A expansão da internet e das redes sociais criou um paradoxo na comunicação: nunca o público teve tamanho volume e variedade de informações à disposição. Ao mesmo tempo, há cada vez mais dificuldade de distinguir entre fato e ficção e, portanto, fazer uma leitura crítica dos acontecimentos.
No livro “Educação Midiática na Prática”, a autora Januária Cristina Alves discute, por meio de uma coletânea de textos publicados principalmente em sua coluna no Nexo Jornal, as maneiras de formar consumidores críticos de informação.
De acordo com ela, essa formação está relacionada, sobretudo, à capacidade de selecionar, contextualizar e avaliar criticamente as informações que se consome.
Januária é jornalista e educomunicadora, além de autora de livros infantis. No título que sai pelas Edições Sesc, ela articula diferentes temas: fake news, infância e juventude nas redes, inteligência artificial e literatura.
A autora argumenta que o excesso de informação nas plataformas reduz a capacidade do público de estabelecer prioridades e construir critérios sobre o que realmente importa. Em um ambiente em que “tudo parece urgente”, diz, há cada vez menos reflexão sobre cada acontecimento —o que abre espaço para explicações simplistas e discursos polarizados.
Tudo a Ler
Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias
Essa “infodemia” —oferta de volume excessivo de informações, verdadeiras ou não— também aprofunda a crise de confiança nas instituições, entre elas o jornalismo.
O livro aponta que, de acordo com o relatório Digital News Report 2025, apenas 42% das pessoas no Brasil afirmavam acreditar nas notícias —o número caiu para 36% segundo o mais recente levantamento da Universidade de Oxford e do Instituto Reuters, divulgado em junho.
A especialista afirma que o mundo está vivendo o tempo das “pós-verdades”: mais do que acreditar no que é falso, diz, duvida-se do que é de fato verídico em nome de verdades individuais. Essas crenças favorecem a formação de bolhas, reforçadas pelos algoritmos das plataformas, que tendem a recomendar conteúdos alinhados aos interesses e interações de cada usuário.
Ela chama atenção ainda para a desigualdade de acesso à informação no Brasil. “A gente tem quase toda a população brasileira com acesso à internet, mas que acesso é esse? Quando as operadoras dão acesso gratuito a WhatsApp e rede social, elas estão selecionando por onde as pessoas vão saber o que acontece no mundo.”
A educação midiática, defende, deve evidenciar a importância do método jornalístico. Entender como uma reportagem é produzida —da apuração à checagem e à edição— seria uma forma de reconstruir critérios de confiança no ambiente digital. “A prática do jornalismo sério, ético e responsável é parte fundante da educação midiática”, afirma.
A avaliação se apoia em sua própria trajetória. Por 13 anos, Januária integrou o programa Folha Educação, iniciativa do jornal voltada à formação de professores. Além de discutir os critérios que orientam a produção da notícia, o projeto ensinava os discentes a usar o jornal como material didático em sala de aula.
Hoje, o desafio é maior, já que muitas crianças têm acesso a uma quantidade praticamente infinita de informações, que chegam de forma cada vez mais automatizada. “Perdeu-se a capacidade de sustentar as dúvidas, porque a inteligência artificial oferece respostas a todas elas, mesmo que sejam inverídicas”, diz.
A publicação de “Educação Midiática na Prática” coincide com um momento de maior institucionalização do tema no Brasil. Embora apareça na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) desde 2018, só em 2026 a educação midiática passou a ser conteúdo obrigatório na educação básica, após resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) de março do ano passado.
Também em 2025 foi sancionada a Lei 15.100/2025, que restringe o uso de celulares e dispositivos eletrônicos por estudantes da educação básica.
Em vez de tratar os dispositivos como o problema, a educomunicadora defende que as escolas preparem os alunos para navegar com autonomia pela internet. “Por que não dão aula de como se proteger no ambiente digital, em vez de proibi-lo?”
A autora afirma que a participação no ambiente online e o acesso à informação são também direitos dos estudantes. A chave para uma boa relação com o ecossistema informacional, diz, é promover a autonomia em como fazer curadoria de conteúdo.
Januária diz que o problema não está na inteligência artificial em si, mas no quanto se delega a ela. “Não dá pra falar em educação midiática sem IA. Temos que usá-la como um instrumento que nos ajuda a pesquisar, a buscar outras fontes, ampliar o nosso repertório. Mas a demanda tem que partir do humano.”
Fonte ==> Folha SP
