PrEP injetável no SUS: quem deve receber primeiras doses – 16/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

Mão com luva branca segura seringa com líquido amarelo enquanto aplica vacina no braço de pessoa com pele escura. Fundo azul desfocado.

Pessoas em situação de maior vulnerabilidade ao HIV e que não estejam utilizando a profilaxia pré-exposição (PrEP) —medicamento que reduz o risco de infecção pelo HIV quando usado antes de uma possível exposição ao vírus— por dificuldades sociais ou de acesso aos serviços de saúde devem estar entre as primeiras a receber a versão injetável pelo Sistema Único de Saúde (SUS), caso o cabotegravir seja incorporado à rede pública.

A estratégia consta em documentos da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e do Ministério da Saúde, mas os critérios definitivos de prioridade ainda não foram estabelecidos. Ainda não há, porém, prazo de quando as doses injetáveis estarão disponíveis no SUS.

O cabotegravir de longa duração, aplicado a cada dois meses após as doses iniciais, recebeu recomendação preliminar favorável da Conitec no início de agosto. A perspectiva do Ministério não é substituir imediatamente a PrEP oral, já oferecida pelo SUS, mas ampliar as opções de prevenção.

Segundo o relatório técnico preliminar da Conitec, a oferta inicial seria direcionada a pessoas em situação de vulnerabilidade que, por razões sociais ou dificuldades de acesso aos serviços, não estejam utilizando a profilaxia em comprimidos.

“A ideia não seria que todos os usuários de PrEP passassem a usar PrEP injetável”, afirma Júlia Paranhos, professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora que participou de uma análise sobre os custos de implementação da tecnologia no país.

Para o infectologista Moacyr Silva Junior, do Einstein Hospital Israelita, a possibilidade de escolha entre o oral e o injetável é justamente uma das vantagens. Uma pessoa capaz de manter bem o uso dos comprimidos pode continuar com a PrEP oral. Para outras, a aplicação periódica pode ser mais adequada. A decisão também depende do contexto social, da rotina e da disponibilidade dos serviços.

Como funciona a PrEP injetável?

O cabotegravir é um antirretroviral que bloqueia uma etapa necessária para a replicação do HIV, reduzindo o risco de estabelecimento da infecção após uma exposição ao vírus. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o medicamento como PrEP para adultos e adolescentes acima de 12 anos, com pelo menos 35 kg e risco aumentado de adquirir a infecção.

A indicação aprovada pela Anvisa é ampla, mas o pedido apresentado pela GSK à Conitec previa inicialmente homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero de 15 a 30 anos, com pelo menos 35 kg. Durante a avaliação, a Conitec ampliou a população considerada para pessoas sexualmente ativas, a partir de 15 anos, em contextos de maior vulnerabilidade ao HIV.

Os critérios definitivos de elegibilidade e prioridade ainda não foram definidos e dependerão da conclusão do processo de incorporação e das regras de implementação. A apresentação avaliada para o SUS contém 600 mg do medicamento em 3 mL.

O esquema começa com uma aplicação intramuscular e uma segunda dose um mês depois. A partir daí,

as aplicações de manutenção são feitas a cada dois meses. A bula aprovada pela Anvisa prevê ainda a possibilidade de uma fase oral antes das injeções, mas ela é opcional.

Antes de iniciar a profilaxia, é necessário confirmar que a pessoa não vive com HIV e manter a testagem periódica durante o tratamento. O acompanhamento é especialmente importante porque o cabotegravir pode permanecer no organismo por um ano ou mais após a última aplicação. Segundo a bula, atrasos ou interrupções podem aumentar o risco de infecção. A orientação é realizar a testagem para o HIV a cada dois ou três meses e manter as consultas programadas.

A injeção é mais eficaz que a PrEP oral?

Nos ensaios clínicos, o cabotegravir de longa duração apresentou desempenho superior ao da PrEP oral diária usada como comparador. No HPTN 083, a redução relativa do risco foi de 66%; no HPTN 084, de 89%. Uma metanálise considerada pela Conitec apontou redução relativa global de aproximadamente 79%.

O relatório relaciona parte dessa vantagem à menor dependência da adesão diária. Enquanto o comprimido precisa ser tomado de acordo com o esquema indicado para manter a proteção, a aplicação de longa duração elimina a necessidade de lembrar do medicamento todos os dias. Isso, porém, não elimina o desafio da adesão. “A gente sempre vai ter problema com a adesão”, afirma o infectologista do Einstein. No caso da formulação injetável, a exigência muda: em vez de lembrar de tomar comprimidos,

é preciso retornar periodicamente ao serviço de saúde para receber a aplicação.

Segundo o médico, a novidade amplia os métodos de prevenção, em vez de simplesmente substituir o

que já existe. “Na verdade, há um aumento do leque de possibilidades”, diz.

A diferença pode ser importante para pessoas que têm dificuldade em manter comprimidos em casa, enfrentam estigma associado à PrEP ou têm uma rotina que dificulta o uso diário. Por outro lado, a aplicação exige que o usuário consiga retornar ao serviço no período indicado, o que pode ser um obstáculo para populações socialmente vulneráveis, especialmente onde a infraestrutura é limitada.


Para pessoas em situação de rua, a continuidade das aplicações traz desafios específicos. Flávio Lino, secretário-executivo do Movimento Nacional da População em Situação de Rua do Rio de Janeiro (MNPR-RJ), defende que o acesso às doses seguintes não dependa de telefone, endereço fixo, comprovante de residência ou do retorno à mesma unidade.

“A pergunta que o SUS precisa fazer não é: ‘Essa pessoa consegue voltar aqui daqui a dois meses?’. É: ‘Como o SUS vai garantir que essa pessoa seja encontrada e continue seu cuidado daqui a dois meses?’”, conclui.



Fonte ==> Folha SP

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