‘Os Gigantes da Montanha’ ganha versão de Kiko Marques – 08/06/2026 – Ilustrada

Homem de cabelos cacheados e sobretudo verde está ao lado de carro vermelho com porta dianteira aberta e inscrições brancas nas portas. Ambiente escuro sugere palco, com outras pessoas ao fundo parcialmente visíveis.

A poucos metros do movimento da avenida Paulista, no coração do Bexiga, uma casa antiga na Bela Vista serve de palco para a Vila dos Azarados. No texto de Luigi Pirandello, o lugar é uma espécie de refúgio para figuras que decidiram viver à margem da sociedade e de suas necessidades pragmáticas. É nesse cenário que estreou, no dia 5 de junho, no espaço Zona Franca, a nova montagem de “Os Gigantes da Montanha”, com direção de Kiko Marques. A peça propõe uma experiência próxima para apenas 30 espectadores por sessão.

Pirandello dedicou oito anos à escrita deste texto, mas morreu em 1936 deixando concluídos apenas os dois primeiros atos. O desfecho da história chegou ao público por meio de um relato feito por seu filho, a quem o dramaturgo contou, no leito de morte, que havia encontrado a solução para o final, embora não tenha tido tempo de escrevê-lo. Na encenação atual, a incompletude da obra é usada como o ponto de partida para discutir os limites entre o desejo de criação e as forças que tentam silenciá-lo.

Para Kiko Marques, que encena o texto pela quarta vez, a peça é um trabalho em constante transformação. “Retorno a esse texto como quem retorna a uma pergunta sem resposta”, explica o diretor, apontando que “a cada nova aproximação ele se transforma —ou me transforma propondo outros caminhos de leitura”.

A trama mostra a chegada de uma companhia de teatro decadente à vila. Liderados pela Condessa Ilse, os atores insistem em encenar a peça de um poeta morto. Após fracassarem diante do público comum, eles encontram Cotrone, figura que defende o valor da imaginação frente à lógica da realidade.

O enredo traz uma forte camada de metalinguagem, já que a peça fictícia defendida pelo grupo existiu de verdade e foi um fracasso real na carreira de Pirandello. O ator Eduardo Venosa lembra que o autor escreveu a obra original para a atriz Marta Abba, por quem era apaixonado. Ao ser levada ao palco, a recepção foi ruim.

“Pirandello trouxe esse fracasso real para dentro da metafísica de “Os Gigantes da Montanha”, diz Venosa, concluindo que “há muito do próprio autor e do próprio sofrimento artístico nessa trupe”.

O conflito central acontece quando Cotrone sugere que os atores fiquem na vila encenando a peça para si mesmos. A Condessa recusa o isolamento e decide levar o espetáculo aos “Gigantes da Montanha”, personagens que representam a força bruta e a incompreensão diante da arte.

Na leitura do grupo, esses gigantes ganham endereço no topo dos prédios da avenida Paulista. Para o ator Ari Pinotti, a dinâmica resume o fazer artístico: “A peça equilibra-se nessa dicotomia: fazer arte para si mesmo ou levá-la aos outros para que se encantem?”. Ele acrescenta que a recusa da Condessa em se isolar na Vila dos Sonhos “traduz a essência do artista: o desejo de espalhar uma mensagem, de se apaixonar por um texto e querer transmiti-lo para alimentar a alma das pessoas de uma maneira que só a arte consegue”.

Para criar essa atmosfera, Kiko Marques elimina a distância tradicional entre palco e plateia, fazendo com que atores e público compartilhem o mesmo espaço físico. A apresentação começa ao cair da noite, com os atores descendo a rua.

A sonoplastia inicial é feita de forma mecânica, com o elenco acionando uma vitrola real, antes de passar a impressão de ecoar pelas paredes da casa. “O formato intimista é, fundamentalmente, uma escolha estética”, afirma o diretor.

“Essa imersão da plateia, o fato de estar cara a cara com os atores e receber uma presença plena, próxima e perigosa, faz parte da essência do teatro. A presença física do ator se impõe como uma verdade inquestionável. O perigo e a beleza do teatro residem justamente nessa exposição viva e crua.”

Se na ficção os atores sofrem com a falta de recursos, fora dela a realidade do teatro de grupo em São Paulo passa por dificuldades semelhantes. O espetáculo nasceu de um laboratório de pesquisa e dramaturgismo realizado no final do ano passado. Manter a temporada na Bela Vista surge também como um posicionamento diante do fechamento de espaços culturais independentes na cidade e do avanço do mercado imobiliário no Bexiga.

A atriz Alejandra Sampaio compara a situação da trupe de Pirandello com a rotina do elenco atual, que muitas vezes ensaia após jornadas duplas de trabalho. “Manter um espaço independente exige arcar com custos fixos altos: água, luz e aluguel. Nós somos, coletivamente, a representação real daquela trupe decadente da Condessa Ilse”, relata.

Ela aponta que salas pequenas tornam-se espaços de sobrevivência para os grupos e que o trabalho de formação de público precisa ser feito de porta em porta. “A inteligência artificial existe, mas nós somos seres humanos e operamos no ‘um a um'”, defende Alejandra. “Uma companhia nova e uma casa de resistência representam uma barreira subversiva contra a especulação imobiliária. Se não acreditarmos nessa micropolítica, os gigantes nos engolirão.”

No final, a montagem convida o espectador a suspender a busca por explicações racionais e se deixar conduzir pela lógica do sonho. O ator Bruno Rods lembra a reação do público nas primeiras apresentações do processo. “Muitas pessoas da plateia nos diziam: ‘Houve momentos em que eu não entendia racionalmente o que estava acontecendo, mas eu acompanhava pela sensação’.” Para o elenco, esse retorno reforça a capacidade da cena de envolver o espectador para além da compreensão imediata.



Fonte ==> Folha SP

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