Glutão, mal-educado, medroso e constantemente traído pela mulher. A imagem popular de dom João 6º, rei português cuja morte completou 200 anos no último dia 10, seria muito mais uma caricatura criada e perpetuada por seus detratores do que a que corresponde à sua biografia, afirmam pesquisadores contemporâneos.
Ao mesmo tempo que sobram elementos sobre seu papel na construção das bases do que viria a ser o Estado brasileiro, proclamado nação independente por seu filho, dom Pedro 1º, em 1822, há evidências fortes de que o monarca português tenha sido assassinado por envenenamento.
Biógrafo de diversos personagens da monarquia luso-brasileira, o pesquisador e escritor Paulo Rezzutti endossa essa tese, embora reconheça que não há um laudo oficial. Autor do recém-lançado livro “D. João 6º: A História Não Contada”, ele lembra que entre os dias 4 e 10 de março de 1826 foram emitidos 27 boletins médicos acerca da saúde do rei.
“No último, foi registrado que ele continuava a sofrer ‘repetidos insultos nervosos’. Às 16h25, teve uma síncope seguida da morte”, conta. “Toda a história é muito estranha. Dona Carlota [Joaquina, a mulher do rei] esperava ser colocada como regente na falta do marido, mas ele, mesmo doente, se antecipou a essa ideia e nomeou uma das filhas, dona Isabel Maria, como regente de Portugal até que dom Pedro, no Brasil, que continuava sendo o herdeiro do trono, determinasse o que deveria ser feito.”
Foi um azedume político. Em Portugal, apoiadores da rainha viúva começaram a espalhar o boato de que João havia morrido antes da data oficial —portanto, o documento assinado por ele seria uma farsa. Isabel Maria, então, buscou apoio inglês, por meio do embaixador.
“O próprio diplomata britânico ficou atônito porque, ao conversar com dona Carlota, ouviu dela que dom João havia sido envenenado e que ela saberia até mesmo quando havia sido dada a primeira dose”, diz Rezzutti. “Questionada sobre como tinha essa informação, a rainha teria ficado embaraçada e mudado o rumo da conversa.”
No livro, o biógrafo reproduz o relatório do diplomata inglês, ao qual ele teve acesso. As vísceras do monarca acabaram retiradas de seu corpo no ritual fúnebre que previa embalsamamento antes da sepultura e preservadas em um jarro instalado em uma capela. Há menos de três décadas, o material foi exumado e submetido a pesquisas. “Confirmaram um índice altíssimo de arsênico, o que corrobora a hipótese de assassinato levantada já na época”, atenta Rezzutti.
Oficialmente, o rei morreu depois de convulsões e sintomas gastrointestinais. Professora na Universidade Lusófona de Portugal, a antropóloga Lidice Meyer lembra que ele tinha “sintomas de doenças orgânicas”, como “edema generalizado ou hidropsia, diarreia biliosa e sinais de danos crônicos no sistema cardiorrenal”. “Era considerado glutão, melancólico e sedentário, fatores que, por si só, seriam de risco para a morte aos 59 anos”, pontua.
“O achado de arsênico em doses altas nas suas vísceras levantou a hipótese de envenenamento como causa básica da morte, mas não se pode descartar a aterosclerose como fator de risco predisponente para um acidente vascular cerebral final”, complementa a professora.
Fato é que havia clima político para assassinato. “Os suspeitos são vários. No jogo de apaziguamento realizado por dom João, se posicionando de maneira equilibrada e conciliatória, ele acabou deixando os grupos radicais contra si”, analisa Rezzutti. Tanto absolutistas, capitaneados pela Carlota Joaquina, quanto liberais tinham interesse no trono vago.
“Porém, nas revoltas realizadas contra os liberais, dom João os protegeu, então seria pouco provável que eles atentassem contra a vida do monarca”, pondera o pesquisador. “A hipótese mais forte seria da facção absolutista, de Carlota, que tinha esperança de colocar no trono seu filho mais novo, dom Miguel. Ela poderia governar como regente durante a menoridade do rapaz.”
Mas claro que não há consenso —e dificilmente ainda haverá— para a tese do assassinato do rei. “Nas práticas rotineiras da política sob o Estado Absolutista, o boato e a morte traiçoeira eram instrumentos comuns e recorrentes nos bastidores. As limitações da medicina da época também dificultavam a determinação com a devida precisão da causa das mortes”, avalia o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Unesp (Universidade Estadual Paulista).
