Vídeos levantam suspeita sobre ação da Rota na Grande SP – 13/08/2026 – Cotidiano

Uma viatura policial cinza está no centro da imagem, parcialmente sobre a calçada. Um carro prata está parado na via, com porta-malas aberto próximo à lateral do carro de polícia. É possível ver um homem entre a porta traseira da viatura da polícia e o carro prata, e outros dois policiais próximos ao porta-malas. Parte da cena é ocupada por uma carca branca de alambrado que encobre parcialmente a trasiera da viatura e os policiais

Um policial militar é filmado mexendo no porta-malas do carro de um homem que havia sido morto minutos antes, a tiros, por equipes da PM em Itaquaquecetuba, na região metropolitana de São Paulo. No mesmo porta-malas, uma mochila com 12 tijolos de maconha é fotografada horas depois pela perícia do Instituto de Criminalística.

A cena captada por uma câmera de vigilância e outros detalhes do caso de novembro de 2025, que não eram conhecidos publicamente até aqui, lançam dúvidas sobre a conduta dos policiais da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, tropa de elite conhecida pelos altos índices de letalidade).

Na gravação, o PM está em um pequeno espaço entre a parte traseira do carro da vítima, um Toyota Corolla prata, e a lateral de uma viatura da polícia que está com a porta aberta —e que bloqueia a visão de quem passa pela rua. Ele parece retirar algo de dentro da viatura antes de mexer no porta-malas do Corolla, que não havia sido aberto até então.

Outro policial, ao seu lado, é quem abre o compartimento. Ele não olha dentro do porta-malas —o que seria esperado em um procedimento de revista— e mantém o rosto em outra direção. Não é possível enxergar o que o PM manuseia enquanto está parado entre os dois carros.

Questionada, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) informou que as circunstâncias do caso são investigadas e que “toda a dinâmica da ocorrência, incluindo o acionamento das câmeras operacionais portáteis, os procedimentos adotados no local e demais elementos probatórios” estão sob análise na Polícia Civil.

O homem que foi morto dentro do carro é o advogado Carlos Alves Vieira, 48, conhecido como Ferrugem. Segundo o boletim de ocorrência, os PMs disseram que haviam recebido “informações do serviço de inteligência” de que ele estaria transportando drogas e armas.

Eles disseram que houve uma troca de tiros durante a tentativa de abordagem —com três PMs disparando pistolas e um fuzil— que resultou na morte do suspeito. Duas pistolas foram apresentadas na delegacia e atribuídas ao motorista do Corolla.

A família diz que Vieira foi morto em frente ao muro da empresa da qual era dono, que ele fazia seu trajeto rotineiro e que isso será provado. Pouco antes, havia almoçado com o irmão e passado em um barbeiro, antes de ir até a empresa para fechá-la, afirmam.

Vieira foi apontado pelo governo paulista como integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital) após ser morto, mas a Ouvidoria das Polícias contesta essa alegação. Além de recém-aprovado na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ele era sócio de lojas de peças de motocicleta e de uma empresa de logística.

A 6ª Promotoria de Justiça de Itaquaquecetuba, em um requerimento à Justiça apresentado em fevereiro, classificou a ocorrência como “possível execução sumária de um cidadão sem antecedentes criminais relevantes e sem qualquer vínculo com facções criminosas, conforme aponta a Ouvidoria”.

A defesa da família diz que as imagens “causam estranheza”. “A conduta certa seria eles fazerem a revista do carro depois do acontecido, mas não com a viatura atrás, tampando a visão de qualquer um que pudesse notar alguma coisa”, disse o advogado André de Lira à Folha.

A gravação deve ser usada no processo para questionar a conduta dos PMs após uma análise mais cuidadosa.

O perito criminal Cássio Thyone, que trabalhou na Polícia Civil do Distrito Federal por 23 anos, disse que a cena lança suspeitas sobre as provas apresentadas pela polícia, uma vez que houve alteração do local sem necessidade.

“Se o óbito está constatado, a segunda preocupação deve ser a preservação da cena na sua integridade”, afirmou Thyone.

Imagens das câmeras corporais enviadas à Justiça, até agora inéditas, mostram que os equipamentos começaram a gravar mais de seis minutos após o início dos tiros. Quando os vídeos começam, Vieira já está gravemente ferido e desacordado.

Duas aproximações dos PMs com escudos balísticos deixaram de ser filmadas. Só é possível saber disso por causa das câmeras de vigilância da rua. As imagens não deixam claro se houve troca de tiros ou se apenas os policiais atiraram.

