“Ou você cogita se tratar ou eu vou embora.” É assim que Solange (Alice Wegmann) reage à resistência de Afonso (Humberto Carrão) a se internar para continuar fazendo quimioterapia contra uma leucemia mieloide aguda (LMA), na novela “Vale Tudo”.
No grupo de discussão sobre a novela de que participo no Instagram, muito noveleira que sou, a frase é muito mal recebida. “Ela devia levar isso para a terapia, não despejar sobre a pessoa que está doente”, leio alguém dizer.
Afonso resiste a continuar as sessões de quimioterapia, motivadamente. O tratamento é agressivo, ele se sente muito mal e não alcançou o resultado esperado. “Eu quero ser feliz com você no tempo que eu ainda tiver”, diz. Se ele estiver no fim da sua vida, não quer terminá-la com remédios que causam muitos efeitos colaterais. Quer estar em casa, vivendo a vida possível.
No livro “A vida afinal: conversas difíceis demais para se ter em voz alta”, falo muito sobre a importância de que pessoas com doenças graves entendam seus prognósticos para fazer escolhas verdadeiramente informadas, autônomas, que reflitam o que realmente desejam para o final de suas vidas, se assim for.
Faz muito sentido interromper ou não iniciar um tratamento debilitante, que tem pouco ou nenhum potencial de melhora, para ter uma maior qualidade de vida. E, embora seja comum que pessoas doentes continuem se tratando apenas para atender aos anseios de familiares, é cruel exigir isso delas. Só quem vive a intensidade de um sofrimento físico pode avaliar quanto dá para aguentar.
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Em um dos depoimentos mais sensíveis que já li sobre pessoas que perderam alguém amado com câncer, o onco-hematologista Pritesh Patel pede desculpas ao filho, Amar. “Nós o vimos se submeter a cirurgia, radioterapia, e seis meses de dor e ansiedade. Nós o forçamos a fazer quimioterapia de sabor amargo.”
Patel lamenta não apenas pelo filho, mas por todos os seus pacientes, por não ter percebido quão difícil era passar por essas intervenções. “Sinto muito por não ter entendido quão ruim foi quando vocês sentiram dor ou náusea ou qualquer das 500 outras coisas que deram errado com seus corpos.”
Ninguém deveria se sentir no direito de calcular quanta dor outra pessoa é capaz de suportar. Muito menos exaltar uma suposta superioridade moral daqueles que sofrem mais. “Seus filhos terão orgulho de você”, diz Solange quando Afonso, pressionado, decide se internar novamente.
Quando o médico o informou de que o primeiro ciclo de quimioterapia não tinha alcançado o resultado desejado (remissão) e que seria necessário um transplante de medula óssea, o paciente disse que não realizaria mais tratamentos até que fosse encontrado um doador compatível.
Novelas têm licença poética, claro. Mas o impacto da principal fonte de narrativa de ficção brasileira interfere na vida e na visão de mundo de milhões de pessoas. E é necessário ter responsabilidade na condução de histórias que coincidem com uma grande parte delas.
Rosane Svartman diz que “a telenovela tem o desafio e a vocação de ser produzida para um público massivo, gerando identificação com tramas, práticas e personagens a fim de trazer reflexão sobre temas cotidianos, além de oferecer informação, entretenimento, fantasia, descompressão e inspiração”. Muito do que a gente absorve de uma novela não é conscientemente apreendido. Pode reforçar ideias que já temos –e que, muitas vezes, não encontram amparo no mundo real.
A trama de Afonso Roitman em “Vale Tudo” –e o provável desfecho anunciado, com a cura por um transplante de medula pelo irmão Leonardo (Guilherme Magon), cujo consentimento para o ato teria que observar o artigo 9, parágrafo 6º, da lei 9.434/1997– causou-me duas preocupações. E resolvi dividi-las com a hematologista e paliativista Cecília Emerick Mendes Vaz.
A primeira delas era sobre o próprio controle da doença até que eventual transplante fosse possível. “Mesmo sem os efeitos colaterais adicionais de um tratamento agressivo, como é a quimioterapia nos casos de leucemia aguda, a própria doença dá muitos sintomas. Então é difícil imaginar que o paciente sem bons resultados com a primeira linha de tratamento vai para casa e fica bem.”
A ideia do personagem de que terá uma vida melhor até morrer se não estiver internado em um hospital com remédios nas veias faz sentido em diversos cenários (como em muitos casos de tumores sólidos metastáticos), mas é pouco provável para pacientes com a mesma doença (LMA). Além disso, Cecília afirma que o prognóstico nesse caso é muito ruim (de semanas a poucos meses), pela progressão natural da leucemia aguda.
Esta é minha segunda e maior preocupação, e algo que já vi acontecer algumas vezes: as pessoas imaginam que basta encontrar um doador compatível que a cura é certa. Há pessoas, no entanto, que nunca alcançam condições clínicas para realizar o transplante.
“Mesmo que tenhamos esquemas de condicionamento reduzido, a quimioterapia necessária antes do transplante é muito intensa. Depois desse processo, a medula nova precisa ‘pegar’ e o paciente precisa ser submetido à imunossupressão [redução da atividade do sistema imunológico] para não rejeitá-la. É um processo complexo, com riscos de infecções e intercorrências importantes”, explica Cecília.
Embora a cronologia de “Vale Tudo” nem sempre seja clara —não é possível afirmar há quantos meses Afonso recebeu o diagnóstico e o resultado de que a primeira quimioterapia não levou à remissão—, dificilmente ele estaria em condições de receber o transplante após o tempo decorrido e até de receber a quimioterapia.
É totalmente legítimo o desejo do personagem de suspender um tratamento, mas é necessário que as consequências da decisão façam sentido. Um transplante de medula não é uma injeção que se pode dar nos últimos dias de vida de alguém, como um antídoto salvador contra um veneno ou uma alergia grave.
Se isso não fica claro na dramaturgia, é possível que, mesmo diante de um cenário de absoluta improbabilidade de condições para transplante, familiares e amigos sigam confiando na cura desde que encontrem um doador compatível, como se a eventual morte se tornasse um fracasso nessa busca –e não uma decorrência da doença.
E se já existe uma grande dificuldade dos médicos em comunicar com honestidade e clareza maus prognósticos a pacientes e familiares, isso só piora quando o maior objeto de consumo cultural do brasileiro reforça ilusões.
O audiovisual pode contribuir para salvar muitas pessoas, especialmente quando o tempo é um ativo tão importante. Eu mesma pensei anos em fazer o cadastro para ser doadora de medula óssea e acabou ficando tarde demais, porque é necessário ter entre 18 e 35 anos de idade.
Se você tem interesse em saber mais, não espere. O processo é simples e a reabilitação do procedimento, caso sua medula seja compatível com alguém que precise, também é segura e bastante tranquila. É nesse ato concreto que podemos depositar esperanças muito reais.
Fonte ==> Folha SP
