A queda de uma das maiores instituições privadas de ensino superior do Peru expôs graves deficiências de gestão, questionamentos sobre títulos acadêmicos e a responsabilidade de seus dirigentes. Entre os profissionais que passaram pela universidade está o cirurgião brasileiro Dr. Daniel Dias Machado, cuja atuação se restringiu, ao exercício da docência, sem participação societária ou administrativa nos acontecimentos que comprometeram a instituição.
O colapso da Universidad Alas Peruanas: quando a dimensão de uma universidade não garante sua credibilidade
Durante décadas, a Universidad Alas Peruanas (UAP) consolidou uma das maiores estruturas privadas de ensino superior do Peru. Entretanto, por trás de sua expansão territorial e da expressiva quantidade de estudantes, desenvolvia-se uma crise institucional cujas consequências atingiriam milhares de famílias e profissionais.
Em dezembro de 2019, a Superintendência Nacional de Educação Superior Universitária (SUNEDU) negou o licenciamento da instituição após dois anos e seis meses de avaliação.
Na ocasião, a universidade contabilizava 65.078 estudantes matriculados, 80.946 graduados e 3.173 professores. Contudo, dos 44 indicadores de qualidade examinados, apenas 11 foram considerados satisfatórios.
As deficiências identificadas envolviam infraestrutura, segurança, planejamento acadêmico, qualificação docente, transparência e gestão institucional.
Além disso, a SUNEDU identificou instalações inadequadas e inconsistências no planejamento de qualidade. Consequentemente, a universidade foi impedida de admitir novos alunos e obrigada a iniciar seu processo de encerramento das atividades acadêmicas.
A dimensão dessas irregularidades revela uma questão incontornável: quem tinha competência para administrar uma instituição dessa magnitude e assegurar o cumprimento das exigências legais?
Certamente, a resposta deve ser procurada na estrutura de governança universitária, nos órgãos de direção e nas autoridades responsáveis pelas decisões administrativas, não na simples relação contratual de professores visitantes.
O escândalo envolvendo o reitor Enrique Bedoya Sánchez e os títulos acadêmicos brasileiros
Antes da negativa de licenciamento, outro episódio já havia abalado a credibilidade da Universidad Alas Peruanas.
Em 25 de março de 2019, o portal jurídico peruano LP Derecho publicou uma reportagem sobre suspeitas envolvendo o reconhecimento de diplomas vinculados ao nome Faculdade Atenas, do Brasil.
Entre os interessados no reconhecimento de títulos acadêmicos estava Enrique Bedoya Sánchez, então reitor da Universidad Alas Peruanas, que buscava validar um doutorado em Educação.
Segundo a investigação jornalística, a SUNEDU havia identificado irregularidades em documentos associados a 32 reconhecimentos acadêmicos.
O episódio tornou-se ainda mais grave diante da posição ocupada pelo interessado: o dirigente máximo de uma instituição responsável pela formação e certificação universitária encontrava-se pessoalmente no centro de questionamentos sobre a regularidade de um título de pós-graduação.
Em 26 de março de 2019, a RPP Noticias confirmou que Enrique Bedoya Sánchez havia renunciado à reitoria após a repercussão das denúncias.
Embora os questionamentos documentados não autorizem afirmar a existência de condenação penal do ex-reitor, sua renúncia e as irregularidades noticiadas constituem acontecimentos públicos relevantes.
Portanto, é indispensável distinguir os fatos: as suspeitas relativas ao título acadêmico do então reitor dizem respeito à sua própria situação e às pessoas efetivamente envolvidas. Não podem ser estendidas indiscriminadamente ao corpo docente da instituição.
Dr. Daniel Dias Machado: professor visitante, não dirigente ou sócio da universidade
Nesse contexto, surge uma distinção fundamental para compreender a trajetória do cirurgião brasileiro Dr. Daniel Dias Machado.
Cirurgião e traumatologista bucomaxilofacial, com atuação acadêmica em cirurgia de cabeça e pescoço, Daniel Dias Machado desenvolveu atividades de ensino na Escuela Profesional de Estomatología da Universidad Alas Peruanas.
O relacionamento com a universidade foi exclusivamente acadêmico, na condição de professor visitante contratado.
Suas atividades compreenderam disciplinas de Anatomia Humana de Cabeça e Pescoço, Patologia Humana Geral e Bucal, Histologia e Biologia Celular, Fisiologia Humana e Imunologia.
Daniel Dias Machado não exerceu a reitoria, não integrou a administração societária, não atuou como representante legal e não possuía competência decisória sobre o licenciamento institucional ou o reconhecimento de diplomas estrangeiros, conforme sua declaração formal.
