A fabricante brasileira ocupa sobretudo o segmento de aeronaves entre 100 e 150 passageiros, no qual o E195-E2 disputa espaço principalmente com o A220, enquanto as gigantes possuem portfólios que avançam para aeronaves maiores e de longo alcance.
A oportunidade, entretanto, pode deixar um legado de longo prazo: uma vez que uma companhia aérea incorpora aeronaves da Embraer, precisa investir em treinamento, manutenção, peças e infraestrutura para operar o novo modelo. Por isso, mesmo que os gargalos de Airbus e Boeing sejam temporários, os clientes conquistados pela fabricante brasileira podem permanecer por décadas.
Essa combinação entre tecnologia, exportação e relações de longo prazo também explica, para Borthole, o peso da Embraer para a diplomacia comercial brasileira. Ao contrário de empresas que exportam commodities, a fabricante vende tecnologia e engenharia de alto valor agregado.
Segundo José Augusto Zague, pesquisador de pós-doutorado do projeto Pró-Defesa V pelo Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (IPPRI-Unesp) e do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) da mesma universidade, é importante também olhar para a expansão da Embraer no setor de defesa.
Para ele, especialmente o KC-390 tem projetado comercialmente a empresa e o Brasil no exterior, com vendas para países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e outros mercados. O modelo, desenvolvido a partir de uma demanda da Força Aérea Brasileira (FAB), tem potencial para substituir o C-130 Hercules, de fabricação estadunidense, em diferentes forças aéreas.
É justamente por esse destaque no setor de defesa, cujas soluções da empresas estão presentes em mais de 60 países, que Borthole vê na empresa o potencial para exercer um papel semelhante ao de companhias como Petrobras e grandes construtoras na abertura de portas para o Brasil no exterior.
“Hoje, o ativo que o Brasil coloca no mercado com a Embraer é tecnologia, engenharia e indústria de altíssima complexidade.”
Zaque, contudo, é mais cuidadoso e afirma que a Embraer é uma exceção dentro da indústria brasileira, tanto no setor de defesa quanto na indústria de alta tecnologia. Para ele, o sucesso internacional da fabricante não é suficiente, por si só, para ampliar a influência do Brasil, uma vez que é uma das poucas capaz de produzir alta tecnologia.
Além disso, aponta que a Embraer ainda depende de fornecedores estrangeiros para componentes críticos de suas aeronaves, como motores, aviônicos e sistemas computadorizados de voo. Essa dependência pode impor limites à autonomia brasileira e até afetar a capacidade de exportação dos produtos.
No caso do KC-390, por exemplo, um eventual veto do país responsável por um componente poderia impedir a venda da aeronave a determinados mercados. Assim, o diferencial brasileiro está principalmente na engenharia aeronáutica de excelência, responsável pelo desenvolvimento e pelas inovações incorporadas às aeronaves da companhia.
“É uma empresa que nós podemos dizer que é como se fosse uma ilha, do ponto de vista da produção de tecnologia mais avançada.”
Fonte ==> Bahia Notícias
