O problema de terminar um casamento é que ninguém explica o que fazer com o patrimônio.
Não estou falando de apartamento, carro, ações ou dinheiro. Estou falando das coisas realmente importantes: quem fica com o abridor de garrafas, o querido e indispensável saca rolhas, quem leva a toalha de mesa e, sobretudo, quem fica com aquela panela de barro para moqueca, comprada em Porto Seguro, que só funciona se for colocada exatamente no fogo do meio.
João e Marta estavam se separando.
Depois de vinte e dois anos de casamento, chegaram à conclusão de que tinham se tornado excelentes ex-marido e ex-mulher. O problema é que ainda eram marido e mulher.
Resolveram, então, dividir os bens.
– A televisão fica comigo – disse Marta.
– Por quê?
– Porque fui eu que escolhi.
– Mas fui eu que paguei.
– Então fica com você.
– Não. Pode ficar.
Foi assim que começou a partilha.
A televisão ficou com Marta.
João ficou com o sofá.
Não porque quisesse o sofá. Porque Marta não queria o sofá.
Descobriram que o amor pode acabar, mas o sofá continua criando problemas.
Depois vieram os livros.
– Os romances são meus.
– Tudo bem.
– Os de poesia também.
– Tudo bem.
– O Neruda fica comigo.
João levantou a cabeça.
– O Neruda é meu.
– Você nunca leu.
– Mas é meu.
– Justamente. Você não vai ler mesmo.
João pensou um pouco.
– Está bem.
E entregou o Neruda.
Ficou com um livro de receitas que nunca tinha aberto, porque odiava receitas prontas; preferia criar as suas.
Era uma espécie de vingança.
Depois foram aos discos.
João separou alguns.
– Esse disco do Geraldo Azevedo fica comigo.
Marta concordou.
– Pode levar.
– Você não gosta?
– Gosto. Mas você gosta mais.
Ele olhou para ela.
Por um instante, os dois ficaram em silêncio.
Era o tipo de silêncio que, antigamente, teria terminado num beijo.
Agora terminou com João perguntando:
– E o liquidificador?
Marta ficou com o liquidificador.
A batedeira também.
João ficou com a cafeteira italiana.
– Mas eu nem tomo café.
– Agora vai tomar.
Ele não discutiu.
Havia uma certa crueldade nas pequenas decisões.
Não nas grandes.
As grandes eram fáceis.
A casa, o carro, as contas, os documentos.
As pequenas é que doíam.
Quem ficaria com a fotografia da viagem para Lençóis?
Quem ficaria com a planta que os dois haviam comprado quando ainda achavam que poderiam viver juntos para sempre?
Quem ficaria com o cachorro?
O cachorro, felizmente, resolveu a questão.
Ficou com Marta, que era quem tinha o pacote de ração.
A aliança foi mais complicada.
Marta colocou a dela sobre a mesa.
– O que fazemos com isso?
João respondeu:
– Vende.
– Vale alguma coisa?
– Provavelmente vale menos do que custou.
Ela riu.
Ele também.
Era a primeira vez que riam juntos em meses.
Talvez o casamento tivesse acabado justamente porque já não conseguiam rir das mesmas coisas.
Quando terminaram a divisão, havia duas pilhas na sala.
A pilha dela.
A pilha dele.
E uma terceira, no canto.
A pilha das coisas que ninguém queria.
Ali estavam um porta retrato sem fotografia, duas almofadas horrorosas, um manual de instruções de um aparelho que já não existia e um vaso rachado que continuava inteiro por algum motivo inexplicável.
João olhou para a pilha.
– Ficamos com o quê, afinal?
Marta respondeu:
– Com o que ninguém consegue levar.
Ele entendeu. As lembranças. As brigas. O primeiro beijo. O nascimento dos filhos. A viagem que deu errado. A doença da mãe. A festa de aniversário. As noites sem dormir. As manhãs em que acordavam abraçados. As manhãs em que não se falavam.
Tudo aquilo não cabia em caixas. Nem em acordo judicial. Nem em inventário.
Na hora de ir embora, João pegou a carteira, conferiu os documentos e procurou as chaves.
Marta estava parada junto à porta.
– Você esqueceu uma coisa.
– O quê?
Ela apontou para o corredor.
– A saudade.
João olhou para ela.
– Essa é metade de cada um.
Marta sorriu.
– Não. Essa é toda sua.
Ele abriu a porta.
Ficou alguns segundos ali.
Talvez esperando que ela dissesse alguma coisa.
Ela também esperava.
Mas ninguém disse.
Porque há momentos em que qualquer palavra pode parecer um pedido para voltar.
E nenhum dos dois queria voltar.
Ou talvez os dois quisessem.
O que dá no mesmo.
João saiu.
Desceu as escadas.
No primeiro andar, encontrou o porteiro.
– Acabou? – perguntou o porteiro.
João parou.
– O quê?
– O casamento.
João pensou.
– Acho que sim.
O porteiro balançou a cabeça.
– Então o senhor já pode mudar o endereço na correspondência.
João sorriu.
Era uma observação prática.
A vida gosta de ser prática justamente quando a gente está tentando ser profundo.
Na rua, João respirou fundo.
Sentiu uma saudade enorme.
Mas não chorou.
Não por orgulho.
É que ele, com ajuda do porteiro, estava carregando o sofá.
E era muito difícil chorar carregando um sofá.
Além disso, havia o Geraldo Azevedo: “Dia Branco”.
E o café.
E o futuro.
O futuro, descobriu João, era a única coisa que não precisava ser dividida.
Cada um podia ficar com o seu.
Mesmo que, por algum tempo, os dois futuros ainda tivessem a mesma saudade.
E foi assim que João foi embora: com uma mala, um disco de Geraldo Azevedo, uma carteira de identidade, uma cafeteira que ele não sabia usar e a estranha sensação de que, depois de vinte e dois anos, finalmente estava atrasado para a própria vida.
Esta crônica foi inspirada na música “Trocando em Miúdos”, de Chico Buarque.
Fonte ==> Ba.gov
