Rogério era, por vocação e ofício, um comerciante do setor de fármacos. Gestor, não apenas de números e produtos, mas da vida. Ele gostava das coisas certas, dos fatos verificáveis, das planilhas onde cada célula obedece a uma lógica implacável. Sua existência era um edifício de hábitos: café às 7h, ler o jornal às 7h15, metrô às 8h. Acreditava que a solidez da vida estava na previsibilidade.
Até que o anoitecer de uma terça-feira comum trouxe consigo um silêncio diferente. Rogério desligou a televisão que transmitia um documentário sobre Muhammad Ali e, olhando para as estantes alinhadas, sentiu um vazio. Não um vazio dramático, mas uma pergunta que surgiu: “E se tudo for apenas uma coleção de acasos disfarçada de ordem?”
Era a ‘Dúvida’. Ela não chegou com estrondo, mas instalou-se como uma névoa fina, corroendo suas certezas. Começou pelo trivial: “Será que o azul do mar de Mar Grande que eu vejo é o mesmo azul que os outros veem?” Passou para o pessoal: “minhas memórias são reais ou só histórias que eu mesmo me contei?” E enfim, atingiu o núcleo: “E se nada disso – o amor, o propósito, a verdade – for real? E se for tudo uma ilusão confortável?”
Da varanda de frente para o mar na sua casa na Praia do Duro, o abismo havia se aberto aos pés do comerciante.
Ele tornou-se um explorador do vazio. Tentou preencher a fissura com livros de autoajuda, com horas extras na farmácia, com conversas furadas no bar. Nada adiantava. A dúvida era como um ácido que dissolvia qualquer resposta fácil. Rogério sentia o piso ceder sob seus pés. Sua vida, outrora um prédio sólido, agora era uma estrutura sobre um buraco negro.
Uma noite, exausto, Rogério sentou-se à mesa da cozinha, a planilha da vida aberta e em branco. A névoa da dúvida era tão espessa que ele já não conseguia ver nada além dela. E então, no fundo absoluto do poço, uma centelha.
“Estou duvidando de tudo”, pensou ele, com um cansaço que era quase alívio. “Duvido do mundo, dos outros, de mim mesmo. Mas para que essa dúvida exista… alguém tem que estar duvidando.”
Não era um raciocínio grandioso. Era simples, nu e cru. Um fato. A dúvida era um ato. E todo ato requer um ator. Se havia dúvida, havia um duvidador. Se havia pensamento, havia um pensador. Ele, Rogério, naquela mesa de cozinha, era esse pensador.
A dúvida, que parecia um abismo, revelava-se o alicerce.
Não era um alicerce de granito ou de certezas absolutas sobre o mundo. Era um alicerce mínimo, frágil até, mas indestrutível: a existência da sua própria consciência. A partir daquele pequeno ponto fixo – “eu sou, porque penso” – o mundo não parecia mais uma ilusão hostil, mas uma construção da qual ele, Rogério, era coautor.
Ele não preencheu o abismo. Aprendeu a construir sobre ele. Suas certezas não voltaram a ser as mesmas, dogmáticas e ingênuas. Tornaram-se escolhas. Escolheu acreditar no afeto dos amigos, na beleza de um pôr do sol, no sabor do café das 7h. Não porque eram verdades absolutas, mas porque faziam sentido para aquele que pensa, para aquele que existe.
Rogério olhou da varanda. Ao fundo, a cidade de Salvador era a mesma. Mas ele não. Ele era o comerciante que havia encontrado, no vazio das suas perguntas, a única conta que realmente se fecha: a de que, no ato mesmo de questionar, já está contida a resposta mais fundamental de todas.
Fonte ==> Bahia Notícias