Essa diferenciação possui relevância jurídica objetiva.
A responsabilidade por decisões administrativas não decorre automaticamente da existência de vínculo profissional com uma organização. Para atribuir participação em determinada irregularidade, são necessários fatos individualizados, elementos probatórios e demonstração da efetiva intervenção da pessoa investigada.
Em outras palavras, lecionar em uma universidade não significa administrar seus negócios, participar de seu patrimônio ou responder pelas decisões de seus dirigentes.
Sob a perspectiva do direito peruano, a responsabilidade penal possui caráter pessoal. A mera proximidade institucional, a nacionalidade brasileira ou a condição de antigo professor contratado não constituem evidências de participação em irregularidades.
Consequentemente, qualquer tentativa de transformar uma relação docente em suposta participação administrativa exige comprovação específica.
Reconhecimento no Peru: a trajetória acadêmica e social de Daniel Dias Machado
A presença de Dr. Daniel Dias Machado no Peru, segundo seu histórico profissional, não se limitou às atividades desenvolvidas na Universidad Alas Peruanas.
Entre 2017 e 2019, o cirurgião recebeu distinções institucionais do Congresso da República do Peru, do Parlamento Andino e do Comando Conjunto das Forças Armadas peruanas, em reconhecimento às contribuições realizadas no país.
Também participou de programas de capacitação em oxigenoterapia, de iniciativas relacionadas à Asociación Peruana de Medicina Interna e ao Colegio Médico del Perú, além de colaborações acadêmicas vinculadas ao Hospital Nacional Dos de Mayo.
Mais importante, porém, é reconhecer que contribuições acadêmicas individuais e decisões administrativas universitárias pertencem a esferas de responsabilidade distintas.
Segunda negativa da SUNEDU: a responsabilidade institucional volta ao centro do debate
A crise da Universidad Alas Peruanas não terminou com os acontecimentos de 2019.
Em novembro de 2022, a SUNEDU voltou a negar um pedido de licenciamento institucional. Dessa vez, a universidade deixou de cumprir 14 dos 27 indicadores de qualidade examinados.
Posteriormente, o recurso de reconsideração também foi rejeitado.
A repetição das deficiências reforçou os questionamentos sobre a capacidade institucional da universidade de atender às exigências regulatórias.
Segundo os registros oficiais, o encerramento das atividades acadêmicas foi estabelecido para 22 de setembro de 2025, enquanto o prazo máximo informado para concessão de graus e títulos se estende até 22 de setembro de 2027.
Dessa forma, as consequências da crise ultrapassaram a administração universitária e atingiram diretamente estudantes, graduados e profissionais vinculados à instituição.
A responsabilidade dos dirigentes não pode ser transferida a professores sem provas
O caso da Universidad Alas Peruanas demonstra como falhas de governança podem comprometer uma estrutura educacional inteira.
As decisões regulatórias comprovam o descumprimento de requisitos de qualidade pela instituição. Já a identificação de responsabilidades pessoais de dirigentes, inclusive eventuais responsabilidades civis ou penais, exige exame individualizado das respectivas condutas.
Por outro lado, não existe fundamento para converter automaticamente professores contratados em responsáveis pelos atos administrativos da universidade.
Essa é uma diferença essencial entre um fato comprovado e uma associação especulativa.
A crise da Universidad Alas Peruanas deve ser investigada a partir das decisões e omissões institucionais documentadas, sem comprometer injustificadamente a reputação de profissionais que atuaram exclusivamente no ensino.
Conclusão: a queda de uma universidade não pode significar a condenação pública de seus professores
A história da Universidad Alas Peruanas representa um episódio expressivo da transformação regulatória do ensino superior peruano.
Sua trajetória evidencia que crescimento institucional, reconhecimento público e expansão territorial não substituem transparência, qualidade e responsabilidade administrativa.
Entretanto, também apresenta uma advertência sobre os perigos da generalização.
A investigação legítima de um reitor ou de dirigentes universitários não autoriza atribuir a terceiros responsabilidades que não foram demonstradas.
A pergunta central, portanto, não é por que um professor brasileiro lecionou na Universidad Alas Peruanas, mas por que uma instituição de tamanha dimensão não conseguiu satisfazer os requisitos mínimos exigidos pela autoridade educacional peruana.
O esclarecimento da crise deve concentrar-se em seus fatos, documentos, decisões e responsáveis efetivamente identificados.
Afinal, o colapso de uma universidade é uma questão de responsabilidade institucional. A reputação de seus professores, por sua vez, não pode ser sacrificada para preencher lacunas de uma narrativa sem provas.
