Ao longo da costa da África Ocidental, um pescador a bordo de um atuneiro chinês corta as barbatanas de um tubarão vivo antes de atirá-lo de volta ao mar, onde o espécime provavelmente acabará morrendo.
Valiosas, as barbatanas têm como destino o porto de Dacar, no Senegal. Dali, devem ser enviadas à Ásia, para serem servidas em sopas.
A prática de cortar as barbatanas e atirar o resto do tubarão, muitas vezes vivo, ao mar, é amplamente proibida em várias áreas regulamentadas em diversos países. Isso está estabelecido em convenções internacionais.
No entanto, nos últimos anos, dezenas de barcos atuneiros chineses e taiwaneses têm desembarcado barbatanas de tubarão ilegalmente em Dacar. Ali funciona um dos portos de pesca mais movimentados da África.
O quadro consta de um relatório publicado na última quinta-feira (16) pela ONG Environmental Justice Foundation (EJF), com sede em Londres.
O corte das barbatanas contribui para o declínio das populações de tubarões. Além disso, o ato é frequentemente acompanhado de outras formas de pesca ilegal.
O estudo da EJF concentrou-se em embarcações chinesas e taiwanesas de pesca de atum com palangre autorizadas a operar em alto-mar no Atlântico, duas das maiores frotas desse tipo.
Os pesquisadores entrevistaram 124 pescadores indonésios e filipinos que trabalharam nessas embarcações entre 2020 e 2025.
Das 130 embarcações das duas frotas autorizadas pelos órgãos reguladores da pesca de atum, 71 atracaram em Dacar nesse período. De acordo com os depoimentos, 41 embarcações faziam o corte das barbatanas e 24 delas as desembarcaram em Dacar.
O número é provavelmente maior, segundo Callum Nolan, chefe de pesquisa oceanográfica da EJF, uma vez que os dados incluem apenas menções explícitas durante as entrevistas.
O Senegal é membro da Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT), que regulamenta a pesca do atum e de espécies semelhantes no Atlântico.
A entidade proíbe a manutenção de certas espécies de tubarão a bordo. Ela também especifica que o peso total das barbatanas não deve exceder 5% do peso total dos tubarões nas embarcações. A regra visa impedir a prática de cortar as barbatanas.
A AFP conversou com Jamaludin, 29, citado no relatório da EJF. Indonésio, ele vive em uma vila na ilha de Java. O pescador trabalhou a bordo de um atuneiro de bandeira chinesa entre 2018 e 2020, que, segundo ele, carregava mais barbatanas do que carcaças inteiras de tubarão.
Segundo ele, a tripulação desmembrava tubarões diariamente no mar. Depois, descarregava as barbatanas discretamente. Se a polícia aparecesse, o processo era suspenso.
Outros pescadores citados no relatório da EJF relataram que as barbatanas eram descarregadas dos barcos à noite.
A preferência pelo período noturno, quando há menos pessoas no porto, foi confirmada à AFP por Cheikh Ndiaye, inspetor da Direção de Proteção e Fiscalização da Pesca do Senegal. “A melhor solução para esses barcos que pescam em águas internacionais é ter o maior número possível de observadores internacionais.”
Risco de extinção
Os tubarões são predadores de topo que regulam o mar e são “fundamentais para a integridade ecológica do oceano”, de acordo com o diretor da EJF, Steve Trent.
A população global desses animais, assim como a de seus parentes próximos, as raias, diminuiu drasticamente devido à pesca industrial. Alguns especialistas apontam para uma queda acentuada de 71% dessas populações desde 1970, segundo um estudo publicado na revista Nature.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) estima que 70% dos tubarões que vivem em mar aberto estão ameaçados de extinção. O número de indivíduos capturados a cada ano varia de 80 milhões a 101 milhões, estimou um relatório de 2024 publicado na revista Science.
Os atuneiros utilizam anzóis que podem se estender por quilômetros, capturando muito além de atum.
Em março, ao longo da costa da África Ocidental, observadores do Greenpeace testemunharam um barco de pesca de atum capturar oito tubarões em 12 horas e outro, 32 tubarões em 11 horas.
A ONG também registrou um barco de bandeira espanhola descartando no mar as partes de tubarões sem barbatanas.
Leis díspares e as dificuldades em aplicá-las em diferentes áreas tornam impossível controlar a pesca de tubarões, na avaliação de Iris Ziegler, chefe de políticas de pesca e defesa dos oceanos da ONG alemã DSM.
Ela defende uma política global que promova a manutenção das barbatanas para combater a “prática de pesca cruel e desnecessária”.
A ideia, apoiada pela EJF, seria exigir que as barbatanas permanecessem presas ao corpo do tubarão durante o desembarque, o que facilitaria a inspeção das capturas e reduziria as mortes.
“Se perdermos os tubarões, perdemos os oceanos”, disse Ziegler.
Fonte ==> Folha SP
