Quem era garoto quando viu o primeiro “Toy Story” tem boas chances de já estar calvo, como o próprio caubói Woody, que ressurge nos cinemas com o cocuruto desgastado. Afinal, anos se passaram desde o primeiro filme, que revolucionou a animação em 1995, e os tempos são outros. O quinto longa da franquia chega aos cinemas sem poder ignorar o avanço frenético da tecnologia, e é protagonizado por Jessie, a outra vaqueira da turma, já que Woody agora se dedica a resgatar brinquedos perdidos.
Ela e os personagens que viraram ícones da cultura pop nesse tempo —como o astronauta Buzz Lightyear, o Senhor e a Senhora Cabeça de Batata ou Rex, o dinossauro medroso— temem ser substituídos por uma tela. É que Bonnie, a criança deles, é a única no quarteirão que ainda brinca de faz de conta, enquanto os outros pequenos passam as tardes vidrados em celulares e tablets.
Tímida, desajeitada e apegada aos seus bonecos, Bonnie é motivo de chacota e tem dificuldade de fazer amigos. Para mitigar seu isolamento, os pais dão a ela uma Lilypad. O tablet conecta as crianças, que conversam por chat e jogam juntas simultaneamente, mas deixa Bonnie ainda mais deslocada.
Atenta ao drama da pequena, Jessie põe de lado o medo de ser abandonada para ajudá-la. Nesse caminho, conhece três brinquedos eletrônicos —o Amigo Rolinho, que ensinava crianças a usarem a privada, Clica, uma câmera digital infantil dos anos 2000, e Atlas, um GPS em formato de hipopótamo. Usados por poucos meses e escanteados, eles refletem uma cultura de consumo pautada pelo descarte.
“É a primeira vez que os brinquedos estão mais preocupados com a sua criança do que com eles próprios”, diz Lindsay Collins, vice-presidente de desenvolvimento da Pixar e produtora de “Toy Story 5”. “A sensação é que há muito em jogo para a infância hoje”, afirma ela, que tem acompanhado de perto os gostos da criançada desde que entrou no estúdio americano de animação, em 1997. Lá, trabalhou em filmes como “Vida de Inseto”, “Toy Story 2”, “Nemo”, “Ratatouille” e “Wall-E”, vencedor do Oscar.
O enredo é, de fato, sintomático de nossos tempos. Pesquisas do Pew Research Center e da Organização Mundial da Saúde, a OMS, e livros como “A Geração Ansiosa”, do psicólogo Jonathan Haidt, mostram que as redes sociais têm um impacto negativo sobre a saúde mental de jovens, que sentem mais solidão, apesar de hiperconectados. Nesse cenário, o uso crescente e prolongado de telas por crianças e adolescentes vem alarmando especialistas da infância.
“A tela rouba a capacidade do ambiente de poder dar o estímulo necessário”, diz Cristiano Nabuco, psicólogo e reitor da Artmed School of Psychology. Contar histórias ou brincar de faz de conta, por exemplo, são atividades que estimulam a imaginação, enquanto vídeos minam a capacidade de desenvolver a própria criatividade.
O mesmo acontece com as habilidades sociais, segundo o especialista. “A consciência do outro se desenvolve à medida em que me relaciono cara a cara, na interação presente”. Não por acaso, em “Toy Story 5”, Bonnie perde o interesse em brincar conforme se hipnotiza pela Lilypad, como um zumbi. Ela joga o dia inteiro com supostas amigas, mas não sente conexão emocional alguma com elas.
Hoje, a OMS recomenda que crianças até dois anos não sejam expostas a telas. Aquelas de dois a cinco anos devem ter apenas uma hora diária de tela. Até os dez anos, o limite de tempo deve ser de duas horas. Em todos os casos, o ideal é que um adulto esteja presente, jogando junto, para desenvolver uma consciência crítica em relação ao aparelho e seus conteúdos.
Andy, a primeira criança de Woody e sua turma, não precisava dividir a atenção entre tablets, redes sociais ou plataformas de streaming. Quando “Toy Story” chegou aos cinemas, a internet ainda engatinhava, e os brinquedos físicos reinavam no quarto das crianças, em uma disputa menos ferrenha com a televisão e os primeiros videogames. Mas hoje a competição com a tecnologia é impossível, lamenta o próprio Woody, coadjuvante neste quinto capítulo, porque ela serve para tudo ao mesmo tempo.
“Quando eu estava crescendo, era muito mais simples. Eles [os brinquedos] estão sentindo essa nostalgia em tempo real de como eram os filmes anteriores”, diz McKenna Harris, codiretora de “Toy Story 5” ao lado do veterano Andrew Stanton. “À medida que cada ‘Toy Story’ foi lançado pela Pixar, acompanharam o crescimento e as mudanças dentro da empresa, além de refletir as mudanças do mundo.”
Curiosamente, o filme que apresentou o xerife de pano há 30 anos foi revolucionário por ser o primeiro longa de animação 3D por computador. Ali começou uma nova era tecnológica para as narrativas infantis, encabeçada pela Pixar, que evoluiu de estúdio independente para um lucrativo braço da Disney —que, agora, tem em “Toy Story” uma de suas franquias mais rentáveis.
Os brinquedos conseguiram se reinventar e, nos últimos filmes, enfrentaram o medo da substituição, a passagem do tempo, a despedida da infância e a busca por um novo propósito. “Eles observam o mundo, mas nunca envelhecem. É por isso que ‘Toy Story’ funciona para tantas gerações. As pessoas crescem com esses personagens e se identificam com eles em diferentes momentos da vida”, diz Collins.
Dos anos 1990 pra cá, a computação gráfica, ou o CGI, dominou a animação comercial e substituiu os desenhos bidimensionais nos grandes estúdios —a tal ponto que, hoje, produções com visuais mais autorais ou com técnicas artesanais são os favoritos da crítica, como foi o caso de “Homem-Aranha: No Aranhaverso”, “O Gato de Botas 2” ou “O Menino e a Garça”.
“Toy Story 5” entra na tendência. Ao mesmo tempo em que a fotografia do filme impressiona pelo grau de realismo, as cenas em que Bonnie inventa histórias para seus bonecos parecem feitas com tinta e giz de cera. “Chegamos ao ponto em que, tecnologicamente, podemos fazer o filme parecer tão real quanto quisermos”, afirma Collins. Ao contrário do que foi no início da franquia, então, é nessas sequências, diz ela, que os artistas do estúdio podem ousar mais visualmente —nesse caso, para transmitir certa efemeridade típica das lembranças infantis.
Apesar de ser em tons pastéis, o mundo fantasia de Bonnie tem traição, espionagem, briga e assassinato, e passa longe dos contos de fada cor de rosa geralmente associados à imaginação de uma garotinha. O filme acena, ainda que de forma sutil, a detalhes da infância de meninas, na esteira do longa “Barbie” e de livros como “Girlhood: No Corpo de Uma Mulher”, de Melissa Febos, premiado pelo National Book Critics Circle.
Jessie, em sua jornada para ajudar Bonnie, passa por emoções comuns a mulheres no ambiente familiar e de trabalho —se culpa por tudo, teme não ser um brinquedo bom o suficiente e tende a priorizar os outros antes de si mesma. São dramas de um mundo real do qual, pelo visto, nem “Toy Story” tem mais como escapar.
Colaborou Guilherme Luis
Fonte ==> Folha SP
