Milei não vai pedir desculpas ao Brasil, diz imprensa – 27/07/2026 – Política

Milei não vai pedir desculpas ao Brasil, diz imprensa - 27/07/2026 - Política

A participação de Javier Milei no evento de confirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência gerou, segundo a imprensa argentina, a “maior crise diplomática do último meio século entre a Argentina e o Brasil”.

Em um artigo de opinião publicado no jornal La Nación, o jornalista Claudio Jacquelin afirmou ainda que o governo Milei já deixou claro “que não haverá pedido de desculpas por parte” do embaixador argentino em Brasília e “muito menos” do presidente.

Em um discurso inflamado de quase meia hora no sábado (25) em São Paulo, Javier Milei chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “lixo careca” e criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e as suas políticas sociais.

Depois das declarações, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa” do governo brasileiro em relação aos comentários.

O Itamaraty também chamou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos sobre a relação entre os dois países.

“A opinião é unânime: dezenas de diplomatas, ex-funcionários e especialistas em relações internacionais, tanto da ativa quanto aposentados, de ambos os países, não têm dúvidas de que a maior crise diplomática do último meio século entre Argentina e Brasil acaba de ser desencadeada”, diz o artigo no La Nación.

“Dada a profundidade e a continuidade do conflito, fontes do Ministério das Relações Exteriores do Brasil esclareceram prontamente que nenhuma das medidas mais extremas está sendo considerada, embora o governo argentino já tenha deixado claro que não haverá pedido de desculpas do embaixador Raimondi, muito menos do presidente.”

Ainda segundo o artigo, Javier Milei tem cometido “danos autoinfligidos, a si mesmo e ao país” constantemente, sendo o conflito com o Brasil, o maior país do hemisfério sul e principal parceiro comercial da Argentina, o mais recente.

Em uma outra reportagem sobre o caso na imprensa argentina, o jornal Clarín falou em um “conflito diplomático” gerado por Milei.

Segundo o meio de comunicação, o governo brasileiro ainda estaria avaliando outras medidas de retaliação às falas do presidente argentino.

“Uma crise como esta, com insultos dirigidos a um chefe de Estado em seu próprio país, como os que Milei proferiu contra Lula no sábado no Brasil, é inédita na história democrática”, diz o Clarín.

“Essas tensões certamente afetarão a missão do embaixador Raimondi, um diplomata com longa carreira e perfil discreto. Ainda não foi tomada nenhuma decisão sobre como isso impactará sua missão. Tampouco afetará a missão do cônsul em São Paulo, Luis María Kreckler, que tem um relacionamento ruim com o governo do PT, mas também teve um relacionamento tenso com Jair Bolsonaro por ter sido membro do governo de Cristina Kirchner. Ele atuou como seu embaixador em Brasília”, continua a reportagem.

O Clarín ainda ouviu fontes da diplomacia brasileira que teriam classificado os atos de Milei em São Paulo como uma ofensa aos poderes Executivo e Judiciário e ao povo brasileiro, “algo inédito em décadas de relações bilaterais”.

“Nem mesmo durante os períodos de rivalidade entre os governos militares houve algo remotamente parecido”, teriam dito as fontes em Brasília ao jornal argentino.

O que aconteceu?

Javier Milei fez as declarações que causaram a crise diplomática durante a confirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, em um evento realizado em São Paulo no sábado.

Em um discurso inflamado de quase meia hora, o presidente argentino chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “lixo careca”, por ter negado pedido de visita a Jair Bolsonaro (PL), em prisão domiciliar.

Na última semana, a defesa do ex-presidente pediu autorização ao ministro, que é relator do caso, para o encontro com o argentino. Moraes negou a solicitação.

Após enaltecer suas políticas econômicas na Argentina, Milei também criticou o socialismo, o presidente Lula e as suas políticas sociais.

“Esse é o método que tem operado em toda a região: causar desequilíbrio econômico com o objetivo de ‘comprar’ votos para não perder o poder nas eleições seguintes”, afirmou.

Milei, que tenta se posicionar como o líder da direita na América Latina, associou a candidatura de Flávio a uma “transformação política em curso” na região. Segundo ele, países da América Latina estão se alinhando à direita e abandonando a esquerda, movimento ao qual o Brasil pode se juntar com a eventual eleição de Flávio.

Durante o discurso em espanhol, parte dos correligionários de Bolsonaro que ocupavam o auditório no estádio do Pacaembu deixou o local.

Além de participar do evento de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, Javier Milei também foi recebido pelo governador de São Paulo e pré-candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no Palácio dos Bandeirantes.

O presidente argentino recebeu a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo estado de São Paulo.

Em uma espécie de turnê pela América Latina, Milei seguirá, depois do Brasil, para a posse de Keiko Fujimori no Peru. Em seguida, irá para o Equador, onde deve realizar conversas com o presidente, também conservador, Daniel Noboa, segundo a Reuters.

Na sequência, o argentino visitará a Colômbia para a posse de Abelardo de la Espriella, um outsider da direita radical que acaba de vencer as eleições presidenciais no país.



Fonte ==> Folha SP

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