Protocolo de regulação emocional viraliza nas redes ao propor 10 minutos por dia para “destravar”

Thaiza

Conteúdos sobre regulação emocional levaram a especialista baiana a saltar de cerca de 1,7 mil para mais de 70 mil seguidores em apenas 30 dias e colocam em evidência uma discussão que também vem ganhando espaço nas pesquisas: por que tantas pessoas sabem exatamente o que precisam fazer, mas simplesmente não conseguem começar?

Durante anos, procrastinação foi quase sinônimo de preguiça, desorganização ou falta de disciplina. Mas uma mudança começa a ganhar força tanto nas pesquisas sobre comportamento quanto nas redes sociais: em muitos casos, o problema pode estar menos na falta de informação sobre o que fazer e mais na dificuldade de lidar com o desconforto emocional associado à ação.

Foi justamente essa discussão que fez o perfil da especialista em regulação emocional Thaiza Vitória crescer de aproximadamente 1,7 mil para mais de 70 mil seguidores em cerca de 30 dias.

Os conteúdos que mais chamaram atenção partem de situações extremamente comuns: pessoas que têm uma tarefa importante para executar, sabem como fazê-la e, ainda assim, adiam. Profissionais que querem aparecer nas redes, mas travam diante da câmera. Pessoas que acumulam cursos, métodos, agendas e listas de tarefas, mas continuam sem conseguir avançar.

“A pergunta que comecei a fazer foi muito simples: e se essa pessoa não estiver precisando de mais cobrança? E se ela já souber exatamente o que precisa fazer, mas estiver emocionalmente incapaz de sustentar aquela ação naquele momento?”, explica Thaiza.

Quando “eu sei o que fazer” não significa “eu consigo fazer”

A discussão encontra eco em pesquisas recentes.

Um estudo publicado em 2025 na revista Personality and Individual Differences encontrou uma relação recíproca entre dificuldades de regulação emocional e procrastinação acadêmica ao longo do tempo. Outra pesquisa, publicada na Brain and Cognition, também identificou associação entre maior capacidade de regulação emocional e menor procrastinação.

Na prática, isso ajuda a explicar uma experiência conhecida por milhões de pessoas: saber racionalmente que uma tarefa é importante não necessariamente elimina o medo, a ansiedade, a insegurança, a culpa ou o desconforto envolvidos em executá-la.

Foi a partir dessa percepção que Thaiza estruturou o Protocolo Alívio Imediato, uma sequência de sete dias de práticas breves de regulação emocional.

A proposta é simples: dedicar aproximadamente 10 a 15 minutos por dia a práticas corporais e de autorregulação antes de tentar vencer determinadas travas apenas pela força de vontade.

O protocolo reúne exercícios de respiração, atenção ao corpo, pontos de toque nas mãos e comandos direcionados a estados como medo, raiva, culpa, tristeza e procrastinação.

Não se trata de substituir acompanhamento médico ou psicológico quando necessário. A proposta é oferecer recursos práticos de autorregulação para situações cotidianas de sobrecarga e bloqueio.

“As pessoas não querem mais uma aula. Querem conseguir agir”

Segundo Thaiza, a resposta nas redes mostrou algo que ela não esperava encontrar em tamanha escala.

“Começaram a chegar milhares de pessoas dizendo praticamente a mesma coisa: ‘eu sei o que tenho que fazer, mas não consigo’. É gente competente, inteligente, que já fez terapia, curso, planejamento, comprou agenda, tentou método de produtividade. O problema é que continua tentando resolver somente pela cabeça algo que também está acontecendo no corpo e na resposta emocional”, afirma.

Os relatos compartilhados após as práticas ajudaram a impulsionar ainda mais os conteúdos.

Em aproximadamente 4 semanas, o perfil saiu de cerca de 1,7 mil seguidores para a casa dos 70 mil, transformando a regulação emocional em um dos principais assuntos da página.

Para Thaiza, o crescimento revela uma demanda reprimida.

“Durante muito tempo ensinamos as pessoas a produzir, performar, organizar agenda e estabelecer metas. Mas quase ninguém ensinou o que fazer nos cinco minutos em que o medo aparece, o peito aperta, a mente começa a criar justificativas e você abandona aquilo que tinha decidido fazer.”

Uma mudança na conversa sobre produtividade

A relação entre emoção e procrastinação não é apenas uma percepção das redes sociais.

Pesquisadores vêm investigando a procrastinação como uma estratégia de curto prazo para evitar emoções desagradáveis associadas a determinadas tarefas.

Em um estudo experimental com universitários, pesquisadores avaliaram um treinamento de regulação emocional durante nove semanas. O grupo que desenvolveu essas habilidades apresentou redução posterior da procrastinação em comparação ao grupo que não recebeu a intervenção.

Isso não significa que toda procrastinação tenha origem emocional, nem que exista uma única técnica capaz de resolver o problema. Mas ajuda a deslocar uma pergunta importante.

Em vez de apenas:

“Por que você não faz o que precisa fazer?”

a questão passa a ser:

“O que acontece dentro de você quando chega a hora de fazer?”

É justamente nessa diferença que Thaiza acredita estar a razão da identificação de milhares de novos seguidores.

“Tem gente tentando construir uma vida inteira na base da cobrança. Quer produzir mais, ganhar mais dinheiro, aparecer mais, vender mais, cuidar da família, crescer profissionalmente. Só que está tentando exigir performance de um corpo permanentemente pressionado. Em algum momento, esse sistema começa a frear.”

Dez minutos antes de desistir

A lógica do protocolo criado por Thaiza é justamente interferir nesse intervalo entre sentir o desconforto e abandonar a ação.

Durante sete dias, o participante recebe uma prática específica e aprende recursos que depois podem ser repetidos de maneira independente.

O objetivo não é criar uma rotina longa de autocuidado, mas oferecer ferramentas suficientemente curtas para caberem na vida real.

“Eu não quero que a pessoa precise de uma hora livre, de silêncio absoluto ou de um cenário perfeito para conseguir se regular. Quero que ela tenha recursos para usar justamente quando a vida está acontecendo”, diz.

Talvez seja justamente essa simplicidade que esteja despertando tanta curiosidade.

Em uma internet saturada de métodos para produzir mais, acordar mais cedo, controlar hábitos e aumentar a disciplina, uma proposta aparentemente inversa começa a conquistar espaço:

antes de perguntar como produzir mais, entender o que está impedindo o corpo e a mente de avançar.

E os milhares de novos seguidores que chegaram ao perfil de Thaiza Vitória nas últimas semanas sugerem que essa pergunta encontrou um público que estava esperando para ouvi-la.

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