca ativa.

Eu não vou isentar o Estado de formular políticas públicas para absorver esses recém-formados. Há um questionamento justo e honesto de muitos jovens que me dizem: “Gil, pedem experiência, mas como vamos ter experiência se acabamos de nos formar?”. Essa exigência acaba sendo um filtro corporativo para controlar o excesso de demanda. Precisamos acolher essas pessoas e criar incentivos e meios, porque o mercado está aquecido e há oportunidades para quem é qualificado. Devemos valorizar mais a educação e parar de ouvir quem diz que não precisa estudar.

E é possível conciliar a rotina digital com a formação acadêmica?

Eu tive uma aula, que lembro até hoje, sobre os modelos de “renda do não trabalho” —que são os auxílios governamentais, como o Bolsa Família. O professor pontuava que, inicialmente, o foco é a produtividade, mas depois entendemos o efeito dessa renda: ela afeta a produtividade, mas reduz a desigualdade, o que é fundamental para o bem-estar social. Na sequência, veio a discussão sobre lazer e trabalho: quando você trabalha demais, reduz o lazer, o que acaba diminuindo a própria produtividade por afetar o bem-estar. O indivíduo precisa estar bem para que o bem-estar social aumente. Eu achava sensacional fazer aquelas contas e pensei: “Cara, dá para compartilhar isso”.

Quando você está estudando, o processo de criação de conteúdo fica mais orgânico, porque você aprende quase em tempo real e o aprendizado já vira o vídeo. Como há aulas diariamente, todo dia há um assunto novo. Além disso, quando você se organiza para criar um conteúdo, passa a ter o cuidado de absorver o conhecimento de maneira muito mais séria, o que ajuda inclusive na hora das provas. Quando você explica a matéria para um amigo, você não aprende mais?

Durante o meu PhD, eu criava conteúdo enquanto estudava. Postava fotos daquelas matemáticas muito loucas; o povo não entendia muito, mas eu gostava. Se você está assimilando conhecimento, consegue criar uma agenda de conteúdo muito rica.

Apesar de o país ter bons exemplos de sucesso na educação, eles são fragmentados e desiguais. Na sua opinião, o que falta para a educação brasileira ter sucesso como um todo?

Um dos capítulos da minha tese é isso: quais são as características da educação que mais atraem os jovens para que eles escolham estudar em vez de irem para o crime. Percebemos que, quando mostramos que o currículo aumenta as chances de um trabalho e de uma renda melhores, reduzimos a evasão e melhoramos a retenção do aluno na escola.

Além disso, o aprendizado tem que acontecer na prática, não adianta ficar só no papel. Todo mundo fala que tem educação financeira nas escolas, mas vamos ser sinceros: não tem. Se eu digo que vai ter um bolo na minha casa e você chega lá e não encontra nada, a frustração é grande. Quando você promete algo e não cumpre, o sistema perde a confiança desse jovem. Como vou dizer a ele que, ao terminar os estudos, ele terá um emprego melhor se tudo o que prometo eu descumpro? O caminho é seguir o planejamento à risca, incluindo educação financeira real e profissionalizando os professores para saberem ensinar sobre isso e motivar os estudantes.

Pensando na sua história, desde o estudante focado em exatas até a figura pública, qual recado você daria para o estudante que acompanha você nas redes sociais e quer seguir os seus passos?

Acreditem. Meu professor costumava dizer que todas as probabilidades jogavam contra mim, mas eu nunca deixei de acreditar. Infelizmente, as estatísticas ainda são desfavoráveis para muitos de nós devido às imensas desigualdades sociais e de oportunidades que enfrentamos. Mudar essa realidade não é fácil nem vai acontecer do dia para a noite, mas é plenamente possível. Se você sente que não se preparou o suficiente até aqui, comece hoje mesmo; não espere pelo amanhã. Se você for o primeiro da sua família a entrar na faculdade, vá e mude a história dos seus. E seus pais já têm essa trajetória acadêmica, use isso para construir o seu próprio caminho.

Hoje em dia, um vídeo pode viralizar e gerar riqueza rápida nas redes sociais, mas o dinheiro nunca trará uma solidez comparável à do conhecimento. Você não precisa abandonar nenhuma carreira diferente, mas a educação é o que estruturará a base necessária para saber lidar com a fama e com as finanças.

O maior investimento que se pode fazer na vida é o estudo; qualquer outro mercado carrega um risco muito maior.


Raio-X | Gilberto Nogueira, o Gil do Vigor, 34

Natural de Pernambuco, é formado em economia pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), onde também concluiu o mestrado. Iniciou o doutorado na mesma instituição e, posteriormente, foi aprovado para o PhD na Universidade da Califórnia em Davis, nos Estados Unidos. É economista, apresentador, influenciador e ex-participante do BBB 21. Em 2025, foi condecorado pelo governo federal com a Ordem Nacional do Mérito Educativo por sua contribuição à área da educação.



Fonte ==> Folha SP

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