O Bêbado, a Equilibrista e a Lua que Bamboleia no Sertão

O Bêbado, a Equilibrista e a Lua que Bamboleia no Sertão

Num terreiro qualquer do Nordeste, entre o cheiro de cachaça derramada e o pó das estradas que grudam no pé, dois personagens dançam um forró metafísico. De um lado, o bêbado – filósofo de boteco, doutor em desequilíbrios. Do outro, a equilibrista – artista da corda bamba, poeta do impossível. E no meio, a lua, aquela mesma que João Gilberto cantava, agora ‘se achegando’ pro terreiro pra iluminar o dilema mais cabra da peste: como caminhar sobre abismos sem virar fantasma?

O bêbado é a memória que teima em não desmaiar. Ele tropeça nas pedras do passado, mas cada queda é um verso. Quando canta “minha alma canta / vejo o Rio de Janeiro”, não fala da cidade cartão-postal, mas do rio mesmo – seco no verão, transbordando saudade no inverno. É o Nordeste que carrega mar a dentro, o sujeito que bebe pra afogar o exílio e descobre que a sede é maior que o oceano.

Já a equilibrista é o Brasil na corda-flor. Ela dança sobre o arame da história, com varinha de condão (que nada mais é que um toco de juazeiro disfarçado). Enquanto os políticos faziam “o diabo” lá em Brasília, ela teimava em fazer milagres – como plantar mandacaru no asfalto ou acreditar em justiça num país de coronéis. Sua arte? Equilibrar esperança e cinismo sem cair pro lado do desespero.

Eis a filosofia do sertão em canção: a vida é um ato de fé em terra movediça. O bêbado sabe que a realidade é dura, mas insiste em amaciá-la com álcool e poesia. A equilibrista conhece o precipício, mas escolhe dançar sobre ele – porque sabe que o chão também é ilusão. Ambos são filhos da mesma lua, aquela que no Nordeste não é romântica, é farol de pobre achar caminho no escuro.

“No céu da boca / tinha a lua” – eis o verso mais nordestino da canção. Porque aqui, a lua não é coisa de poeta francês, é osso duro de roer quando a fome aperta, é prato de esmola pro céu. A mesma lua que ilumina os amantes também testemunha os “pés que não tinham sapato” – e é sobre esse chão descalço que a canção constrói sua epopeia.

No final, quando Elis Regina grita “Meu Brasil!”, ela podia muito bem estar falando de um Brasil-cabra, um Brasil-raposa, um Brasil que é menino de enxada num pé e doutor sem diploma no outro. A música é um rosário de contradições: chora o país que foi, celebra o que poderia ser e, no meio do pranto e do riso, ensina a mais nordestina das filosofias: cair é inevitável, levantar é poesia.

E assim seguimos – bêbados de utopia, equilibristas da sobrevivência – todos nós cambaleando sob a mesma lua que, no sertão, não é de mel, é de sal. Porque como dizia o velho cancioneiro: “O sol é quente, a noite é fria / e a vida, meu Deus, é uma corda bamba só”.



Fonte ==> Bahia Notícias

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