Assisti ontem à noite na Netflix um filme que continha uma frase dessas que entram pelos ouvidos e se recusam a sair da memória, fato que, do alto dos meus 72 anos, é um prodígio:
“Pais são destinados a decepcionar os filhos e filhos aos pais”.
Passei a noite “dialogando” com a dita frase.
De início, achei uma injustiça. Meu pai, por exemplo, trabalhou a vida inteira para que os filhos sonhassem mais alto do que ele pôde sonhar. E olha que ele sonhava muito alto, para além do tempo das “auroras puras”.
Não me parece justo resumir aquele homem a um “decepcionador” oficial.
Depois pensei nos filhos. Também não me agrada a ideia de que nascemos com a missão de frustrar quem nos colocou no mundo.
Mas, quanto mais a madrugada avançava, mais a frase parecia ganhar algum sentido.
A primeira decepção talvez aconteça quando o filho descobre que o pai não sabe tudo. Na infância, pai é uma espécie de super-herói sem capa. Mata baratas, troca resistências de chuveiro, conserta torneiras, conhece todos os caminhos da cidade e parece conversar em segredo com Deus. Até que um dia erra. Erra feio. E o menino percebe, com espanto, que o gigante também tropeça.
É um choque.
Depois chega a vez do pai.
Durante anos ele imagina que criou um filho, ou uma filha, claro, que seguirá determinados caminhos, defenderá certas ideias, escolherá uma profissão, torcerá pelo mesmo time, ouvirá as mesmas músicas, repetirá as mesmas histórias.
Então o filho cresce.
E cresce justamente para provar que não nasceu para ser continuação de ninguém.
Também é um choque.
Talvez seja disso que a frase do filme esteja falando.
A decepção não nasce da maldade. Nasce do encontro inevitável entre a pessoa real e a pessoa imaginada.
Os pais sonham um filho que nunca existiu ou existiu mas evoluiu.
Os filhos inventam um pai que nunca poderia existir.
Quando finalmente os dois se encontram como realmente são, sobra um pouco de frustração… e, se houver sorte, muito amor.
Com o tempo descobrimos que os melhores pais não são os que nunca decepcionam. São os que permanecem por perto depois da decepção.
E os melhores filhos também.
Porque amar alguém é, entre outras coisas, aceitar que ele jamais caberá exatamente na fotografia que tiramos dele.
Meu pai já me decepcionou algumas vezes.
Tenho absoluta certeza de que fiz o mesmo com ele.
Nem por isso deixou de ser meu pai.
Nem por isso deixei de ser seu filho.
Hoje penso que a verdadeira tragédia não é decepcionar.
É desistir depois da decepção.
A vida, essa professora que distribui lições, ensina que o amor amadurece justamente quando abandona a ilusão da perfeição. Enquanto esperamos pais impecáveis ou filhos irrepreensíveis, convivemos apenas com fantasmas. Quando aceitamos pessoas de carne, osso, virtudes e fraquezas, finalmente começamos a construir uma família.
Talvez aquela frase do filme não seja uma sentença. Talvez seja apenas um aviso.
Pais decepcionam. Filhos também.
O amor é que decide se isso será um ponto final ou apenas uma vírgula. talvez até um ponto e virgula…
Fonte ==> Bahia Notícias
