Quando o voto vira motivo de punição

Ronan Mairesse

Demissões motivadas por escolhas políticas e suspensão de doações após as eleições levantam debates sobre intolerância, responsabilidade social e os limites da polarização política.

Tenho visto pessoas defendendo que empresários demitam funcionários que votaram em Lula. Também acompanhei notícias sobre empresas e grupos que anunciaram a suspensão de doações de alimentos, roupas e brinquedos após a eleição. Essas situações me preocupam, principalmente quando penso no trabalhador que pode perder o emprego e nas famílias que podem ficar sem uma ajuda com a qual estavam contando.

Cada caso de demissão precisa ser apurado com cuidado. Um relato publicado na internet, por si só, não é suficiente para confirmar o ocorrido. Ainda assim, manifestações públicas defendendo esse tipo de atitude e anúncios de suspensão de doações associados ao resultado eleitoral merecem atenção. Para mim, essas situações já são motivo para refletirmos sobre os efeitos da disputa política nas relações sociais.

Entendo a indignação de empresários e lideranças. Quem administra uma empresa sabe o peso de pagar salários, fechar as contas e manter os empregos. Também tenho críticas ao governo Lula. Na minha visão, falta cuidado com quem empreende e gera empregos, enquanto a gestão do dinheiro público tem sido marcada por uma irresponsabilidade que prejudica o país. Compreendo a revolta de quem enfrenta essas dificuldades e vê outras pessoas defendendo a continuidade desse governo.

Também senti falta, nos dois candidatos, de propostas que deixassem claro como pretendiam resolver os problemas do Brasil. Tivemos que escolher entre as opções disponíveis, e venceu justamente quem, a meu ver, vem administrando mal o país. É compreensível a frustração de quem esperava uma mudança e agora teme enfrentar mais dificuldades.

Essa indignação, porém, precisa ser direcionada a quem governa e toma as decisões. Um funcionário pode votar de maneira diferente do patrão e, ainda assim, continuar fazendo um bom trabalho, cumprindo o que foi combinado e tratando bem clientes e colegas. Tudo isso continua tendo valor depois da eleição. Colocar sobre ele a responsabilidade por tudo o que se teme de um governo é uma cobrança que considero injusta. O trabalhador fez sua escolha, assim como o empresário fez a dele.

Quando o assunto são as doações, minha preocupação aumenta ao pensar nas pessoas que podem ficar sem ajuda. Cada um sabe quanto pode doar, e há projetos sociais que precisam interromper suas atividades porque falta dinheiro ou porque os voluntários estão sobrecarregados. O que me chama a atenção nesses casos é a associação entre a suspensão da ajuda e o resultado eleitoral, acompanhada da ideia de que as pessoas devem procurar o candidato em quem votaram.

Penso nas crianças que seriam atendidas por uma campanha de Natal e que sequer participaram dessa escolha. Em uma mesma família, pode haver pessoas que votaram em candidatos diferentes, pessoas que não votaram e outras que continuam precisando de ajuda. Se uma campanha deixa de acontecer, a necessidade permanece. A comida ainda precisa chegar à mesa, e a criança que esperava ganhar um brinquedo pode acabar pagando por uma disputa que nem sequer compreende.

Para mim, é justamente essa divisão que interessa a quem alimenta continuamente os conflitos entre nós. Enquanto empregados e patrões passam a se enxergar como inimigos e famílias são julgadas pelo voto, a cobrança sobre os políticos perde espaço. Acabamos descontando uns nos outros a revolta com problemas que deveriam ser enfrentados por quem governa. Divididos dessa maneira, fica mais difícil cobrar, em conjunto, as melhorias de que todos precisamos.

Meu receio é que comecemos a olhar para uma pessoa e enxergar apenas o candidato em quem ela votou, deixando de lado tudo o que sabemos sobre ela. Seu trabalho, sua história e a maneira como sempre tratou os outros passam a valer menos do que sua preferência política. Isso vale para qualquer lado. Eu teria a mesma preocupação se alguém defendesse a demissão de um eleitor de direita ou a retirada de ajuda de uma família por apoiar outro candidato.

Quem está à frente de uma empresa, de uma equipe ou de um projeto social precisa considerar o peso das próprias palavras. Uma publicação feita no calor da raiva pode ser interpretada como uma orientação por quem acompanha aquela liderança. Um funcionário pode começar a esconder o que pensa por medo de perder o emprego. Uma família pode sentir vergonha de pedir ajuda, acreditando que primeiro precisará explicar em quem votou.

Faço esse alerta porque me preocupa ver pessoas tratando a diferença de opinião como motivo para punir os outros. Antes de apoiar ou compartilhar uma mensagem desse tipo, vale lembrar quem pode pagar essa conta: um profissional que sempre fez seu trabalho, uma família que precisava de alimentos ou uma criança que seria atendida por uma campanha de Natal.

Quero continuar podendo criticar um governo e cobrar mudanças sem perder o respeito pelas pessoas que fizeram escolhas diferentes das minhas. A democracia pressupõe a convivência entre opiniões distintas. O voto pode separar nossas preferências políticas, mas não deveria apagar o respeito, a responsabilidade e a solidariedade que precisamos preservar nas relações humanas.

Ronan Mairesse

Conheça mais sobre o trabalho de Ronan Mairesse em seu site oficial.

Palestrante, autor e mentor de comportamento humano aplicado à performance em liderança e vendas.

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