Malu Gaspar: como Brasil se livrará do vício da corrupção – 03/10/2026 – Política

Malu Gaspar: como Brasil se livrará do vício da corrupção - 03/10/2026 - Política

Quando os brasileiros forem às urnas no domingo (4) para escolher o próximo presidente, o clima será de desalento e incerteza.

Um dos motivos são as opções disponíveis. Os dois favoritos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o atual presidente, e Flávio Bolsonaro (PL), senador de ultradireita e filho de um ex-presidente, representam os dois campos que dominaram todas as eleições desde 2018. Nenhum deles oferece algo novo, muito menos uma visão de futuro.

Mas há outro motivo para o desencanto. Mais uma vez, uma eleição brasileira ocorre em meio a um gigantesco escândalo de corrupção.

Há um ano, os brasileiros descobriram que o Banco Master, de propriedade de Daniel Vorcaro, era, na prática, um gigantesco esquema de pirâmide financeira. Ele drenou R$ 60 bilhões do sistema financeiro e se sustentava graças a uma ampla rede de favores, contratos duvidosos e propinas. Desde então, os tentáculos de Vorcaro, um banqueiro jovem com gosto por jatinhos particulares, festas suntuosas e acompanhantes europeias, alcançaram autoridades de todo o espectro político.

Uma delas é o próprio Flávio Bolsonaro, que admitiu ter recebido pelo menos R$ 61 milhões do banqueiro, supostamente para fazer um filme sobre seu pai, Jair. Não há indícios de que Lula tenha mantido relações impróprias com o dono do Banco Master, mas vários de seus aliados foram acusados disso, entre eles o líder de seu governo no Senado, um ex-ministro da Justiça e um ex-ministro da Fazenda.

Grandes escândalos não são novidade para os brasileiros. As últimas duas décadas produziram muitos deles. O mensalão, em 2005, envolveu pagamentos clandestinos feitos pelo Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, a aliados no Congresso em troca de seus votos.

Dez anos depois, a operação Lava Jato, uma investigação anticorrupção, revelou um esquema bilionário de propinas estruturado em torno de contratos que empreiteiras, sobretudo a Odebrecht, assinaram com a Petrobras, a gigante petrolífera controlada pelo Estado. O PT estava no centro do esquema, mas o dinheiro chegava a muitos outros partidos, e a operação se espalhou por uma dúzia de países.

Ainda assim, mesmo para os padrões de um país que acompanha escândalos como novelas, o caso Banco Master é extraordinário. O principal motivo é o envolvimento sem precedentes de ministros do Supremo Tribunal Federal.

O mais proeminente deles é Alexandre de Moraes, que conduziu o processo que resultou na condenação de Jair Bolsonaro e de outros réus por tentativa de golpe de Estado. A esposa de Moraes assinou um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master, embora não haja indícios de que algum serviço tenha sido prestado.

Ela também recebeu participação na propriedade de um avião e de um helicóptero, supostamente como pagamento. Ainda mais incriminador: o telefone do banqueiro continha 52 mensagens sugerindo que era o próprio Moraes quem atuava como advogado de Vorcaro —o que ele nega. Os dois aparentemente chegaram a discutir um plano de fuga para manter o banqueiro fora da prisão.

Há 30 anos cubro o poder no Brasil como jornalista. Acompanhei de perto todos esses casos e fui a primeira a chamar a atenção para os esquemas do Banco Master. Mesmo assim, fiquei impressionada com a convicção de Vorcaro de que poderia comprar qualquer pessoa e com a agressividade de suas tentativas.

Em abril de 2025, um de seus aliados me ofereceu um emprego que valia milhões, mas eu sabia que aquilo não passava de uma tentativa de me afastar do jornalismo e impedir a publicação das reportagens que o incomodavam.

Só um ano depois, quando ele já estava preso, soube que também havia mandado devassar minha vida e investigar meus filhos e meu companheiro. Para sua decepção, a busca não encontrou nada, nem sequer uma multa de trânsito.

O caso Master e sua chegada ao STF causaram danos enormes. Os brasileiros, já fartos de escândalos, estão perdendo a confiança em suas instituições. O caso expôs um mercado de tráfico de influência operado a partir de escritórios de advocacia comandados por parentes ou amigos de ministros. Também escancarou uma relação incestuosa entre juízes e advogados que sempre existiu, mas que foi tolerada e reforçada ao longo dos anos.

Durante a Presidência de Jair Bolsonaro, a sociedade brasileira relegou essa mistura de conflitos de interesses e corrupção a uma posição secundária em sua lista de preocupações, diante de prioridades mais urgentes.

A primeira era impedir que o negacionismo do presidente aprofundasse a tragédia da pandemia de covid-19 e fazer com que as vacinas chegassem ao maior número possível de pessoas. A segunda era resistir às articulações golpistas que pretendiam instaurar uma ditadura e manter Bolsonaro no poder.

Hoje, porém, muitos brasileiros se perguntam por que deveriam apoiar e respeitar um STF que usou o poder que a sociedade lhe confiou para se deixar cooptar por um estelionatário contumaz. A contaminação do tribunal é um sintoma evidente da fragilidade da democracia brasileira e uma das principais razões para o desalento e a revolta dos eleitores.

Isso não significa que não haja saída. Já começa a surgir um consenso de que o Brasil precisa de uma ampla reforma do Judiciário. Ela não deve apenas criar novas regras anticorrupção, mas também limitar o poder de juízes que hoje se comportam como se estivessem acima da lei. Deve ainda garantir a independência dos órgãos do Estado encarregados de combater a corrupção, enfraquecida cada vez que uma investigação alcançou alguém com poder e influência.

Igualmente urgente é uma reforma do Orçamento que impeça o Congresso de controlar mais gastos discricionários do que o próprio Executivo. Isso ajudaria, em alguma medida, a restaurar o sistema de freios e contrapesos do qual depende a saúde das instituições brasileiras.

São tarefas complexas, sobretudo porque exigirão grande desprendimento e espírito público de muitas pessoas que, até agora, pensaram apenas em si mesmas. Mas elas precisam entender que isso já não é uma questão de escolha, e sim de sua própria sobrevivência — e da sobrevivência da democracia brasileira.

Este texto foi publicado no site da revista The Economist.



Fonte ==> Folha SP

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