Abuso sexual de filhos de mulheres presas acende alerta – 03/09/2025 – Cotidiano

A imagem mostra uma cena em que uma mulher e três crianças estão de pé em frente a uma cerca de arame farpado. A mulher, com cabelo preso, está gesticulando, enquanto as crianças observam. O fundo é de um céu roxo com nuvens, e a cerca é feita de malha metálica com arame farpado no topo.

Números da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) mostram que 29.137 mulheres estavam presas em celas físicas no país em dezembro de 2024. Deste total, 13.384, ou 46%, são mães.

Longe das genitoras, os filhos enfrentam estigma social e descaso do Estado. Expostas ao abandono e à vulnerabilidade, são crianças que correm riscos, como violência sexual, exploração e perda da autoestima.

“O sistema prisional é uma máquina mortífera de moer pessoas, em sua maioria jovens, pretos e pobres”, afirma a irmã Petra Pffaller, coordenadora nacional da Pastoral Carcerária, braço da Igreja Católica que promove assistência às presas e suas famílias.

O relatório da Senappen aponta ainda que 180 mulheres encarceradas eram gestantes ou parturientes no fim do ano passado, e 98, lactantes, o que resultou em 120 bebês ou crianças nos estabelecimentos penais.

“É absurdo termos crianças presas, ao lado das mães, que deram à luz na prisão. Isso afronta o direito do recém-nascido à liberdade”, diz Petra.

Em casos de mães solo, os filhos ficam posteriormente sob os cuidados de familiares ou em abrigos. A separação pode provocar problemas emocionais.

Para a psicóloga e logoterapeuta infantil Irineia Cardoso, a mãe é a primeira referência afetiva da criança. “A autoestima se constrói a partir de como me vejo e como acredito ser visto. A mãe é o primeiro olhar de validação.”

Os impactos variam por idade: abalo emocional na primeira infância, prejuízo na identidade entre 7 e 12 anos e perda de esperança na adolescência. Meninas interpretam a ausência como rejeição; meninos entendem como culpa.

O cômputo de mulheres encarceradas diminuiu desde 2016, quando a Senappen começou a divulgar o relatório. No primeiro semestre daquele ano, eram 38.901 presas. No entanto, curiosamente, a quantidade de mães era menor: 7.534, ou 19%. O número de bebês/crianças nos estabelecimentos penais hoje também é bem menor do que o recorde da série, 1.835, no primeiro semestre de 2020.

Desde então, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por meio da Resolução nº 369/2021, estabeleceu diretrizes para a substituição da prisão preventiva (por prazo indeterminado) de gestantes, mães e responsáveis por crianças ou pessoas com deficiência, priorizando medidas alternativas para preservar a convivência familiar.

A vulnerabilidade não se restringe apenas aos filhos de presas. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024 registrou 83.988 casos de estupro em 2023, sendo 76% das vítimas crianças e adolescentes.

O que conecta essas realidades é a negligência do Estado. Crianças crescem sem mães e enfrentam violência em casa. “Cada ausência mina a percepção de que a criança é amada e capaz”, afirma a psicóloga.

A Justiça Restaurativa (JR), que está ligada à Pastoral Carcerária, surge como alternativa.

Vera Dalzotto é facilitadora de encontros estruturados e mediados, nos quais pessoas envolvidas em uma situação de conflito ou violência —vítima, ofensor e comunidade— se reúnem em um espaço para dialogar, compreender os danos causados e buscar formas de reparação das relações.

Além de atuar na reconstrução de vínculos entre crianças e mães presas, a JR trabalha na articulação de uma rede de cuidado com famílias, escolas e serviços sociais.

Em casos de violência sexual, o método exige prioridade para a vítima, segurança emocional e confidencialidade. Para crianças vítimas de abuso, o processo é diferente e muito mais protegido.

Nesses casos, a Justiça Restaurativa quase nunca envolve um encontro com o agressor, o foco é ouvir a criança, acolhê-la e protegê-la. A partir desta escuta, e com apoio de sua rede de proteção, a criança vai elaborando a violência e pode romper o trauma.

A JR complementa, mas não substitui a responsabilização judicial. Segundo Vera, projetos em São Paulo e no Rio Grande do Sul já demonstram resultados positivos.

Um exemplo disso é o que acontece na Fase (Fundação de Atendimento Socioeducativo) no Rio Grande do Sul, que há 18 anos implementa metodologias restaurativas em todas as suas unidades no estado.

Somente em 2022 e 2023, foram realizadas mais de 200 atividades baseadas nesses princípios, resultando em um atendimento mais humanizado a adolescentes, além de promover um ambiente de trabalho mais qualificado para servidores e envolver também as famílias dos jovens.

Inspirada na logoterapia, abordagem psicológica baseada na procura de sentido na vida, Irineia Cardoso lembra que é possível encontrar sentido mesmo na dor. Isso pode ocorrer em grupos terapêuticos, redes de apoio e valores criativos como estudo, arte e cuidado com o outro, de acordo com a psicóloga.


Esta reportagem é resultado do curso sobre cobertura jornalística de violência sexual infantil promovido pela Folha e pelo Instituto Liberta em junho de 2025



Fonte ==> Folha SP

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