Esta crônica é uma homenagem ao amigo Dorinho, homem de bom caráter e rico em sentimentos. Ele saiu do sertão, mas o sertão não saiu dele.
Muita gente pensa que migrar é uma questão de necessidade econômica e distância. Faz-se uma mala, compra-se uma passagem, geralmente de ônibus, atravessam-se estradas, rios e cidades. Pronto, mudou-se de lugar. Mas isso é apenas o corpo viajando. A alma costuma ser mais teimosa.
Conheci um desses homens que chegaram à cidade trazendo o interior inteiro dentro do peito. Chamava-se Isidório, o Dorinho. Não carregava enxada, nem chapéu de couro, nem montava cavalo. Vestia-se como qualquer cidadão urbano, pegava ônibus, enfrentava filas e pagava suas contas. Mas bastava observá-lo um pouco para perceber que havia alguma coisa nele que não pertencia ao asfalto.
A cidade parecia lhe servir como uma roupa do irmão mais velho: vestia, mas não assentava direito.
Enquanto os outros sonhavam com condomínios fechados e camas macias, Dorinho desconfiava do excesso de conforto. Dizia que colchão bom era aquele que não afundava a coluna nem as certezas. Na mesa, procurava sabores que lembrassem a infância: um torresmo estalando, um feijão bem temperado, uma farinha torradinha, o agridoce do umbú (imbú, como ele dizia).
Falava pouco. Não por ignorância, mas porque aprendera cedo em Sobradinho, sua cidade natal, que o silêncio também é uma forma de conversa. No sertão, as pessoas sabem escutar o vento, o canto dos pássaros e o aviso de chuva das nuvens. Quem aprende a ouvir essas coisas não sente necessidade de opinar sobre tudo.
Na cidade, porém, seu silêncio era confundido com timidez. Sua simplicidade, com falta de ambição. Sua prudência, com desinteresse.
Ele caminhava pelas ruas lotadas como uma rês desgarrada procurando um pasto que já não existia. Ao redor, multidões apressadas seguiam seus próprios destinos sem olhar para os lados. Pareciam saber exatamente para onde iam, embora muitas vezes estivessem tão perdidas quanto ele.
E talvez estivesse aí a diferença. O homem do sertão sabia que estava deslocado. Os outros pareciam não perceber.
Porque o sertanejo aprende cedo que ninguém domina completamente o caminho. Quem viveu esperando a chuva sabe que existem coisas maiores que a própria vontade. Aprende a respeitar o tempo, a seca, a espera e o acaso.
Por isso ele andava devagar. Não porque fosse lento, mas porque compreendia que a vida não é uma corrida de cem metros. É uma longa travessia sob o sol inclemente.
Quando alguém lhe perguntava de onde vinha, respondia apenas:
– Sou lá do sertão. Sobradinho era uma consequência, não uma finalidade.
E dizia isso com a mesma dignidade de quem apresenta um título de nobreza. Porque era.
Trazia nos modos simples, na fala econômica e no olhar desconfiado uma riqueza que a cidade raramente reconhece: a capacidade de permanecer inteiro. Saiu do sertão, é verdade.
Mas teve a sabedoria de não deixar que o sertão saísse dele.
Dorinho partiu para o céu, vítima de câncer na garganta, mas seu exemplo ficou impregnado nos amigos.
Fonte ==> Bahia Notícias
