Quando a experiência deixa de ser uma vantagem

Oberdan Siqueira

O que acontece quando aquilo que aprendemos durante décadas começa a nos impedir de compreender o futuro?

Durante muito tempo, a experiência foi um dos principais diferenciais de um profissional.

Quem havia enfrentado crises, administrado equipes, negociado contratos e construído empresas possuía algo que os mais jovens ainda não tinham: repertório.

E repertório continua sendo importante.

O problema é que estamos vivendo um período em que o conhecimento acumulado pode perder parte de sua utilidade antes mesmo de o profissional encerrar sua carreira.

Talvez nunca tenha sido tão importante distinguir experiência de capacidade de adaptação.

Um executivo que começou a trabalhar nos anos 1990 provavelmente atravessou diferentes transformações. Viu a chegada dos computadores pessoais, a popularização da internet, o surgimento do comércio eletrônico, a expansão das redes sociais e, agora, a inteligência artificial.

Em cada uma dessas mudanças, houve profissionais que enxergaram oportunidades e outros que encontraram razões para defender aquilo que já conheciam.

Curiosamente, ambos possuíam experiência.

A diferença estava na maneira como a utilizavam.

Os primeiros tratavam o passado como referência.

Os segundos, como regra.

Essa distinção parece pequena, mas pode determinar o futuro de uma carreira ou de uma organização.

O perigo de ter dado certo

Existe uma armadilha silenciosa no sucesso profissional.

Quando uma pessoa toma determinadas decisões e alcança bons resultados, naturalmente passa a confiar nos critérios que utilizou.

Se construiu uma empresa centralizando decisões, pode concluir que centralização é uma virtude.

Se cresceu trabalhando doze horas por dia, pode acreditar que essa é a única maneira legítima de construir uma carreira.

Se liderou equipes por meio de estruturas rígidas, pode interpretar qualquer tentativa de flexibilização como perda de autoridade.

O problema não está necessariamente nessas experiências.

Elas podem ter sido adequadas ao contexto em que aconteceram.

O erro começa quando transformamos uma solução circunstancial em princípio permanente.

Aquilo que funcionou em determinada época não se torna uma verdade universal simplesmente porque produziu resultados.

É aqui que a experiência começa a perder valor.

Não quando envelhece, mas quando deixa de ser questionada.

Cada geração aprende a trabalhar em um mundo diferente

A Geração X ingressou no mercado em um ambiente no qual o acesso à informação era mais restrito, as estruturas organizacionais eram relativamente hierarquizadas e o desenvolvimento profissional frequentemente dependia de longos períodos dentro de uma mesma organização.

Os Millennials encontraram a expansão da internet, a globalização e novas possibilidades de carreira.

A Geração Z chegou a um mercado no qual a informação está disponível permanentemente, as relações profissionais são mais fluidas e a tecnologia altera rapidamente a maneira de executar tarefas.

Nenhuma dessas gerações possui, por definição, superioridade sobre as demais.

Cada uma desenvolveu competências e expectativas a partir do ambiente que encontrou.

O conflito começa quando profissionais de diferentes gerações confundem os instrumentos que aprenderam a utilizar com os princípios que deveriam orientar o trabalho.

Um jovem pode conhecer ferramentas digitais que seu gestor desconhece.

Isso não significa que compreenda melhor estratégia, negociação ou responsabilidade.

Da mesma forma, um executivo experiente pode dominar profundamente determinado mercado e, ainda assim, não perceber que algumas das premissas sobre as quais construiu sua carreira estão deixando de existir.

Os dois possuem algo a ensinar.

E os dois possuem algo a aprender.

O desafio das organizações será construir ambientes nos quais essas competências se complementem, em vez de competirem por legitimidade.

A inteligência artificial está acelerando esse conflito

Durante décadas, a experiência profissional esteve associada à capacidade de executar tarefas que exigiam conhecimento acumulado.

Elaborar relatórios, interpretar informações, produzir apresentações, organizar processos e desenvolver análises eram atividades que diferenciavam profissionais mais preparados.

A inteligência artificial está modificando parte dessa relação.

Tarefas que anteriormente exigiam horas de trabalho podem ser realizadas em minutos, ainda que continuem dependendo de supervisão, julgamento e responsabilidade humana.

Isso não torna a experiência desnecessária.

Pelo contrário.

Pode torná-la ainda mais importante, desde que seja utilizada para formular perguntas melhores, interpretar resultados e tomar decisões.

Mas também expõe uma fragilidade.

O profissional cuja principal vantagem estava em saber executar determinada tarefa precisará encontrar novas formas de produzir valor quando essa execução puder ser automatizada.

Talvez a pergunta mais importante deixe de ser quanto conhecimento uma pessoa acumulou.

E passe a ser o que ela consegue fazer com aquilo que sabe diante de problemas que nunca enfrentou.

O novo profissional não precisa escolher entre tradição e inovação

Existe uma tendência de tratar mudanças tecnológicas como disputas entre gerações.

Os mais jovens seriam naturalmente inovadores.

Os mais velhos seriam resistentes.

Essa interpretação é confortável, mas superficial.

Conheço profissionais experientes que continuam estudando, experimentando e reconstruindo suas próprias convicções.

Também existem jovens que, apesar de dominarem novas tecnologias, demonstram pouca disposição para aprender aquilo que exige disciplina, repetição e amadurecimento.

A idade, isoladamente, explica muito pouco.

O que realmente importa é a relação que cada pessoa estabelece com o próprio conhecimento.

Há profissionais que utilizam a experiência para compreender melhor o mundo.

Outros a utilizam para justificar por que o mundo deveria continuar funcionando como antes.

E talvez essa seja uma das grandes diferenças entre envelhecer profissionalmente e amadurecer intelectualmente.

Amadurecer exige preservar princípios sem permanecer preso aos instrumentos utilizados para aplicá-los.

Responsabilidade continua sendo responsabilidade.

Compromisso continua sendo compromisso.

Competência continua sendo competência.

Mas as formas de trabalhar, aprender, liderar e produzir valor continuarão mudando.

O que precisaremos abandonar?

Quando observo as transformações no mercado de trabalho, tenho a impressão de que estamos discutindo excessivamente quais profissões desaparecerão e pouco sobre quais comportamentos profissionais precisarão desaparecer.

Talvez a inteligência artificial não elimine determinadas carreiras, mas torne insustentável a postura de quem acredita que aprender deixou de ser necessário.

Talvez a próxima geração não precise trabalhar menos ou mais do que as anteriores.

Precise trabalhar de maneira diferente.

Talvez a experiência continue sendo um dos ativos mais importantes de um profissional.

Mas somente enquanto ele estiver disposto a reconhecer que parte daquilo que aprendeu já não responde às perguntas do presente.

Isso vale para executivos, empresários, líderes e profissionais em qualquer estágio da carreira.

O passado pode nos oferecer repertório, prudência e capacidade de julgamento.

Mas não pode decidir sozinho como devemos enfrentar o futuro.

Afinal, existe uma diferença importante entre possuir trinta anos de experiência e repetir durante trinta anos a experiência adquirida no primeiro.

Talvez a verdadeira maturidade profissional comece quando deixamos de utilizar aquilo que sabemos como argumento para não aprender aquilo que ainda desconhecemos.

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