Em um quadro de expansão do crime organizado na amazônia, a Polícia Federal está implantando três novas delegacias em municípios no interior do Amazonas e do Pará com o objetivo de impedir o crescimento das facções e combater a prática de delitos ambientais.
Apurações da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e de especialistas em segurança pública indicam que o principal grupo com atuação na região amazônica é o Comando Vermelho (CV), que realiza negócios com narcotraficantes da Colômbia.
As localidades escolhidas para receberem a estrutura e o efetivo de delegacias da PF são Tefé (AM), Humaitá (AM) e Itaituba (PA).
Segundo o delegado Renato Madsen Arruda, coordenador-geral de Proteção da Amazônia, Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico e Cultural da PF, a unidade em instalação em Tefé (distante cerca de 520 km de Manaus por via aérea) é a que mais deverá ter trabalho no combate ao crime organizado, principalmente na repressão ao tráfico de drogas.
Tefé fica à margem do rio Solimões, uma das principais rotas do comércio ilegal de entorpecentes na região, segundo Arruda.
Relatório da Abin e da Direção Nacional de Inteligência da Colômbia (DNI) divulgado no fim do ano passado aponta a localidade também como um local estratégico para a mineração ilegal de ouro.
Segundo o documento, Tefé e o município vizinho de Coari são usados como centros logísticos de abastecimento, principalmente para o transporte de combustíveis, e servem como entrepostos para o envio de grandes volumes de insumos para os principais pontos de garimpo ilícito.
No município também ocorre a comercialização de parte do ouro extraído em lavras da região da fronteira com a Colômbia. A venda ocorre de maneira direta, sem qualquer tipo de registro formal, de acordo com o levantamento.
A Abin e a DNI relatam que outra parcela da produção de ouro é encaminhada para centros de “esquentamento” como Itaituba, onde o ouro ilegal é inserido na cadeia formal por meio da emissão de notas fiscais irregulares ou fraudadas.
De acordo com as agências de inteligência brasileira e colombiana, há indícios de que o município seja o ponto de partida para o transporte aéreo a outros estados e países, utilizando pistas de pouso legais, clandestinas ou aeródromos não autorizados em localidades do entorno.
Situada a aproximadamente 1.300 km de Belém, Itaituba está recebendo uma das novas delegacias da PF por ser um dos principais centros de extração e comércio de ouro do Brasil, diz o delegado Arruda.
O município é conhecido como “cidade pepita” e por ele passam a BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA), e a rodovia Transamazônica (BR-230), que conecta o litoral do Nordeste com o sul do Amazonas.
A terceira localidade a ganhar uma delegacia, Humaitá, fica próxima ao ponto final da Transamazônica, que termina na cidade vizinha de Lábrea, e também é cruzada pela BR-319, que liga as capitais do Amazonas e de Rondônia.
“Humaitá é um arco de grande relevância e interesse estratégico, com muitas unidades de conservação, terras indígenas, áreas protegidas federais e o rio Madeira, que tem muita extração de ouro”, afirma o delegado.
Para Melina Risso, diretora de Pesquisa do Instituto Igarapé, ONG especializada em segurança pública, a relevância da instalação das novas unidades da PF na amazônia vai além das ações de repressão ao crime organizado e aos delitos ambientais.
Segundo a pesquisadora, “a operação policial, para situação de crise e de emergência, é importante para interromper o fato, mas ela não desestrutura a organização criminosa”.
“A chegada das delegacias é muito importante porque reforça a capacidade de fazer o esclarecimento desses crimes em todas as suas dimensões, com um inquérito policial que consiga levar a um processo de condenação, porque eles são crimes que tendem a ser mais complexos”, diz.
De acordo com Risso, a elucidação dessa complexidade é essencial para a aplicação de penalidades correspondentes à gravidade dos delitos.
“Se a gente olhar só a pena do crime ambiental, ela é muito pequena. O conjunto de crimes associados para fazer com que a estrutura gere lucro é fundamental no crime ambiental. E é na composição das penas desses diferentes crimes que você consegue gerar uma condenação com um tamanho de pena grande”, explica.
Como exemplos concretos de delitos associados a um crime ambiental, a especialista cita a falsificação de documentos e o suborno de fiscais em meio à prática de extração ilegal de madeira.
Sobre esse tema de crimes interligados, o delegado da PF destaca a ocorrência na amazônia de um fenômeno conhecido como convergência criminal, pelo qual duas criminalidades que aparentemente não tem correlação se aproximam porque juntas conseguem benefícios de lucratividade.
Arruda menciona situações como o uso de aviões por traficantes de drogas e garimpeiros ilegais na região da floresta. “Percebemos ali um compartilhamento de meios logísticos para crimes distintos”, afirma.
A PF já está adquirindo equipamentos e veículos para as novas unidades e o quadro de pessoal delas deverá ser preenchido com integrantes das turmas que se formarão nos próximos meses na academia da instituição, de acordo com o delegado.
Fonte ==> Folha SP