Nascido em 1767, João 6º acabaria tendo um papel fundamental na criação do Brasil independente. Primeiro porque, ao decidir transferir a sede do reino de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808, no contexto da fuga das tropas napoleônicas, ele acabou aparelhando a cidade brasileira com toda uma estrutura que seria basilar para um país.
“Ao ver na América o futuro, rompendo com qualquer preconceito de transformar uma ex-colônia sul-americana na sede de um vasto império ultramarino, dom João e seus ministros começaram a transformá-la”, diz Rezzutti.
Ele rompeu com o pacto colonial, abriu os portos ao comércio exterior, permitiu a instalação de fábricas e equipou a então colônia com instituições —Biblioteca Nacional, imprensa, Museu Nacional, escolas de ensino superior e o Banco do Brasil.
Contudo, a figura, porque humana e porque autoridade, não pode carregar apenas a pecha de herói. “É nefasto, ainda hoje [o legado dele]”, define o historiador Martinez. Para ele, ficou do período “a prática política de conciliação entre os poderosos, em defesa dos interesses econômicos e sociais dos grupos dominantes”.
“Esta prática se caracteriza pela indiferença e a exclusão dos segmentos empobrecidos da sociedade, podendo chegar ao limite da violência aberta e da repressão brutal. A conciliação como prática política significa a barreira às ideias democráticas, ao lugar da cidadania, do espírito público na condução do Estado nacional. É uma espécie de muralha contra os valores fundamentais da vida democrática”, contextualiza o professor.
A história dele como covarde e casado com uma adúltera teve início ainda em Portugal. Com a mudança da corte para o Brasil, Napoleão se colocou como o salvador do povo português e justificou a presença de suas tropas não como uma invasão, mas como uma proteção para Portugal
Para Rezzutti, a verdade história corresponde muito pouco ao personagem estereotipado que ganhou o imaginário popular. “Por que uma mentira dita mil vezes se torna verdade? Porque as pessoas aceitam com mais facilidade algo caricato do que algo complexo. Isso explica muitos livros e filmes que se utilizam dessas narrativas e acabaram se tornando um sucesso”, comenta.
“A história dele como covarde e casado com uma adúltera teve início ainda em Portugal. Com a mudança da corte para o Brasil, Napoleão se colocou como o salvador do povo português e justificou a presença de suas tropas não como uma invasão, mas como uma proteção para Portugal”, explica Rezzutti. “Isso é replicado pela historiografia francesa ao longo dos anos e é aceito como realidade, sem levar em conta que já havia planos para a mudança da corte para o Brasil desde o século 16. A pressão exercida pela Inglaterra e pela França contra Portugal no início do século 19 e a perspectiva de se perder o Brasil para os britânicos acabaram levando dom João a levar os antigos planos adiante.”
A própria ideia de Carlota Joaquim como uma rainha adúltera também teria tido origem na intriga francesa. “A mulher do embaixador francês em Lisboa espalhou que era raro dom João se deitar com a esposa e que, provavelmente, boa parte dos filhos não seria dele”, conta o biógrafo.
“Ele era bom de prato e realmente era gordo, nunca foi magro, apesar de gostar de montar na sua juventude. A esposa realmente o traiu diversas vezes, mas ao que se sabe apenas de maneira política”, afirma Rezzutti. “Carlota tentou tomar o trono do marido ao menos em três ocasiões, sendo uma delas ainda antes de a corte vir para o Brasil, e seus planos continuaram ao retornar a Lisboa.”
Como toda personalidade complexa, sempre será um desafio esquadrinhar este homem que não só governou Portugal como teve a audácia de ser o único europeu a comandar seu império a partir de solo americano. Em artigo acadêmico, a historiadora Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves, professora na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) expõe essa dimensão.
“Soberano bondoso, justo, clemente, astuto e administrador incansável; ou absolutista covarde, indeciso, fraco, enganado, que abandonou seus súditos e seu reino —eis os perfis contraditórios que se construíram e que continuarão a ser construídos para dom João, conforme as condições dos tempos e os interesses dos historiadores”, reflete ela. “Muito mais difícil continua, e continuará a ser, por falta de elementos, adivinhar —como acontece com qualquer um de nós, no passado ou no presente— o indivíduo que se escondia por trás dessas projeções.”
Fonte ==> Folha SP
