Nepalês sobrevive à enchente em túnel:Corri por 20 minutos – 02/09/2026 – Mundo

Nepalês sobrevive à enchente em túnel:Corri por 20 minutos - 02/09/2026 - Mundo

Trabalhadores de usinas hidrelétricas no Nepal relataram à BBC o momento catastrófico em que a água do rio Trishuli invadiu o túnel onde estavam durante as enchentes repentinas e mortais que atingiram a região no último dia 26.

Tudo começou com uma rajada de ar repentina e forte, conta Pemba Dundu Tamang, cuja equipe formada por cerca de 30 pessoas trabalhava na construção do revestimento de concreto do túnel.

A força do vento lançou placas de compensado pelos ares e deslocou máquinas pesadas. Do lado de fora, casas já haviam sido arrastadas pela água.

“Eu corri em direção à entrada do túnel”, conta Tamang. “A água vinha atrás de mim, e eu corria à frente dela.”

Tamang perdeu vários parentes que estavam em casa naquele momento. O número de mortos no Nepal já passa de 1.000 após as enchentes devastadoras da semana passada, e as autoridades afirmam que cerca de 4.000 pessoas estão desaparecidas.

Entre os desaparecidos —possivelmente centenas deles— estão trabalhadores como Tamang, que atuavam em uma extensa rede de túneis de usinas hidrelétricas ao longo do rio. Como parte de uma grande operação de resgate, engenheiros estão bombeando ar para o interior desses túneis.

“Estamos concentrados nas operações de busca e resgate nos túneis. O trabalho continua”, disse à agência de notícias AFP o porta-voz do Exército do Nepal, Raja Ram Basnet.

“Nossos soldados também foram mobilizados para recolher corpos e evitar a propagação de doenças.”

O Exército afirmou que 119 pessoas foram resgatadas na terça-feira.

Tamang conta que correu por cerca de 20 minutos para escapar da enxurrada, que avançava atrás dele enquanto subia o terreno. “Eu estava quase inconsciente de tanto choque. Não conseguia pensar com clareza.”

Seu colega Itha Ghale afirma que a forte rajada de ar quase os derrubou enquanto corriam.

Mais de 99% da eletricidade produzida no Nepal vem de usinas hidrelétricas.

Tamang e Ghale trabalhavam em um importante complexo de geração de energia, onde ajudavam na construção da usina hidrelétrica Trishuli-3B superior.

A usina, que tinha inauguração prevista para o ano que vem, foi projetada para reaproveitar a água de outra hidrelétrica localizada rio acima e gerar mais eletricidade para a rede nacional do Nepal.

Havia várias equipes trabalhando no local, e Tamang afirma que os trabalhadores que operavam a grande máquina usada no revestimento do túnel foram os últimos a sair.

Foi só pouco depois que ele se deu conta da dimensão da tragédia.

“Eu conseguia ver o lugar onde minha casa deveria estar. Não havia sobrado nada. Foi então que percebi que tudo tinha desaparecido.”

Seis parentes de Tamang —a mãe, o irmão mais velho, a cunhada e três filhos do casal— desapareceram, segundo ele. Os familiares dele estavam em casa, às margens do rio, quando as enchentes atingiram a região.

Apenas sua mulher, um filho e um sobrinho sobreviveram.

Sofrimento dos sobreviventes

“Eu sinto que a vida não tem mais sentido. Sobreviver é doloroso. Não sei onde vou comer nem para onde vou”, diz Tamang. “Os mortos estão em paz. Somos nós, que sobrevivemos, que sofremos.”

Ghale, que perdeu oito familiares, diz não saber por que sobreviveu. “Talvez não fosse meu destino morrer.”

Entre os oito parentes mortos estão sua mãe e a filha mais velha. Três filhos e sua mulher sobreviveram.

Tamang teme o que pode acontecer daqui para a frente, principalmente se esses projetos hidrelétricos forem interrompidos. “Se as coisas continuarem assim, vamos passar fome. Às vezes, acho que teria sido melhor não ter sobrevivido.”

Ele conseguiu se abrigar com algumas outras pessoas no vilarejo de Shanti Bazar, onde permaneceu por dois dias até ser resgatado pelo Exército.

Tamang calcula que entre 50 e 60 trabalhadores conseguiram escapar do túnel junto com ele.

Segundo Tamang, mais pessoas poderiam ter sido salvas se houvesse recursos adequados no local.

A avaliação é reforçada por um novo relatório, segundo o qual havia sinais de instabilidade crescente na região da geleira nos dias que antecederam o desastre —e sistemas de alerta mais eficientes poderiam ter salvado vidas.

Imagens de satélite indicam que a superfície da geleira estava se deslocando mais rapidamente, a água do degelo estava ficando marrom e uma rachadura se formava na rocha ao redor, segundo especialistas da Asian Mountain Academic Alliance, do Stimson Center e do Instituto de Riscos de Montanha e Meio Ambiente da China.

Todos esses fenômenos podem indicar que a encosta estava se tornando instável.

Segundo cientistas, a avalanche avançou rápido demais para que sistemas convencionais de alerta pudessem ajudar as pessoas que estavam mais próximas.

Mais abaixo no curso do rio, onde a enchente levou dez minutos ou mais para chegar, um sistema abrangente de alerta poderia ter salvado um número significativo de vidas, afirmam os especialistas.

Enquanto isso, especialistas da China, da Índia e do Nepal continuam usando escavadeiras e máquinas pesadas para abrir caminho entre os destroços nas usinas hidrelétricas e tentar chegar aos trabalhadores que permanecem presos em vários desses locais.

“Provavelmente ainda há sobreviventes lá dentro. Ficaria feliz se eles fossem resgatados rapidamente”, diz Tamang.

“Conheço muitas pessoas que ainda estão presas lá.”



Fonte ==> Folha SP

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