Professores denunciam assédio em colégio de MT – 30/07/2026 – Educação

Vista aérea mostra igreja branca com torre alta no centro de área urbana. Ao redor, prédios residenciais e comerciais, ruas movimentadas e céu parcialmente nublado.

Professores do Colégio Salesiano São Gonçalo, em Cuiabá (MT), acusam o diretor-geral, padre Marcelo Fujimura, o vice-diretor, padre Danilo de Araújo Guedes, e a coordenadora pedagógica do ensino médio, Michela Falcão, de práticas de intolerância religiosa, assédio moral e desrespeito à diversidade.

As denúncias foram levadas ao Sintrae-MT (Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino do Estado de Mato Grosso), que reuniu os relatos em uma carta formal contra os três, divulgada em 14 de julho no site da Contee (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino).

O documento diz que a gestão teria adotado uma postura de “autoritarismo”, “hostilidade” e “perseguição” contra professores e funcionários administrativos. Em nota à Folha, os três disseram que não reconhecem tais posturas e comportamentos, e que as acusações não correspondem à realidade da instituição.

Os padres Fujimura e Danilo disseram reconhecer que as mudanças recentes geram “tensões legítimas”, que buscam “enfrentar pela escuta, não pela imposição”. Michela afirmou que permanece “tranquila” quanto à lisura de seu trabalho.

A instituição afirma respeitar a liberdade de manifestação e o papel das entidades sindicais, mas nega que a gestão seja orientada por práticas de assédio moral, autoritarismo ou perseguição.

A instituição também afirma que respeita a legislação trabalhista e a jornada de trabalho e que está disposta a apurar qualquer fato concreto e individualizado que seja formalmente relatado, com garantia de sigilo e vedação a represálias.

O colégio diz repudiar qualquer forma de assédio ou prática contrária à dignidade da pessoa humana.

Segundo Fujimura, a instituição tomou conhecimento da carta de modo indireto, por meio de grupos de WhatsApp e pelo site da Contee. Logo após, manifestou-se publicamente por meio de nota.

Após a divulgação do documento, o MPT (Ministério Público do Trabalho) instaurou um procedimento para apurar denúncias de assédio moral.

A investigação também apura possível descumprimento de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado entre a instituição de ensino e o órgão em 2008) que prevê, dentre outras obrigações, a de não praticar atos de assédio moral.

O Colégio Salesiano São Gonçalo disse que colabora integralmente com a apuração.

Uma ex-funcionária que trabalhou por mais de uma década no colégio e pediu para não ser identificada afirma que a exigência de ser católico praticante para uma vaga de orientador educacional chamou a atenção de funcionários e ex-funcionários.

Segundo ela, a instituição teria passado a reforçar a identidade religiosa como critério para a função após a chegada de Fujimura, em janeiro.

A Folha teve acesso ao anúncio em questão, publicado no perfil do colégio no Instagram em 8 de janeiro.

Entre os requisitos para o cargo, a instituição listou graduação em pedagogia, especialização em orientação educacional, experiência em ambiente escolar, conhecimento das leis educacionais e “ser católico praticante”.

Na imagem há um selo com os dizeres “educação católica de excelência”.

Para o advogado criminalista André Fini Terçarolli, sócio da Advocacia Pimentel, a exigência pode caracterizar discriminação religiosa. “Em uma empresa privada sem finalidade religiosa, a exigência de que o candidato seja católico praticante como requisito para contratação é, em princípio, ilícita”, afirma.

Conforme reforçou Terçarolli, a Constituição assegura a liberdade de crença e o princípio da igualdade, enquanto a legislação trabalhista veda práticas discriminatórias no acesso ao emprego. Ele afirma que a religião integra a esfera da liberdade individual e não pode servir como critério de seleção de candidatos.

Sobre o anúncio da vaga, o diretor-geral, padre Fujimura, afirmou que a expressão foi resultado de um erro no briefing encaminhado à agência de marketing e já foi retirada dos anúncios posteriores.

Segundo ele a contratação não é condicionada à religião do candidato, mas ao alinhamento com os valores do projeto pedagógico, e a vaga foi preenchida com base no currículo profissional.

A carta do sindicato cita ainda casos de intolerância religiosa e desrespeito à diversidade, mas não entra em detalhes. A reportagem apurou com uma ex-funcionária que um exemplo ocorreu quando estudantes evangélicos tentaram organizar na escola um momento de oração com violão e Bíblia.

A iniciativa, segundo ela, foi interrompida após a direção afirmar que a instituição era católica e que manifestações de outras religiões não deveriam ocorrer no espaço escolar.

Para Eliana Carulla, professora de história que trabalhou por 24 anos no colégio e saiu no fim de 2025, o ambiente de trabalho se deteriorou à medida que a escola passou a responsabilizar os professores por problemas que, segundo ela, envolvem também alunos, famílias e a própria gestão.

Ela afirma que os docentes passaram a ser submetidos a uma pressão crescente e a perder autoridade dentro da sala de aula. “Você coloca toda a responsabilidade no professor, assim você tem um bode expiatório perfeito”, afirma.

As situações descritas também aparecem na carta encaminhada pelo Sintrae-MT à direção do colégio.

No documento, o sindicato acusa a gestão de impor aos professores um volume excessivo de demandas administrativas, inclusive fora da jornada de trabalho, e afirma que o vice-diretor, padre Danilo, e a coordenadora pedagógica, Michela, entravam em salas de aula sem aviso prévio para repreender docentes diante dos alunos.

A entidade também cita a elaboração de relatórios considerados subjetivos sobre o desempenho dos professores, conversas com estudantes para obter avaliações negativas sobre docentes e advertências feitas na presença das turmas.

O vice-diretor, padre Danilo, confirmou que realiza observações em sala de aula, mas afirmou que elas fazem parte do acompanhamento pedagógico, têm caráter formativo e não buscam constranger professores. Ele reconheceu, no entanto, que a comunicação prévia dessas visitas pode ser aprimorada.

“Não fui procurado em nenhum momento por nenhum professor, e se assim o fosse, estaria aberto para reavaliar a minha abordagem”, disse.

Já Michela negou que as observações de aula, os registros sobre o trabalho docente e as conversas com estudantes tenham finalidade fiscalizatória ou punitiva. Segundo ela, essas práticas têm caráter pedagógico e de apoio aos professores e aos alunos.

Falcão disse que está aberta a estabelecer uma comunicação prévia com os docentes antes de acompanhar as aulas.





Fonte ==> Folha SP

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