Deixar de acionar manualmente as câmeras durante qualquer abordagem —com ou sem risco de confronto— é transgressão disciplinar, e os PMs podem ser punidos.

Armas e contradições

Os vídeos mostram a apreensão de apenas uma pistola atribuída a Vieira. A arma não aparece nas mãos dele.

Ela surge em um dos vídeos no momento em que o sargento Elias Cruz segura os braços do advogado, ensanguentado e desacordado. A câmera capta um ruído de velcro sendo aberto, e em seguida ele diz: “Boa, boa”.

Segundos depois, o sargento diz aos colegas que Vieira está “responsivo” (tinha batimento cardíaco) e avisa: “Vi uma arma aqui, eu acho que está aqui embaixo”. O sargento Guilherme Takenaka se aproxima e retira uma arma do assoalho do carro, próximo ao banco do motorista.

Mais tarde na gravação, Cruz afirma aos colegas que havia visto o advogado “tentando acessar mais uma arma”, mas não menciona nenhuma troca de tiro. Ele contou outra versão cerca de dois meses depois.

Em depoimento prestado em janeiro, Cruz disse que “o indivíduo sacou uma segunda arma e efetuou disparos contra a equipe” e que por isso atirou três vezes contra ele. No entanto, a perícia no local encontrou apenas uma cápsula, de calibre 9mm, compatível com as armas atribuídas a Vieira.

A arma que aparece nas imagens é uma pistola calibre 380, da Taurus. Um exame apontou que ela não tinha vestígios de disparos recentes. Apenas a outra pistola atribuída ao advogado, uma 9 mm, tinha resíduos de disparos.

A PM demorou mais de dois meses para entregar as imagens das câmeras corporais à investigação. Isso ocorreu após a Justiça intimar o comandante da Rota a apresentar os vídeos, sob pena de sofrer uma ação de busca e apreensão no batalhão e responder criminalmente caso a medida não fosse cumprida.

A SSP afirmou que “toda intervenção policial é submetida aos mecanismos de controle e fiscalização previstos em lei” e que os envolvidos respondem nas esferas administrativa, criminal e judicial sempre que irregularidades são constatadas.

A pasta informou que um Inquérito Policial Militar sobre o caso já foi concluído e “encaminhado pela Justiça Militar, onde tramita atualmente”, mas não detalhou quais foram as conclusões do inquérito.

Os advogados Mauro Ribas e Renato Soares, que representam Takenaka, disseram em nota à reportagem que o policial “agiu de forma legítima na ocorrência”, uma vez que ele e os colegas “foram agredidos por disparos de arma de fogo, sendo necessária a reação”.

Sobre a busca no porta-malas, os advogados negaram qualquer conduta indevida. Com relação à localização da arma, a defesa reafirmou a legitimidade da ação. “Nenhuma arma foi ‘plantada’ pelos policiais militares, sendo que a localização foi gravada pela câmera corporal”, acrescentou a defesa.

A reportagem pediu por email, na segunda-feira (10), à SSP e à PM um contato direto com os três agentes envolvidos nos disparos, mas a secretaria disse apenas que manteria a nota enviada. Os defensores particulares dos demais policiais não foram identificados pela reportagem.

Suspeitas contra Vieira

Em 2022, Vieira foi alvo de um inquérito que investigava tráfico de drogas, que resultou em uma busca e apreensão em sua casa. A polícia não encontrou armas nem drogas e apreendeu R$ 52 mil em dinheiro, US$ 730 e cheques em um cofre.

Ele afirmou que o dinheiro serviria para pagar seus funcionários. Declarou que conhecia apenas um dos quatro outros investigados naquele inquérito —e que o havia encontrado uma vez na vida. O caso foi arquivado e a Justiça considerou que ele conseguiu comprovar a origem do dinheiro apreendido.

Um relatório da Polícia Civil diz que sua vinculação ao caso foi feita com base na palavra de um delegado, afirmando que ele é “antigo conhecido por seu envolvimento”.

Ele também foi alvo de uma investigação de tráfico de drogas em 2015, arquivada a pedido do Ministério Público. Em 2009, foi denunciado e processado por furto, mas não foi condenado e teve a punibilidade pelo caso extinta três anos depois.

“Desde a infância, [Vieira] sempre foi um cara trabalhador, trabalhou muito tempo em açougues, depois conseguiu comprar um comércio e trabalhava nesse comércio todos os dias, até nos finais de semana. Tudo que ele tinha era fruto do trabalho”, disse o advogado Lira. “Acreditamos que ele foi confundido com alguém [pela PM].”



Fonte ==> Folha SP

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *