[RESUMO] Fundada em 1999, a editora inglesa Persephone Books se dedica a publicar “ficção esquecida”, majoritariamente de autoras mulheres. Boa parte do acervo é composto de obras que fizeram sucesso à época de publicação e depois caíram no ostracismo do mercado editorial.
Quando a escritora britânica Dorothy Whipple publicou, em 1943, o romance “They Were Sisters” (elas eram irmãs), o livro foi um sucesso. A história de Lucy, Vera e Charlotte e sobre como os homens com quem as irmãs se casaram determinariam o futuro de cada uma delas foi tão bem recebida que virou filme no ano seguinte.
Escritora prolífica e popular, Whipple chegou a ser chamada pelo dramaturgo JB Priestley de “a Jane Austen do século 20”. Então, sumiu das prateleiras por décadas, até ser resgatada pela Persephone Books, editora do Reino Unido que há 26 anos se dedica a republicar o que chamam de “literatura negligenciada”.
Mas o que leva uma autora (no feminino, porque o catálogo de 151 livros da editora é composto majoritariamente por elas, embora haja alguns homens publicados) ao esquecimento?
“Muitas coisas podem fazer com que um livro suma sem deixar rastros”, diz Francesca Beauman, filha da fundadora da Persephone, Nicola Beauman. Aos 80 anos, Nicola ainda participa de algumas decisões da editora, mas é Francesca quem toca o dia a dia das publicações, em um processo de seleção e edição que às vezes inclui a necessidade de escanear um livro antigo, página por página, para depois transcrevê-lo.
O nome da editora foi escolhido pela mãe. “Assim como Perséfone, a deusa da primavera, voltou do submundo, nossa ideia era trazer novamente à luz esses livros”, afirma Francesca. Às vezes, o motivo do sumiço está na biografia de quem o escreveu. “É mais fácil que um livro seja lembrado se o autor tem uma história de vida muito interessante ou eletrizante, como F. Scott Fitzgerald.”
Não é o caso de muitas das mulheres escritoras do início do século passado, que normalmente dividiam o ofício com a vida doméstica, às vezes materna. Também é menos provável que elas tivessem tempo e espaço para deixar diários e cartas que os contemporâneos masculinos —o que pode fazer com que sumam da memória coletiva depois da morte.
Às vezes, são detalhes, como um título pouco memorável de um romance. Ou um sobrenome como Whipple, considerado bobo, diz Francesca. “Talvez tenha feito com que ela não fosse levada a sério.”
A escritora virou motivo de chacota quando foi esnobada pela Virago, editora britânica feminista nascida nos anos 1970, logo após a morte de Whipple. Em 2008, Carmen Callil, fundadora da Virago, escreveu no jornal The Guardian que odiou tanto a prosa da escritora que criou até uma expressão para classificar manuscritos que seriam rejeitados, que eram anotados com a frase “abaixo da linha de Whipple”.
Apesar disso, quando a jornalista Nicola Beauman decidiu fundar a Persephone Books, depois de passar a vida inteira investigando a vida de escritoras como jornalista e acadêmica, foi com Whipple que deu o pontapé inicial. As Beauman já resgataram 11 livros da autora, que virou um dos carros-chefe de venda da casa e é uma das favoritas pessoais de Nicola.
É da coleção pessoal da matriarca, aliás, que saíram a maioria dos volumes publicados pela editora. “Minha mãe tem prateleiras e prateleiras de livros que ela comprou em sebos nos anos 1970”, conta Francesca.
É claro que o motivo de um livro não ser republicado pode ser simplesmente que ele não é bom o suficiente, diz Francesca. “O difícil não é achar livros que estejam fora do prelo, porque desses há montes. A questão é achar os livros que estão esquecidos e não deveriam estar, que são realmente bons.”
As Beauman têm os mais diversos jeitos de chegar a eles. Quando não estão procurando pela próxima publicação na biblioteca da mãe, elas vasculham a Biblioteca Britânica, que guarda pelo menos uma cópia de todos os livros já publicados no Reino Unido. Às vezes, porém, as joias chegam por acaso.
Um dia, uma leitora chegou ao escritório de Nicola e lhe apresentou um livro puído, que disse ser o romance favorito da mãe. Era “Miss Pettigrew Lives for a Day”, de Winifred Watson, um romance publicado pela primeira vez em outubro de 1938.
A história acompanha uma governanta azarada que é enviada ao endereço errado pela agência onde trabalha. Em vez de chegar à casa de uma família cheia de crianças indisciplinadas, acaba encontrando uma cantora de cabaré que a leva para um dia de aventuras.
O romance foi um sucesso em sua primeira edição no Reino Unido, na Austrália e nos Estados Unidos. Tinha ganhado tradução francesa e a promessa de uma edição alemã, que, com o início da Segunda Guerra Mundial, nunca se concretizou. Quando o conflito acabou, o mundo era outro, e “Miss Pettigrew” sumiu do mercado editorial por mais de meio século.
Quando um livro chega às Beauman e passa pelo crivo de qualidade, o passo seguinte é a busca dos direitos de publicação. “No caso de Winifred, demorou um tempo para conseguirmos achá-la”, afirma Francesca. “Nós sabíamos que ela tinha nascido em Newcastle [cidade ao norte da Inglaterra] e fomos procurando na lista telefônica todas as Winifred Watsons da cidade. Achamos cinco”, diz.
“A terceira atendeu, e minha mãe perguntou: ‘Estou falando com a autora de ‘Miss Pettigrew Lives for a Day’?’ e, depois de uma pausa, ela respondeu, altiva, ‘sim, sou eu mesma!’.”
A reedição saiu em 2000 e chamou a atenção do meio literário —e cinematográfico. Winifred contou às Beauman que Miss Pettigrew ia virar filme nos anos 1940, plano interrompido pelo ataque à base militar de Pearl Harbor, que colocou os americanos na guerra e jogou Hollywood no furacão da propaganda.
A autora brincava que queria que os japoneses tivessem esperado “só mais alguns meses”, afirma Francesca. Watson morreu em 2002. Seis anos depois, o projeto hollywoodiano se concretizou e o livro virou “A Vida num Só Dia”, estrelado por Frances McDormand e Amy Adams. Miss Pettigrew é um dos best-sellers da Persephone.
Nem só de romances vive a editora, porém. Da contista Sylvia Townsend Warner, por exemplo, as livreiras reuniram textos publicados na revista The New Yorker sobre a vida na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial.
Durante décadas, a loja física da editora funcionava em Bloomsbury, bairro do centro de Londres conhecido por ter sido casa de escritores como Virginia Woolf e Charles Dickens.
Em 2021, a operação foi realocada para Bath, cidade no sudoeste inglês. Bucólica e turística ao mesmo tempo, Bath se encaixa tão bem com a proposta da Persephone que é difícil acreditar que a editora tenha passado quase toda sua existência em outro lugar.
A cidade tem entre suas principais atrações um museu dedicado a Jane Austen e foi set de filmagem da série “Bridgerton”, que se passa durante o período conhecido como Regência (1811 a 1820). Caminhando pela calçada de paralelepípedos que leva à loja da Persephone atualmente, é fácil imaginar autoras e personagens dos livros da editora percorrendo o mesmo caminho.
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Fonte ==> Folha SP
